Hoje (20), Marilyn Manson deu início à Heaven Upside Down Tour com um show em Budapeste, na Hungria.

A ótima novidade ficou por conta da adição de quatro músicas novas! Confira o setlist e vídeos abaixo.

1. Intro
2. Revelation
3. This Is the New Shit
4. mOBSCENE
5. The Dope Show
6. Great Big White World
7. No Reflection
8. (New Instrumental Song)
9. Sweet Dreams (Are Made of This)
10. Disposable Teens
11. We Know Where You Fucking Live
12. Deep Six
13. The Beautiful People
14. SAY10
15. Tourniquet
16. Coma White

Intro/Revelation

Instrumental

We Know Where You Fucking Live

SAY10

Parece que finalmente estamos tendo notícias do novo álbum, após o sumiço do Manson durante o dia 14 de Fevereiro, onde supostamente o Say10 seria lançado.

Em entrevista concedida durante a estreia do filme Rei Arthur - A Lenda da Espada, Manson disse que o novo disco está finalizado e que se chamará Heaven Upside Down. E, aparentemente, este título foi confirmado, já que a turnê leva o mesmo nome e já possui várias datas pela Europa, com início no meio do ano.

Mais informações sobre o novo trabalho devem ser reveladas em breve. Confira abaixo as primeiras datas anunciadas para a turnê!

 

20/07/2017 @ Budapest Open Air; Budapeste, Hungria

21/07/2017 @ Metal Hammer Festival; Katowice, Polônia

22/07/2017 @ Junge Garde; Dresden, Alemanha

24/07/2017 @ Metaldays 2017; Tolmin, Eslovênia

25/07/2017 @ Rock in Roma; Roma, Itália

26/07/2017 @ Villafranca Castle; Verona, Itália

28/07/2017 @ QStock 2017; Oulu, Islândia

31/07/2017 @ Stadium Live, Moscou, Rússia

02/08/2017 @ Sport Palace, Kiev, Ucrânia

04/08/2017 @ Waken Open Air; Wacken, Alemanha

05/08/2017 @ Tivolivredenberg - Ronda; Utrecht, Holanda

06/08/2017 @ Lokerse Festival; Lokeren, Bélgica

10/08/2017 @ Festival Rock Oz'arenes; Avenches, Suíça

12/08/2017 @ Fête de Bruit; Landerneau; França

14/11/2017 @ Annexet; Estocolmo, Suécia

15/11/2017 @ Hal 14; Helsingor, Dinamarca

16/11/2017 @ Sporthalle; Hamburgo, Alemanha

18/11/2017 @ Zenith; Munique, Alemanha

19/11/2017 @ Tip Sport Arena; Praga, República Tcheca

20/11/2017 @ Gasometer; Viena, Áustria

22/11/2017 @ Pala Alpitour; Turim, Itália

23/11/2017 @ Samsung Hall; Zurique, Suíça

25/11/2017 @ Velodrom - UFO; Berlim, Alemanha

29/11/2017 @ Mitsubishi Electric Halle; Dusseldorf, Alemanha

02/12/2017 @ Forest National; Bruxelas, Bélgica

04/12/2017 @ O2 Apollo; Manchester, Inglaterra

05/12/2017 @ O2 Academy; Glasgow, Escócia

06/12/2017 @ Civic Theatre; Wolverhampton, Inglaterra

08/12/2017 @ Newport Centre; Newport, Inglaterra

09/12/2017 @ SSE Wembley Arena; Londres, Inglaterra

Logo no dia da eleição americana, Manson lançou um trecho de seu novo vídeo. É para a música Say10, faixa título de seu novo álbum, que, segundo o próprio, sai no dia 14 de Fevereiro de 2017.
 
No trecho, é mostrado o Manson rasgando páginas da Bíblia. Depois, um cara loiro, usando terno e gravaga vermelha é decapitado. Uma clara alusão a Donald Trump, candidato do partido republicano à presidência.
 
Sobre o vídeo, Manson diz:

"Como artista, meu dever é fazer perguntas e o espectador deve respondê-las.
 
O que quer que aconteça amanhã, os visuais significam contemplação. Porque obviamente é maior do que apenas amanhã. É sobre os atos desesperados de pessoas que acreditam em algo e que são pregadas por um descrente.
 
Neste momento, estamos em um estado de confusão em relação a religião, política e sexualidade, e como eles se juntam e está virando um circo e um espetáculo à parte - e isso é algo que já fui descrito como sendo o líder.
 
Para mim, como artista, e como artista americano, parece que é hora de causar um novo leque de questões que não sejam somente declarações."

Manson disse que não irá escolher entre Donald Trump ou Hillary Clinton. E que as letras do álbum irão fazer mais diferença do que um voto na urna.
 
Assista ao trecho! O vídeo completo deve sair em breve.

 

Fonte: The Daily Beast

 

Amanhã, 2 de Novembro, estreia a terceira temporada de Salem, onde Manson faz o papel de Thomas Dinley, o barbeiro num estilo Sweeney Todd. O LA Times conversou com ele sobre a série e sobre o novo disco, Say10. Confira a entrevista na íntegra abaixo!

 

As respostas perturbadoras de Marilyn Manson sobre sugar sanguessugas e fazer salsichas em seu novo papel em Salem.

Aparentemente, basear uma série de televisão inteira nos horrores dos julgamentos de bruxas no século XVII não era o suficiente. Então quando Salem voltar para uma terceira temporada na quarta-feira, será com o roqueiro macabro Marilyn Manson fazendo o papel de um barbeiro/cirurgião/açougueiro sádico.

"Ele gosta de servir salsichas ao estilo Sweeney Todd como aperetivo," diz Manson, a.k.a Brian Warner, sobre seu personagem Thomas Dinley na série da WGN. "Ele também é um sociopata infantil que é curioso com o que há dentro do ser humano. Sua forma de descobrir é os cortando, e às vezes antes de estarem mortos."

Manson, que passou a maior parte de sua carreira propagando temas nauseantes em sua música, aparece regularmente ao longo da nova temporada de Salem. Mas quando não está fazendo o papel de um açougueiro sociopata, Manson ainda faz música sob o aviso de perigo aos pais.

O cantor de Los Angeles, que está finalizando seu décimo álbum, Say10, falou pelo telefone sobre tirar a maquiagem e ser alguém que não o Marilyn Manson.

 

Você já fez uma boa quantidade de trabalhos na TV e no cinema, incluindo A Estrada Perdida de David Lynch e Californication, mas parece que esse papel em Salem foi feito sob medida para você.

Após o primeiro dia, o co-criador do seriado, Brannon Braga, disse, "Apenas seja você mesmo." Eu perguntei, "O que você está tentando dizer?" e ele, "Bem, existem muitos elementos em você e no Dinley ao mesmo tempo." "Você quer dizer, tenho uma atitude completamente laissez-faire ao servir para as pessoas salsichas que são feitas de outras pessoas?"

No trailer para a nova temporada, parece que você está sugando um sanguessuga. Por favor, me diga que era de mentira.

Não era.

 

 

Ótimo, não vou mais conseguir "desver" aquilo.

Bem, eles eram reais. Tivemos até um cuidador de sanguessugas. Ele ficou preocupado de que eu fosse machucá-los, mas eu tinha a impressão de que eles não tem sistema nervoso, então eu tentei persuadir o cara. Disse a ele como eu costumava jogar sal nas lagartas quando eu era pequeno e ele pareceu bem insatisfeito comigo. Só achei engraçado que esse cara trabalhava como cuidador de sanguessugas, mas talvez não seja tão engraçado quanto um cara que coloca sanguessugas na boca por entretenimento.

Salem é baseado nos anos 1600. Como é ser um "cirurgião" naquela época?

É interessante (risos). A ciência não era uma coisa realmente entendida, então esse personagem é o cara que você vai se precisa que alguma coisa seja feita que não seja curável pela religião, medicina ou remédios. Se alguém vai ao local de trabalho dele, existe uma variedade de serviços, que vai de cortes de cabelo a extração de dentes. É uma versão de 1600 de um centro comercial onde eles tem uma loja de donuts próxima a um ortodontista.

Ironicamente, muitas das coisas que ele tem em seu escritório eu tenho [como decoração] em casa.

Tenho medo de perguntar, mas que tipo de coisas?

Equipamentos médicos antigos, boticários. Coleciono vários membros protéticos, e alguns são datados de muito antes da Guerra Civil. Vários aparatos médicos, boletins e diagramas. Muitas pessoas pensam olhando para a morte, ou que esses tipos de instrumentos são mórbidos e o que você esperaria ver na casa do Marilyn Manson. É o que você esperaria, mas muito pior.

Os papeis de filme e TV que são oferecidos a você sempre estão do lado obscuro?

Tem gente que me oferece o papel irônico, straight edge ou de comédia romântica. Na parte da comédia, eu posso ser o mais engraçado possível na circunstância certa. Mas não vou te dizer que sou engraçado agora porque isso me faz obrigado a ser engraçado. A pressão. Mas eu gosto do conceito de ser um ator de personagem. E eu gosto das carreiras de Gary Oldman, Tom Waits e Dwight Yoakam.

Você parece relativamente normal em Salem. Com isso, eu digo que você não está usando a maquiagem de Marilyn Manson. O mesmo vai para seu papel em Sons of Anarchy. Parece que você está disfarçado.

Eu geralmente depilo minhas sobrancelhas e não tenho barba, então se você coloca barba e sobrancelha, subitamente eu não pareço a mesma pessoa. Se eu decidisse roubar bancos, eu seria bom em evitar um processo criminal. É só tirar a maquiagem, deixar a sobrancelha crescer e eu viro uma incógnita. A barba já dá um pouco mais de trabalho. Levou uma semana pra ela crescer ralinha (para o personagem).

Você também ainda está gravando álbuns e fazendo turnê.

Sim, meu novo disco chama Say10, tipo Satã. Encontrei esse título no anuário do terceiro ano do ensino médio da escola Cristã que estudei. Faz bastante tempo. O disco é bem político, socialmente e sexualmente. Lida com coisas que falei bastante, mas talvez não tenha cantado o suficiente. Eu trabalho melhor quando combino imagem e palavras ao invés de só palavras. Me lembrei disso atuando.

É especificamente sobre a eleição que está por vir?

É ambíguo liricamente. Eu queria que fosse algo que qualquer um pudesse interpretar. As pessoas ouvem músicas que eu acho raivosas como sendo sexy. Ou músicas estranhas que eu acho sexy como sendo violentas. Se eu fosse culpado por quaisquer problemas na vida, esse álbum seria o que eu intencionamente estaria pedindo porque acho que a arte precisa chacoalhar as coisas. É o que sempre achei, só precisava de um lembrete e essa eleição foi isso.

Há outros papeis para filme ou TV?

Eu talvez faça algo no ano que vem em um filme grande, um filme de super herói que não posso falar.

E você faria o papel de...

Um vilão, claro.

 

 

 

 

Há exatos 20 anos, no dia 8 de Outubro de 1996, o disco Antichrist Svperstar era lançado. Para celebrar o lançamento de um dos maiores discos dos anos 1990, fizemos um post especial falando sobre o álbum e o analisando brevemente, mostrando as referências utilizadas pelo Manson para construir seu conceito e tudo o mais.

Por Erico Ferry

20 anos da obra-prima da apoteose anticristã

No ano de 1996, quando o movimento grunge já dava sinais de perder a força e o Britpop estava em alta aos quatro ventos, o continente norte-americano, mais precisamente os Estados Unidos da América, estava por vivenciar um novo movimento de contracultura com a explosão do Nine Inch Nails e o rock industrial ganhando cada vez mais espaço na MTV, mas ainda assim não tinham uma figura que tivesse cravado a faca no paladar da mídia.

Em 8 de outubro daquele mesmo ano, o país e o mundo receberam aquilo que seria uma das obras mais controversas, provocantes, críticas e complexas da história da música popular até então, senão a mais forte em termos de agressividade até hoje.

O mundo abre suas pernas para uma nova estrela” e Antichrist Svperstar era lançado pela Nothing/Interscope Records, produzido por Trent Reznor. Marilyn Manson até então vinha de um álbum de estúdio bem recebido e um single cover de Sweet Dreams (Are Made of This) do duo britânico Eurythmics, que teve sucesso mundial com seu vídeo repetido à exaustão. Mas faltava uma obra que consolidasse Manson e sua banda e os levassem ao estrelato e logicamente ao topo das polêmicas musicais da época. Antichrist Superstar foi a obra de fato conseguiu mostrar o potencial e sagacidade de Manson ao mundo do show business.

Com a premissa de “destruir o cristianismo” tão disseminado na cultura americana, o disco já tinha início na capa com Manson interpretando um Baphomet e partia de uma jornada conceitual com toques autobiográficos, misturando-se de forma eficaz com o satanismo de Anton LaVey (Fundador da Igreja de Satã, um movimento/corrente filosófica com o objetivo de combater as religiões cristãs, em cujo qual Manson foi nomeado pelo próprio LaVey como ministro), críticas sociais, ocultismo, Alquimia, Cabala, política, cultura pop e uma dose cavalar de sarcasmo. A base para a estrutura da obra parte da autobiografia de Manson que viria a ser lançada em 1998 com o título de Long Hard Road Out of Hell. Ao encarnar a personagem do Anticristo, Manson dividiu a narrativa em três ciclos no disco representando fases de desenvolvimento do protagonista: “O Hierofante”, “A Inauguração do Verme” e “A Ascensão do Desagregador” progressivamente nessa ordem.

Ao avançar na cronologia do disco, é possível perceber a genialidade de Manson ao se relacionar de maneira consciente à filosofia de Friedrich Nietzsche e o seu conceito do “Além Homem” explorado na sua obra Assim Falou Zaratustra e na estrutura de ciclos contínuos do disco, partindo então para a teoria do Eterno Retorno explorada em A Gaia Ciência. Não é uma mera analogia, mas de fato um mecanismo de funcionamento do Além Homem na figura do Anticristo buscando transcender o estado de alienação que a religião cristã e seus supostos valores injetam na mente do homem. A própria figura e visual, extremamente andróginos, e provocadores de Manson em palco refletiam a junção dos sexos em referência ao andrógino alquímico, um estado de transcendência do homem onde masculino e feminino se tornam uma criatura só superior à toda a personalidade rasa que nosso estado humano possui.

Essa complexidade também entra na dualidade Cabalística do bem e do mal, expressos pela máxima de que no mundo todas as coisas possuem um lado bom e um lado ruim, vindos como resultado da própria personalidade divina da tradição que emana uma força maligna em contrapartida. A dualidade acabou por ser um termo constantemente presente na obra posterior de Manson. Um estudo mais aprimorado pode levar horas ou dias, senão toda uma vida para encontrar as infinitas mensagens presentes na espinha dorsal do álbum. Nem mesmo o guitarrista estreante da banda, Zim Zum, passou ileso à influência ocultista de Manson, sendo Zim Zum um termo que denota a ausência de deus (Nietzsche mais uma vez). O Anticristo em questão seria justamente uma ironia reflexa dos valores da cultura americana, trazendo à tona que essa figura tão temida não é nada mais além do que a própria natureza do homem e seu estado racional e funcional entrando no conceito de Übermensch, assim como uma forma de mostrar: “Cá estou eu, produto da soma dos seus erros encarnado em tudo que vocês mais reprimem e condenam, vejam o quão disfuncional socialmente vocês me fizeram”.

Para entender ainda melhor como de fato funcionam as engrenagens de Antichrist Svperstar, é preciso analisar como se dá o desenvolvimento do seu conteúdo. Ao iniciar o disco e seu primeiro ciclo ( “O Hierofante”, numa alusão ocultista em referência à carta do Sumo Sacerdote do Tarô, que não por acaso é a quinta carta dos arcanos maiores em referência ao nascimento de Manson, 05/01/1969) com Irresponsible Hate Anthem, ouvimos gritos ensandecidos de louvor a um Manson ensandecido no palco, que destila farpas a respeito da cultura de massas norte americana e sua hipocrisia na figura do Rock Star, que por ironia do destino é um tiro pela culatra da marginalização cultural que os Estados Unidos tanto fizeram à população negra, que acabou criando do rock n’ roll tão odiado pelas mães e pais de família, um dos símbolos máximos da cultura do país que é o próprio Rock Star.

“Todo mundo é o negão de alguém
Eu sei que você é e eu também
Eu não nasci com dedos do meio o suficiente
E eu não preciso escolher um lado”

Na sequência, The Beautiful People continua a mostrar a língua afiada de Manson quando questiona o que de fato é padrão de beleza dentro da sociedade na qual cresceu, e como deixa claro em seu livro, não o recebeu de braços abertos em seu período estudantil.

“As pessoas bonitas, as pessoas bonitas
É tudo relativo ao tamanho da torre da sua igreja
Você não consegue enxergar a floresta pelas árvores
E você não consegue sentir o cheiro da sua própria merda em seus joelhos”

Ao afirmar:

“Os vermes vivem em todo hospedeiro
É difícil escolher qual eles comem mais”
,

vale notar uma clara alusão à maturação da figura do Verme, que seria a primeira fase da vida do Anticristo final. Em Dried Up, Tied and Dead to the World, vemos uma incisão mais profunda no cerne da história. Aqui o Verme se encontra ainda preso à aquele paradigma que vive, em uma relação de passividade para com o mundo, oprimido como se vivesse na tutela de uma superproteção paterna/materna. A última parte do primeiro ciclo vem com Tourniquet e sua atmosfera sombria de declamação por uma mudança de fase. No clipe da música Manson se encontra cercado por vermes, representações humanoides de criaturas em construção, e se fechando em um casulo no qual a personalidade do verme amadurece e ganha suas asas. Termina assim a primeira fase de sua vida.

“Síntese protética com borboleta
Selada com costuras de virgem
Se machuca, querida, por favor me diga
Preserve a inocência
Eu nunca quis acabar assim
Mas as moscas vão botar seus ovos

Jogue seu ódio em mim
Faça da minha cabeça sua vítima
Você nunca acreditou em mim
Eu sou seu torniquete”

Little Horn abre o segundo ciclo (A Inauguração do Verme) em uma letra profética à besta do apocalipse que se levanta dos mares e desce como um soco na face do mundo até então vigente, como sugere na alusão ao Abismo que encara de volta àquele que o fita por muito tempo, recorrendo a Nietzsche mais uma vez. Cryptorchid funciona como um interlúdio onírico. A criptorquidia é uma condição na qual um dos testículos não desce da cavidade abdominal para o saco escrotal. Manson possivelmente pode ter se referido a isso como um estado de reprodução imaculada do verme uma vez que essa condição clínica aumenta os riscos de esterilidade.

O clipe da música inclusive reforça o quão Antichrist Svperstar é uma obra multiplataforma ao se basear no filme surrealista Begotten de 1991, dirigido por E. Elias Merhige que, inclusive, é responsável tanto pelo clipe da música quanto a da faixa título do álbum. Tanto o disco quanto o filme de Merhige tem o mesmo tempo de duração, e se sincronizados se complementam como no efeito The Dark Side of the Rainbow (Em referência à sincronia também perfeita do álbum The Dark Side of the Moon do Pink Floyd e o filme O Mágico de Oz), o que faz sentido pelas interpretações mais comuns da obra cinematográfica, que trata de temas como o suicídio de deus e um ser representante dos instintos do homem e sua ligação com o mundo pela natureza, que ao trazer mudanças é saqueado, torturado e crucificado por monstros em uma alegoria à humanidade e o quão corrosiva se tornou ao mundo. Tal fato só serve para fortificar a grandiosidade de Antichrist Svperstar.

“Pique seus dedos e está feito
A lua agora entrou em eclipse com o sol
O anjo abriu suas asas
A hora chegou para coisas amargas”

Deformography, Wormboy e Mister Superstar formam uma santíssima trindade da saga do rock star em sua trajetória de decadência adolescente pelo sonho americano encarnado no sucesso midiático e na idolatria doentia impulsionada pela indústria do capitalismo.

“Hey, Sr. super ódio, eu só quero te amar
Hey, Sr. super foda, eu quero te chupar
Hey, Sr. super Deus, você vai atender minhas preces?
Hey, Sr. super homem, eu quero ser sua garotinha”

Angel With the Scabbed Wings indica em sua atmosfera furiosa a frustração do ícone alienado e sugado por todos, em uma espiral entorpecida.

“Ele é o anjo com as asas feridas
Altamente drogado ele quer o pó em seu nariz
Ele vai destruir a mais nova colheita
Secar todos os ventres com seus desgostos do rock n´ roll
Desgostos do rock n´ roll
Morto é o que ele está
Ele faz o que bem entende
As coisas que ele tem, você nunca vai querer ver
O que você nunca vai ser agora
Desenhe uma pequena fechadura para as pessoas no espelho
Você só quer vê-lo
Você não quer ser ele
Mamãe tem um espantalho para deixar o milho crescer
O homem nem sempre pode colher o que plantou”

É nesse ponto em que há uma reviravolta na trama e o protagonista começa a se rebelar contra esse resultado doentio das repressões e marginalizações que os valores sociais imprimem naqueles que não se adéquam ao seu grupo. Kinderfeld, que do alemão indica um local referente à infância, surge para fechar o parêntese do segundo ciclo e quebra a progressão do enredo e nos leva à infância de Manson. Talvez a música mais autobiográfica do disco, menciona diretamente um episódio pelo olhar de três personagens uma referente ao jovem Manson, outra chamada Jack que seria o avô e por fim uma voz misteriosa que surge para trazer de volta ao ponto de mudança do final do ciclo.

“[A inauguração do verme]

(Então eu consegui minhas asas e nem sabia
Quando eu era um verme, pensei que não conseguiria)

Uma voz que ainda não escutamos: ”Porque hoje está escuro
Porque hoje não há volta
Porque hoje suas mentiras me regaram
Me tornei a mais forte era daninha” erva daninha...

Através dos olhos de Jack: O gosto do metal, desagregador
Três furos sob o cinto de couro
Está cortado e inchado
E a idade está mostrando
Menino: ”Não há ninguém aqui para te salvar”

O desagregador (para ele mesmo): ”Isso é o que você deveria temer
Você é o que você deveria temer”

No episódio verídico, Manson que até então atendia por Brian Warner, descobriu seu avô em um ato de masturbação no porão da casa enquanto olhava fotografias de bestialidades. A referência ao trem se dá no fato do seu avô ligar trens de brinquedos elétricos para cobrir o barulho que fazia ao se masturbar. Talvez seja um momento que representa a quebra de inocência confrontada com a natureza animalesca do ser humano. O segundo ciclo se fecha e o a ultima mutação se aproxima.

O terceiro e último ciclo (A Ascensão do Desagregador) se inicia no coro da faixa título do disco. Aqui a persona do Anticristo já se apoderou do ser em desenvolvimento. Nessa faixa ele clama como um grito de autoafirmação todas as mudanças e destruições que trará para o mundo. Na faixa seguinte, 1996, Ele se debruça sobre a sociedade e suas distorções de realidade doentias como o fascínio por armas e a cultura de segregação com uma violência sobre-humana como um Zaratustra que desce da montanha após um período de autoaprimoramento.

“Anti dinheiro e anti ódio
Anti coisas que eu fodi e comi
Anti polícia e anti diversão
Aqui está o anti arma do presidente
Anti satã e anti negro
Anti mundo que está nas minhas costas
Anti gay e anti drogas
Eu sou um viado anti papa

Não posso acreditar nas coisas que não acreditam em mim
Agora é sua vez de ver o que eles odeiam em mim

Anti pessoas agora você foi longe demais
(Aqui está o nosso) anticristo superstar!”

Minute of Decay aproxima tudo do fim em mais um momento reflexivo referente aos pensamentos de desilusão, depressão, apatia e toda a sorte de mazelas psicológica que a sociedade enlouquecida em que nos vivemos trás. O anticristo se cansou de tentar mudar a humanidade uma vez que essa não se dispõe. Então o Anticristo se volta contra tudo em um niilismo latente na faixa The Reflecting God, desprezando o mundo, a ideia de deus e as ilusões de autopenitencia eterna.

“Seu mundo é um cinzeiro
Queimamos e rolamos como cigarros
Quanto mais você chora, suas cinzas viram lama
A natureza dos sangessugas, as virgens sentem-se enganadas
Você só passou um segundo da sua vida

Meu mundo não é afetado, há uma saída aqui
Eu digo, então é verdade
Há um sonho dentro de um sonho
Eu fico mais acordado quanto mais eu durmo
Você vai entender quando eu estiver morto”

O Anticristo destrona Deus. Enche os pulmões de ar e antecedido por trombetas celestiais traz o Livro das Revelações de João, ou, o Apocalipse em si. Um último grito de fúria na força da voz de Manson como se mil facas estivessem em sua garganta e tudo é lançado pelos ares.

“Eu fui até Deus só para ver e eu estava olhando para mim
Vi que o céu e o inferno eram mentiras
Quando sou Deus todos morrem

Cicatriz, você consegue sentir meu poder?
Atire aqui e o mundo fica menor
Cicatriz, você consegue sentir meu poder?
Um tiro e o mundo fica menor”

Man That You Fear surge para encerrar a obra com uma melancolia marcante onde Manson na pele do Anticristo trouxe as mudanças ao mundo, feriu o cristianismo e a humanidade. Com um olhar pessimista quanto ao que está em volta, ele vê que a humanidade continua a desprezá-lo e essa é sua sina em um caminho de flagelação pública, o que mais tarde se confirmou na realidade com o massacre de Columbine em 1999 onde Marilyn Manson foi usado como um bode expiatório para todos os problemas que o tratamento doentio dos EUA causou aos seus jovens. Após a conclusão do terceiro ciclo a faixa oculta, Track 99 nos leva de volta ao início do disco mais uma vez atuando nos conceitos de Nietzsche do Eterno Retorno onde o filosofo alemão diz que a humanidade está condenada a repetir pela eternidade um conjunto de situações como revoluções, guerras e crises. Talvez uma ironia amarga da realidade com a própria ironia do disco.

A conclusão final é de que Antichrist Svperstar é uma obra extremamente complexa e incisiva que permanece atual até hoje no contexto em que vivemos, no bullying constante, o fascínio por violência e o fanatismo religioso, assim como os dois trabalhos posteriores que formam a famosa “Triptych”  (Antichrist Svperstar em 1996, Mechanical animals de 1998 e Holy Wood (In the Shadow of the Valley of Death) de 2000). Uma obra que instiga, muda, expõe, transforma e mesmo 20 anos decorridos do seu lançamento aparenta ter acabado de se levantar furiosamente dos mares como uma besta apocalíptica prestes a dar um soco doloroso no estômago da sociedade, e outro no cérebro de quem se dispõe a iniciar a jornada com um cortante grito que pede a todas as crianças prestes a mudar suas concepções que cantem:

“Nós odiamos amar, nós amamos odiar!”.

Artigos relacionados ao Antichrist Svperstar no Nachtkabarett:

A Terceira e Última Besta

O Verme e o Dragão Vermelho

O Baphomet

A Maçã da Sodoma

Igreja do Anticristo Superstar

O Símbolo Shock

Antichrist Svperstar

Zim Zum


Ciclo I – O Hierofante
1. Irresponsible Hate Anthem
2. The Beautiful People
3. Dried Up, Tied and Dead to the World
4. Tourniquet
Ciclo II - A Inauguração do Verme
5. Little Horn
6. Cryptorchid
7. Deformography
8. Wormboy
9. Mister Superstar
10. Angel with the Scabbed Wings
11. Kinderfeld
Ciclo III - A Ascensão do Desagregador
12. Antichrist Superstar
13. 1996
14. Minute of Decay
15. The Reflecting God
16. Man That You Fear
99. Track 99

Em memória de Nick Kushner, que dedicou sua vida à arte e ao estudo minucioso da obra de Manson com uma inteligência sobre-humana e uma paixão evidente pelo que fazia. Sem Nick não seria possível ter o nível de compreensão e amor pela obra de Marilyn Manson que ele me possibilitou. Obrigado Nick, descanse em paz.

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14.11 @ Annexet
15.11 @ Hal 14
16.11 @ Sporthalle
18.11 @ Zenith
19.11 @ Tip Sport Arena
20.11 @ Gasometer
22.11 @ Pala Alpitour
23.11 @ Samsung Hall
25.11 @ Velodrom - UFO
29.11 @ Mitsubishi Electric Halle
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