A entrevista original, em Inglês, publicada no site Noisey, pode ser lida aqui.

Eu conheci Marilyn Manson no quarto de hotel onde ele estava, em Kensington. Depois de apertar sua mão, ele disparou pela sala procurando onde sentar; em um sofá de 3 lugares ou em uma das duas poltronas enquanto seu empresário tentava persuadí-lo a entregar o copo que estava nas mãos dele. Enfim, ele senta no chão com as pernas embaixo de si. Eu sento, de pernas cruzadas, em uma poltrona. Parece um pouco com uma sessão de terapia infantil e, neste momento, é difícil de ver como alguém tão obviamente malicioso poderia ser considerado o único mensageiro da morte social.

Mas desde o lançamento de seu primeiro disco, Portrait of an American Family, em 1994, Manson ocupou um espaço onde sexualidade, violência e ameaça pública se entrelaçam. Ele enfrentou níveis absurdos de críticas, desde alegações de mal comportamento sexual até ser culpado de 36 massacres escolares incluindo o massacre de Columbine, em 1999. Quando você está sendo estapeado com processos de ação coletiva com uma frequência que envergonharia Napster, qualquer outra pessoa pensaria em fazer parte do reinado um pouco, mas não Manson. Não, ao invés disso, ele se tornou um ministro da igreja de Satã, se retitulou como Deus da Foda, e, depois, como o Anticristo, só pra ter certeza de que nenhum cristão tivesse dúvidas sobre sua religião.

Mas quando a carreira de um artista se torna tão envolvida em percebidos ''valores para chocar'', pode se tornar difícil de evoluir. Entre 2007 e 2012 ele lançou um trio de álbuns estagnados, um deles incluiu um single chamado Arma-Goddamn-Motherfuckin-Geddon. Em sua maioria, no entanto, o trabalho de Manson segura um espelho e reflete na cultura pop a pior parte de si nela própria, enquanto, simultaneamente, fornecendo uma barreira por trás, em que ele pode dar uma boa risada de nós todos.

Eu, como todo mundo, estava interessada em saber onde Brian Hugh Warner, o jornalista de música jovem de Canton, Ohio, foi parar. E Marilyn Manson, o que se transveste e esfrega sua virilha na cabeça de seguranças por diversão começou. Mas o homem que eu conheci estava entre os dois: Marilyn Manson, comprou recentemente uma casa, espectador de seriados da hora nobre da TV, como Hannibal e Sons of Anarchy (que ele participa) e pai noivo de uma gata que deve ser sempre chamada pelo seu nome completo, Lily White, porque "ela odeia a palavra cunt". Esta leve, mas notável, mudança de vida parece que teve um efeito positivo em The Pale Emperor, seu décimo álbum de estúdio, e, discutivelmente, seu álbum mais definitivo desde o Antichrist Svperstar, de 1996. 

Durante a entrevista, ele desvia-se do assunto, levando a conversa pra onde quer que ele ache que deveria ir, o que é representativo de sua carreira, no geral. 

No caminho para conhecê-lo, nós (eu e Kylie, editora do Vice Fashion-At-Large) pensamos que seria uma boa ideia presenteá-lo com algo pra quebrar o gelo. E quando eu digo presente, eu quero dizer um unicórnio gigante e rosa de pelúcia que nós pegamos de uma loja de cartões na estação da Rua de Liverpool. Ele tira da sacola com suas luvas de couro pretas, diz ''que porra é isso?'' e então se recusa a soltá-lo pelos próximos 30 minutos.

Qual foi a coisa mais esquisita que alguém já te deu? Por favor não diga que foi o meu.

Foi o seu. Não, brincadeira. Eu acho que a coisa mais estranha que já me deram foi um cabide que pertenceu a Hitler.

Espera, como é? Foi no Natal? Quem te deu isso?

Aparentemente, um abortista. Não tenho certeza. Vou tirar minhas luvas, agora. O que significa que pode ser um sinal de perigo.

Eu vou arriscar. Então, sua música nova, Third Day of a Seven Day Binge poderia ser interpretada como um reforço ao esteriótipo de que você é um homenzarrão largado?

O que há de errado nisso?

Nada. Mas você acha que já foi, alguma vez, mal-interpretado?

Acho que você pode ser compreendido de forma diferente por todos, você não pode ser mal-interpretado. A menos que Mal-interpretado seja seu sobrenome. Olá, senhora Mal-interpretada. Seria horrível casar se o sobrenome de sua esposa fosse Mal-interpretada. Eu acho que Rachel Slur (NT: Termo que significa falar algo de forma incompreensível, embolado, como bêbados falam, por exemplo) seria um bom nome.

Você acabou de inventar isso?

Claro.

Então, a música...

Essa música é estranha. A primeira crítica da música dizia ''igualmente pegajosa e depressiva'' e eu gosto disso. Também deu 5 estrelas, o que é bom. Eu não gosto de críticas se elas não forem boas. Então quando eu estava escrevendo a música eu tinha uma ideia completamente diferente em mente. Eu estava pensando ''essa música vai manter muitas garotas na faculdade se elas forem strippers''.

Como?

Em parte, por causa da batida e o rítimo. Mas a música poderia ser interpretada, de forma externa, como sendo sobre drogas ou um relacionamento que deu errado. Ou bíblica. Essa é uma parte que eu acho que muitas pessoas não procuram saber - a extremamente simples ideia do que aconteceu na bíblia, no terceiro dia, Jesus ressuscitando dos mortos, etc e assim por diante. Eu digo etc e assim por diante por que me deixa puto quando as pessoas dizem etc mais do que uma vez. Tanto, que eu fiz uma tatuagem disso na porra do meu pulso. Logo, não vou poder me matar, nunca. Por que eu arruinaria minha tatuagem. Como eu sempre digo, de lado por atenção, de cima pra baixo para resultados. Você não vai ver eu me matando. Nunca.

Frequentemente sua carreira tem sido medida pelo choque. Você acha que as pessoas se tornaram mais facilmente ofendidas? Quando artistas como você e o Slipknot estavam aparecendo, as pessoas ficavam tipo, "Meu deus, eles estão falando sobre satã, merda e porra." Agora é mais, "Nossa, o Justin Bieber tem dirigido mais rápido que o permitido."

E ele não cagou e gozou?

Imagino que sim, mas não nesse momento em particular

Teve uma história de que eu fiz o Zac Efron cheirar uma carreira de cocaína no formato de uma suástica.

É verdade?

Não posso negar ou corroborar essa história, mas é engraçado. Quero dizer que o ponto é que você não consegue fazer um disco de rock n' roll sem ter nenhuma cicatriz, física ou emocional.

Como são as cicatrizes do rock n' roll?

Você tem que passar por um processo. Eu odiava o rock n' roll quando comecei. Foi na ponta do grunge e um monte de bandas que eu costumava chamar de "commonist rock" porque todo mundo queria ser o cara comum com camisa de flanela e o Pearl Jam e a luta deles contra a Ticketmaster e toda essa merda. O Nirvana era diferente. Essa foi uma das bandas que eu cobri primeiro como jornalista e vou adiante e digo que cunhei o termo "grunge" em uma review do Bleach. De nada.

O que você não gostava dessa época do rock?

Sempre fui fã de The Doors, e se você olhar para trás no rock n' roll - Elvis, Jim Morrison - nada mudou, sempre foi a mesma coisa. Tenho orgulho de ter nascido em 1969 porque foi o ano em que o primeiro disco foi culpado pela violência. O White Album dos Beatles. Charles Manson estava na capa da revista LIFE. O Altamont acabou o Summer of Love por causa dos Hells Angels. Estou no Sons of Anarchy e sou amigos de pessoas que podem ou não fazer parte dos Hells Angels, mas definitivamente andam de moto. E aquela foi uma época onde houve uma mudança completa em tudo. É onde eu fui gerado e não sinto que tenha mudado tanta coisa. Você pode se vestir de forma diferente, mas sempre vai ser a mesma coisa e não gosto de pessoas que fingem ser algo que não são. Isso poderia facilmente soar como baboseira, vindo de mim que estou segurando um unicórnio e usando batom, mas se você quiser brigar comigo, vá em frente. Eu apanhei à moda antiga e não com cyber bullying. Você quer saber como lidar com o cyber bullying? Desligue seu computador. Eu apanhei no ponto de ônibus. 

Voltando à cultura moderna e censura. Você acha que perdemos nossa capacidade de chocar?

Eu percebo isso, nos filmes, trabalhando no Sons of Anarchy eles me dizem coisas estranhas como, 'você só pode penetrar analmente um homem três vezes seguidas' ou 'você pode esfaquear alguém no pescoço três vezes.' Mas eu estava empolgado e esfaqueei seis vezes no pescoço. Não muitas na bunda. Mas essas regras são estranhas. Não sei se eles higienizam porque agora é muito mais violento do que costumava ser. Não me lembro de crescer assistindo isso. Agora você liga a TV é tipo, 'Ah, aquele cara com uma suástica na bunda fodendo o outro cara e então ele o esfaqueia, fim. E ele também é o Marilyn Manson, sendo lindo, com barba.'

Você tem um disco saindo em breve. A música nova tem uma vibe Southern Gothic. Você pode nos falar mais sobre ele?

Obrigado, você é a primeira pessoa a notar isso. A música foi feita pelo Tyler Bates. Às vezes eu toco tamborim - bem, um frasco de Vicodin - e acho que teclado talvez uma ou duas vezes. Mas na maior parte do tempo eu apenas ia e encontrava com o Tyler e tínhamos essa estranha ligação onde ele sentaria a uma certa distância de mim e dizia, "Olha, tenho uma ideia." E eu ligaria o microfone, colocaria os fones de ouvido e cantaria. E em grande parte das vezes eu estava escutando a música pela primeira vez.

Isso parece assustador.

Tudo que estou dizendo vai soar como um filme pornô homossexual, mas foi um jeito estranho de fazer o disco para mim. Tive que virar todo o meu mundo de cabeça para baixo.

Em que sentido foi estranho?

Eu comecei o disco no mesmo dia que olhei uma casa que ia comprar. Estava morando em um cômodo por três anos. Eu estava visitando a casa e fiquei apaixonado imediatamente com o quarto que parecia muito o escritório do Hannibal, do seriado. Fiquei apaixonado na hora. A pessoa que estava morando lá era o cara que atirou acidentalmente no Brandon Lee no filme O Corvo. Então eu fui de ver a casa até o estúdio do Tyler Bates e gravei a música Birds of Hell Awaiting, e quando fui até o banheiro fazer xixi eu vi a trilha sonora de O Corvo 2 pensei, "Ok, tem que ser." É parte da coisa toda. Então me mudei para a casa e comecei o disco e finalizamos, quase literalmente, o que é uma contradição, provavelmente em precisos nove meses.

Qual o útlimo tabu?

Culturalmente, não sei se há um último tabu. Acho que todos eles foram explorados em todos os degraus. Mesmo quando você assiste a seriados como Law and Order ou CSI ou coisas assim e zoam eles em outros programas porque é tipo "Semen! Abuso infantil! Encontrar um cadáver! Cabeça partida!" tudo isso. Eu não sei qual seria o último tabu a esse ponto, mas não estou procurando. Eu odiaria ser a pessoa que encontra o último tabu.

O que seria algo que a maioria das pessoas não sabem sobre você?

Elas talvez não saibam que eu parei de beber absinto.

Você não tem uma marca de absinto?

Sim, mas parei de beber por uma questão de vaidade. Tem muito açúcar nele. Senti como se tivesse me restringindo de estar em forma o suficiente para chutar a bunda de alguém. E também, sabe, quando você está mais em forma, faz seu pau parecer maior. Absinto é a mesma coisa que ter alguém com mãos pequenas segurando seu pau... quando você não bebe. Você está me deixando nervoso [olhando para o unicórnio]. Vou segurar isso todas as noites, é o meu travesseiro. Espero que não tenha um ânus.

Então você é o auto proclamado Deus da Foda. Você tem algumas dicas de sexo?

Não foda comigo.

Isso é uma dica de sexo?

Pode ser. Se você estiver se referindo a um menàge ou, tipo, sabe, como antigamente com as guerras civis quando as pessoas tinham que ficar em fila com armas e diziam, "Engatilhe!", se o sexo fosse assim, eu diria para não foder comigo, porque eu talvez seja um estilo mais Coração Valente. Seria um canalha. E você não quer levar um tiro. Na cara. Enquanto me fode.

Você acabou de se fazer rir.

Haha. Sim

Alguma coisa a mais?

Um estilete deixa qualquer calcinha com um furo no meio. Esse é o real segredo da Victoria.

Recentemente você disse em uma entrevista que o racismo é uma palavra composta, então dado a tudo que está acontecendo em Ferguson, estou interessada em saber sobre o que você acha que o "racismo" significa hoje em dia?

Isso foi uma coisa estranha que eles tiraram fora de contexto, mas achei legal que de repente virei o professor da etimologia da linguagem. O que eu acho é que não há palavras para eu, como uma pessoa branca, ficar ofendido. E eu também não acho que se você diz alguma palavra que é para ser considerada racista, que ela sempre vai ser. Se você não diz com malícia, só vai ser racista enquanto darem poder à ela. Se você pega um punhado de jogos de palavras, as embaralha e sai alguma palavra, é para ser considerado racista? Penso que não. Era a isso que eu estava me referindo quando disse que "racismo é uma palavra composa." Acho que, agora, eu provavelmente diria que as pessoas que ficam mais ofendidas com comentários ou eventos racistas ou coisas que são criadas para gerar controvérsia na televisão não são as pessoas afetadas por elas. É geralmente algum telecaster branco. Calma, telecaster é uma palavra? Não, é uma guitarra.

Você quis dizer 'broadcaster'?

Sim. Acho que é ignorante generalizar sobre qualquer coisa. Você pode me chamar de misógino, às vezes, talvez, mas você conhece pessoas em uma base individual e diz olá e essa é a diferença entre eu no palco e fora dele. Estou falando com pessoas agora. No palco, ainda não as conheci. Estou cantando para pessoas que ainda não conheci. Isso se aplica à toda minha falta de habilidade de entender ser julgado ou julgar alguém. Eu não carrego um martelo por aí. Se eu carregasse, eu usaria para bater em alguém que me julgou. Eu bateria de volta. 

A primeira vez que pudemos ouvir um trecho de Cupid Carries a Gun, foi quando ela foi usada como a música de abertura do seriado Salem (assista aqui). Após isso, pudemos ouví-la inteira quando a banda a tocou nos shows na época do Halloween, em Outubro/Novembro do ano passado (assista aqui) e agora, exatamente duas semanas antes do The Pale Emperor ser lançado oficialmente, a música foi liberada para streaming no Spotify e também para quem quiser comprar pela iTunes Store! Além de ter sido publicada no Youtube com um vídeo mais ilustrativo, nos mesmos moldes de Third Day of a Seven Day Binge.

Leia a letra e tradução aqui!

Manson foi entrevistado pela revista Britânica Classic Rock, onde fala sobre o The Pale Emperor, a importância do disco, o relacionamento com seu pai e mais. Confira, na íntegra, a transcrição e scans!

    

    

O Homem da Ressurreição

Um casamento despedaçado, um rosto cortado, 200 mil dólares gastos com drogas levaram Marilyn Manson a uma espiral decrescente. Mas com o estrelato na TV e um novo disco inspirado pelo pai, veterano da Guerra no Vietnã, o "Mefisto de Los Angeles" está de volta dos mortos.
 
O Natal de 2008 foi um caso solitário, mas espetacular para Marilyn Manson. Papelotes de cocaína foram pregados à parede de uma casa temporária, onde ele também havia escrito as letras de seu último álbum. No curso do dia de Natal, ele cortou seu rosto e mãos com uma gilete por 158 vezes - uma para cada ligação com o coração partido para Evan Rachel Wood, sua ex-namorada de 21 anos. Sua habilidade de tornar seu corpo e lar em arte mórbida, mesmo quando estava em um baixo retrocesso, era impressionante. A depressão de um homem que uma vez gostara de seus excessos era inegável.
 
Regalando um jornalista com seu conto de Natal alguns meses depois, Manson mencionou um gasto de 200 mil dólares em drogas. "Eu não tenho nada," ele disse. "Perdi tudo e peguei de volta, e estou feliz de morar em um hotel." Ele chegou em um hotel em Londres para falar com a imprensa Britânica em Junho de 2009, chapado de absinto e cocaína, com uma mulher sob seus ombros e soltando incoerências. No mesmo mês, dois dias antes de sua turnê mundial começar em Berlin, sua gravadora não fazia ideia de onde ele estava.
 
Antigos amigos viraram agora desdenhadores dessa figura que já fora icônica. "Drogas e álcool mandam na sua vida agora e ele virou um palhaço dopado," disse Trent Reznor, produtor do sucesso vendedor de sete milhões de cópias, Antichrist Svperstar. "Ele costumava ser o cara mais esperto de todos."
 
Um ano depois, a Interscope Records o tirou da gravadora, refletindo sua costante queda nas vendas no século 21. Sua importância a uma geração de jovens desafeiçoados ficou difícil de ser lembrada. O rockstar antes conhecido como Brian Warner já foi um para raios para as forças Americanas mais opressivas e perigosas. Ele era inteligente e articulado o suficiente para resistir aos ataques verbais e ameaças de morte daqueles que os viam como a incorporação de tudo que era podre no mundo. Sua armadura intelectual nunca foi tão forte - ou mais necessária - do que quando ele foi erroneamente acusado de inspirar o massacre em Columbine em 1999.
 
Mas desde o Holy Wood (In the Shadow of the Valley of Death) de 2000, tudo tem ido ladeira abaixo. Seu casamento com a estrela burlesca Dita Von Teese em 2005 durou um ano, com o divórcio preparado pelo affair de Manson com a atriz Evan Rachel Wood, com 19 anos na época. Ele não conseguia nem compensar lançando bons discos. Eat Me, Drink Me (pós Von Teese) e The High End of Low (pós Wood) foram deploráveis em todos os sentidos. "Comecei a pensar que não tinha mais sentimentos," ele confessou em 2009, "então por que se importar?"
 
Em 2012 veio o Born Villain, colocado como um retorno à forma. Não foi nada do tipo. O estado de espírito do Manson foi resumido no título de uma de suas faixas:Disengaged (NT: "Descompromissado").
 
Agora, em 2014, o Anticristo, de repente, acordou. Seu novo álbum, The Pale Emperor, é realmente um de seus melhores em pelo menos uma década. O molde do pesado rock industrial dos tempos recentes tem um novo brilho. Há músicas, e foco, e letras miradas com alegre precisão.
 
O Manson que está em seu quarto escuro no hotel Keningston, não tem mulher sob seus ombros, nem substâncias caindo de seu nariz. Sentado com seu rosto branco se aproximando, iluminado pela única luz que ele acendeu, ele fala constantemente, sem parecer confuso ou tagarela, mas calmamente contido.
 
A parte ruim é que Manson não está do lado confessional. Como ele canta em The Mephistopheles of Los Angeles do novo álbum, "I don't know if I can open up/I've been opened too much" (NT: "Não sei se posso me abrir/Já fui aberto demais"). Nem a mulher da gravadora sentada no quarto ajuda, fazendo um sinal no momento em que mencionamos cocaína. O relógio está batendo alto enquanto tentamos chegar ao coração da ressurreição de Marilyn Manson.
 
Ele certamente tem lido mais do que nunca. Jokey parabeniza que o The Pale Emperor significa que ele finalmente passa o Thin White Duke e provoca Calígua. The Mephistopheles of Los Angeles, que fala sobre o pacto de Fausto, era para ser o nome do disco e o coração do álbum.
 
"Se nos apegarmos à história de Fausto," ele diz, "e se eu tivesse naquela história, e tivesse vendido minha alma por fama e fortuna, e tivesse a arrogância do personagem naquela história, de não querer pagar de volta o acordo, me levou alguns anos para eu entender que eu estava ouvindo: 'Manson *bate na mesa*, o inferno está te vindo te buscar.' E esse disco é o meu pagamento. É a minha devolução ao que me foi dado, ou tirado, não tenho certeza. Tanto Fausto como Mefisto existem dentro de mim. Você não pode ultrapassar seus demônios. Você tem que lidar com eles eventualmente."
 
Que evidência ele viu de Satã batendo em sua porta, pedindo pagamento?
 
"A evidência está em mim entendendo que eu precisava fazer algo que estivesse acima das minhas próprias expectativas, minhas próprias regras. Se você acredita em alguma mitologia, e você quer viver sob esses comandos, eu tive que dizer a mim mesmo: 'Eu não estou fazendo o que é para eu fazer.' e eu tentei me convencer que eu estava. Não me arrependo dos últimos discos que fiz, mas desde o Holy Wood... Eu não tenho feito algo com a pura falta de medo e raiva e força (de antes)."
 
Manson reconhece, então, que a década de seu divórcio até seu novo álbum foi pior que a dos anos 1990?
 
"Bem, o tempo é muito difícil para eu entender," ele diz. "Não é linear. Digo, frequentemente nós temos isso *apontando para a escuridão do quarto* e eu não consigo te dizer que tipo de dia é. Mas acho que parte de mim está imobilizada. Ainda estou no ciclo de quando comecei isso, aos 23 anos, quando deixei minha casa e entrei em turnê. E eu realmente nunca senti a passagem do tempo. Nesse disco, eu percebo. E aproveitei aquela época da minha vida. Há partes que foram ótimas, e partes que foram ruins. Mas eu disse a mim mesmo que acredito que é mais importante ser uma pessoa que tem tudo para ganhar que alguém que não tem nada a perder. Então eu fiz um disco com esse sentimento."
 
Onde quer que o Manson se coloque, auto piedade não está na agenda do The Pale Emperor. "Esse disco era eu não escrevendo sobre isso. Escrevendo algo com gingado e confiança, sem qualquer tipo de medo como um pavão ou um elefante, que não tem joelhos, então eles não podem ajoelhar diante de nenhum Deus... Li isso uma vez em um livro Junguiano sobre sonhos," ele adiciona, uma coisa à parte que você não espera ouvir de nenhum outro rockstar. "Eu sabia a história que queria contar, porque era a minha história, que qualquer um poderia entender, como o blues. A história é, você entra neste mundo e você está sozinho, e no final do dia - alerta de spoiler! - você irá morrer sozinho."
 
A corrente de eventos que levou Marilyn Manson a redescobrir quem ele era e o que ele fez de melhor teve muito a ver com seu pai, veterano da Guerra do Vietnã, Hugh Warner, que fez uma viagem épica em 2014, do estado natal de Ohio, afundado no centro oeste conservador, até Los Angeles. "Eu não sabia por que ele não viajava de avião," Manson diz. "Ele disse que era porque queria espalhar as cinzas da minha mãe na Rota 66. Porque minha mãe morreu no Dia das Mães - obrigado, mãe."
 
Manson estava assistindo ao filme Apocalypse Now quando seu pai chegou.
 
"Eu estava na cena onde Robert Duvall está na praia, onde Charlie não surfa. Bombas estão caindo e ele nem reage. Pausei o filme e meu pai entrou e disse. 'Esse é o retrato mais fiel do Vietnã.' E ele disse que era muito difícil ser alguém que mata pessoas, e então chegar em casa e esperar viver uma vida normal. E eu nunca recebi uma explicação do meu pai sobre isso."
 
Manson pediu a seu pai para fumar um baseado com ele - incrivelmente, uma droga que o cantor nunca experimentou.
 
"Ele me disse coisas que nunca tinha ouvido antes, em toda minha infância. E eu disse, 'Pai, você vai gostar do disco.' Então, enquanto uma música no disco como Killing Strangers não tem a ver com ele, o disco se tornou muito sobre meu pai e minha mãe."
 
O desejo de ter vínculo com seu pai também o levou a ter uma parte como um supremacista branco no seriado Sons of Anarchy, da FX. Os três meses de gravação deixaram muitas mudanças, o que ajuda a explicar sua atual saúde pessoal e criativa. Basicamente, ele tinha que levantar cedo para trabalhar.
 
"É o seriado favorito do meu pai," Manson diz. "Então eu tentei estar nele para conseguir trazê-lo para Los Angeles, para estar no set. Uma vez que comecei a trabalhar nisso, mudei completamente meu estilo de vida. Virei de cabeça para baixo. Tinha que levantar às seis da manhã. Então as pessoas ficavam dizendo, 'Quem porra é você? De pé ao meio dia? (extremamente cedo para o noturno Manson), O que você está fazendo?' respondi, 'Estou trabalhando.'"
 
A mulher da gravadora está nos apressando. Mas ainda há coisas a descobrir. Manson não é o tipo de suportar uma conversa ao estilo do Lou Reed, e condenar substâncias que uma vez consumira. Mas seu humor reluzente, com dicas de terapias Californianas substituindo os antigos incitamentos, sugerem que o novo álbum o fez dele um novo homem.
 
"Parei de beber absinto faz umas cinco semanas," ele admite. "Tinha muito açúcar nele. Assisti a um documentário sobre como o açúcar afeta o cérebro humano e absinto tem mais açúcar que vodka, então troquei por vodka. Mas isso não significa que eu esteja sóbrio. Acho que tem mais a ver com o fato de eu ter entrado em um treino de luta, só queria ficar mais... ciente. Suas sinapses cerebrais começam a disparar de forma diferente, e você se encontra com menos necessidade de preenchê-lo com dopamina e adrenalina que as sinapses precisam.  Meus amigos que me conhecem bem não entendem. 'Você está treinando e acordado ao meio dia. Quem porra é você?' Bem, surpresa. Quando você achava que me conhecia, você viu que não."
 
Manson era um grande amigo de Hunter S. Thompson antes do autor de Medo e Delírio, atirar em si mesmo em 2005. Até a lendária constituição e arte de Thompson, sofreu com seu consumo de drogas e bebida. Isso ajuda a explicar o trabalho recente sem foco do Manson? O homem que uma vez viu seus porres como uma gloriosa decadência, admite que já fez sérios esforços para tomar as rédeas, indicando uma visita a reabilitação.
 
"Bem, o que aprendi quando estava entediado, quando fui a um hospital psiquiátrico, a uma reabilitação," Manson responde, "eram as regras simples. Beba quando você estiver de bom humor, não quando estiver de mau humor. E não fume crack, porque crack te deixa pobre. Cocaína também - na verdade te deixa pobre. E com a heroína você morre, e metadona deixa seus dentes terríveis. Nunca fumei metadona ou injetei heroína na vida, porque tive muitos amigos que morreram com essa merda. Isso foi baseado em uma simples observação, não em julgamento."
 
As sinapses agora disparam em todos os cilindros, reabilitação é só uma memória. OThe Pale Emperor foi feito por um Manson afiado e responsável. "Percebi que preciso me focar mais em criar do que destruir," ele diz. "No passado eu ia ao estúdio com receio. Agora você não conseguia me parar. Se tivesse uma parede com mulheres nuas, eu diria: 'Foda-se, vou para o estúdio.' Mas nem teve uma parede de mulheres nuas..."
 
"Vamos ter que cortar aqui," ordena a mulher da gravadora, agora ficando em pé em frente a nós.
 
"Mais uma pergunta?" pergunto suavemente.
 
"Se for bem rápido," ela resmunga.
 
"Se você me der vodka," Manson ri. "Vodka e uma pergunta."
 
Aqui vai. No período em que ele estava lançando aqueles álbuns fracos, que o The Pale Emperor os superou, o homem que uma vez já foi o coração do insulto Americano sente sua potência cultural sumir?
 
"Não acho que as pessoas lembrem de algo que fiz ontem, imagina dez anos atrás," ele diz. "Vamos me comparar a um pau. Potência, coração - sem precisar de viagra. Essa nova música é o meu pagamento ao meu acordo com o demônio, ou qualquer caixa metafórica que eu tenha criado para o passado. Eu vim aqui para foder com tudo. E eu precisava lembrar disso."
 
O barulho do trânsito começa a ser ouvido do lado de fora, mas Marilyn Manson de repente faz parecer que não está indo a lugar nenhum. Ele não soa como o Deus da Foda, mas como um tipo de filho que um veterano da guerra que mora no centro oeste ficaria orgulhoso.
 
"Sou o tipo de pessoa que defende suas morais. Tenho algumas regras. Se alguém tentar foder com o que eu acredito, o que eu amo. Você tem que ter vontade de morrer pelo que você faz. Eu quero morrer? Não. Eu sou fácil de matar? Não. Se você me foder vai se machucar? Provavelmente. Eu protejo o que importa para mim. E isso é um cara que defende sua moral. E essas morais são ditadas por mim, e não por alguma religião fraudulenta, ou alguns egos, ou algumas pessoas que não conheço."

Manson completa hoje 46 anos de idade!

Só podemos desejar o melhor para ele e sua carreira, e que o The Pale Emperor seja um enorme sucesso!

Confira os scans e a transcrição completa da entrevista concedida pelo Manson à edição de Janeiro da revista Rolling Stone, que já está nas bancas nos EUA.

      

        

        

        

O Vampiro de Hollywood Hills

Bem vindo à meia idade do Marilyn Manson: Mais academia, menos absinto - e seu melhor disco em anos.

 

Quando Marilyn Manson vai dormir, geralmente a manhã já começou, e quando ele acorda, uma completa escuridão não está muito longe. Nesse quesito, como em quase todos os outros, ele faz o que quer. Se ele quer lençois pretos em sua cama e com a temperatura sempre chegando nos gelados 18ºC, ele consegue. Outro exemplo: Vamos dizer que ele quer fazer amor com sua namorada, a fotógrafa Lindsay Usich, que é tão fina quanto a vassoura de uma bruxa e tem os cabelos pretos como um corvo, nestes lençois, nenhuma luz deve estar acesa. "Sou bem tímido, apesar do que você imagina," ele diz. Segundo, nenhuma cueca deve estar abaixada além dos tornozelos. "Tenho uma fobia de que a casa vai pegar fogo e eu não quero estar pelado," ele diz. E finalmente, cinco é o número absoluto mínimo de "congresso sexual", como ele gosta de chamar, que deve ter por dia, com dez sendo o máximo mais recente. E isso, aos 45 anos - "a idade de um pequeno recorde," ele diz, com sagacidade típica - embora dificilmente pareça possível.

Então novamente, o que exatamente sobre o Manson é possível? Dentre outros feitos, seu novo álbum, The Pale Emperor, é quase igual ao Antichrist Svperstar, o disco de 1996 que o elevou do terreno baldio pós-grunge de Fort Lauderdale ao shock-rock no topo, muito ao horror da Cristã direita, que em 1999 tentou culpá-lo pelos horrores do massacre em Columbine. Mas enquanto o Svperstar era todo sinistro e industrial, oThe Pale Emperor tem uma pegada blues, com sintetizadores pesados, acessível e cheio de grunhidos e tormentos, incluindo os sons agudos dos coiotes roendo em uma matança. Muitas de suas músicas, entre elas a recente Third Day of a Seven Day Binge, foram gravadas em uma única tomada, com todos os esforços subsequentes para limpá-las sendo ignorados. "É sujo", diz Manson de forma feliz. "Como a sujeira embaixo das minhas unhas, como alguém que tenha cavado uma sepultura."

Agora, a única coisa que ele está cavando é um refrigerante Sunkist de uva de sua geladeira em sua casa com estilo gótico em Hollywood Hills. Ele abre a lata, coloca um pouco em um copo, o abaixa e nunca mais toca nele. Então ele dá um passeio pelo lugar, mostrando seus pertences mais importantes. Há uma pilha de livros infantis (This Little PiggyWinnie the Pooh Meets Gopher). Uma caixa de Zyklon B sem uso, o gás venenoso que Hitler usou para exterminar os Judeus. Uma pistola e um rifle em uma mesa de café. Um premiado quadro de palhaço feito pelo estuprador e assassino em série John Wayne Gacy. Basicamente, são todas coisa que você deve esperar de um cara como ele.

Na parte de cima, atrás da porta de um quarto fechado, está Usich. Manson diz que ela não descerá esta noite. Talvez eles devem ter tido alguns problemas de relacionamento. Talvez ela não entenda que quando ele escreve uma música para seu novo disco como a The Devil Beneath My Feet, com letras do tipo, "Don't bring your black heart to bed/When I wake up you best be gone, or you better be dead" (NT: "Não traga seu coração preto para a cama/Quando eu acordar, é melhor você ter ido embora, ou é melhor estar morta") ele não está, necessariamente referindo-se a ela, embora o trecho tenha vindo de um texto enviado para ela.

Hoje ele está usando uma camisa preta, colete preto, casaco preto, calça preta e bota preta com meias vermelho-sangue, óculos de sol cobrindo seus olhos em uma sala que é tão escura que seu cabelo preto, cortado curto e assimétrico, quase não aparece. Ele se movimenta com graça, dedos agitados como um pássaro enquanto ele aponta o que é uma antiga cadeira de aborto que uma vez cobrira com um tapete de castor dado a ele por Brad Pitt e Angelina Jolie. "Eu o chamei de Montanha Beaver," ele diz, "e é onde eu fiz sexo com certos indivíduos que talvez tenha ou não resultado em meu divórcio." Rapidamente, ele pensa sobre isso e você consegue ver o próximo comentário formulando-se em seu cérebro. Espere. Espere. Aqui vai. "Não tenha medo do castor" (NT: A frase original é "don't fear the beaver". Em essência, "beaver" é castor, mas também uma gíria para vagina/boceta. É provável que o Manson tenha feito um trocadilho, mas como não temos certeza, deixamos a tradução original mesmo).

E então passos são ouvidos.

"Desculpe," ele diz, "mas parece que seremos interrompidos agora."

É Usich, usando um vestido colado aveludado com uma fenda peek a boo perto dos seios. Ela está indo para algum lugar chique?

"Não," ela diz. E então ela dá o fora passando pelos olhos observadores do palhaço de John Wayne Gacy e volta para o quarto.

É um momento desconfortável e fica sem explicação. Manson pega sua gata, uma idosa devon rex chamada Lilly White que tem uma delicada mancha do batom vermelho de Usich em sua cabeça, e observa ela ir embora. Ele teve muitas namoradas ao longo dos anos (atrizes Rose McGowan, 1997-2001 e Evan Rachel Wood, 2006-2010, bem como as atrizes pornô Stoya e Jenna Jameson) e uma esposa (a rainha burlesca Dita Von Teese, 2005-2006, vítima da Montanha Beaver), mas que com muita loucura envolvida, nenhum deles terminou bem. "Eu sou um imã para mulheres danificadas," ele diz mais tarde, sem especificar nenhuma.

E então é hora de ir para o Chateau Marmont para uma pequena diversão apenas para rapazes. "Vamos beber algumas coisas," ele diz. "Criaremos palavras próprias. Vamos tocar rap se quisermos." E, claro, iremos ver se vamos nos meter em alguma encrenca. "Eu sou o caos. Eu sempre fui o caos, meu ponto na Terra é o caos," ele diz, ficando agitado, "Sou o terceiro ato de todo filme que você já viu. Sou a parte onde chove e a parte onde a pessoa que você não quer que morra, morre. Estou aqui para foder tudo." O que significa que hoje pode ser um bacanal, cheio de coisas terríveis e maravilhosas. Espero.

De volta à virada do século, ele era conhecido como o causador da discórdia, maníaco e ofensivo. Em 1994, ele virou o ministro na Igreja de Satã e criou um grande negócio disso. No mesmo ano, auto proclamou-se o Deus da Foda, e dois anos depois, o Anticristo. Ele usava lentes de contato que não combinavam, uma castanho escuro e outra azul céu, que o fazia parecer desconcertado. Ele aterrorizava os religiosos de direita ao ponto de quererem seus shows banidos, eles colocavam como fato que qualquer menina virgem que fosse ao show, iria presenciar atos homossexuais no palco, uso de drogas, estupro e bestialidades, o sacrifício de virgens e animais. Os rumores aumentaram. Foi dito que ele havia removido suas costelas para realizar sexo oral em si mesmo. Todo tipo de escândalo não era só possível, como provável - incluindo cobrir uma groupie surda de carne e molhá-la com urina, o que, de fato, aconteceu. E então ele iria a talkshows tipo Bill O'Reilly para filosofar sobre os horrores da religião, a estupidez universal dos políticos e da primazia específica do indivíduo, mesmo se o indivíduo, assim como ele disse uma vez dele mesmo, é "um babaca intencional".

E mesmo pessoalmente, ninguém pode parecer mais galanteador ou suave que ele. Ele senta suavemente. Ele raramente fala obscenidades e fala com um agradável sotaque sulista. Ele é pesado sobre suas roupas; sua camisa está abotoada até o pescoço, cobrindo totalmente as milhares de cicatrizes que marcam seu peito. Ele está constantemente trabalhando em maneiras de melhorar; agora ele está na missão de apagar a palavra "tipo" como um hábito em seu vocabulário. E olhando para trás, ele diz isso na maior parte do tempo. "O aspecto P.T. Barnum (NT: P.T. Barnum foi um showman e empresário do ramo do entretenimento norte-americano) do Marilyn Manson meio que evaporou," ele diz, a prova de que no qual pode ser muito vista no contexto do The Pale Emperor.

Longe de sua música há tempos, claro, está o frontman Trent Reznor do Nine Inch Nails, que descobriu o Manson em 1992, co-produziu seus primeiros discos e então o chamou de "palhaço dopado" que, em seu desespero em ter sucesso como rockstar, iria fingir estar fodido e drogado mesmo quando não estava. Longe mais recentemente, pelo menos neste último disco, estão os membros de sua banda, incluindo Twiggy Ramirez, que costumava ser seu principal parceiro tanto no crime, quanto na música. Ao invés disso, Manson fez o The Pale Emperor apenas em colaboração com Tyler Bates, mais conhecido como compositor de trilhas sonoras para filmes como Guardiões da Galáxia e seriados como o Californication, que foi onde ele e Manson, que fez uma participação em 2013, se conheceram. Inicialmente foi só um 'oi', ao menos até certo ponto. Bates viu Manson bebendo alguma coisa verde e perguntou o que era. Manson disse que era absinto, oferecendo um pouco e ele aceitou. "Então eu fui para a cama naquela noite," Bates diz, "e de repente meus olhos saltaram da minha cabeça. Tenho esposa e filhos, nunca tive uma doença. Então alguns dias depois eu perguntei para ele, "Hey, preciso te perguntar uma coisa. Você não tem herpes, né?" e ele começou a rir: "Eu nunca tive nada, embora tenha pegado chato quando perdi minha virgindade." A bala esquivou-se, eles começaram a trabalhar juntos, com Bates trazendo todo um novo rigor ao processo de gravação do Manson e esperando ressuscitar uma carreira musical que Manson diz que "foi totalmente jogada na terra" após ele ter sido culpado por Columbine. Isso foi por volta de 15 anos atrás. Nesse meio tempo, ele lançou outros discos, entre eles o Eat Me, Drink Me e The High End of Low, e foram garimpados pela maioria dos fãs e críticas, e em 2009 ele saiu da Interscope, que tinha sido sua gravadora desde o início. Para mantê-lo ocupado, ele começou a pintar, atuar em mais programas de TV (mais recentemente, como um supremacista branco convicto em Sons of Anarchy), e perdeu-se em garrafas e mais garrafas de absinto. Ele ganhou uma boa quantidade de peso, ao ponto onde ele poderia ser chamado de atarracado, mas agora ele tem ido frequentemente à academia. ("Esteira; 10 minutos; pernas e braços em aparelhos, sem pesos livres.")

Atualmente, ele também passa bastante tempo saindo com o Johnny Depp, ao ponto de se hospedar na casa dele em Hollywood. Eles aparentemente se entendem como poucos. Literalmente, eles balbuciam coisas que descobriram que não precisam de palavras para se comunicarem. "Balbuciamos como se estivéssemos cantarolando um refrão, e terminamos as frases com gestos com as mãos," diz Manson. Em um nível mais profundo, eles compartilham fascinações e predileções. Em certo ponto, eles tentaram comprar a arma com qual Hitler se matou. E nenhum dos dois conseguem dormir se a TV não estiver ligada, com a preferência do Manson sendo por "coisas realmente altas e violentas."

Eles também têm tatuagens combinando: No pulso, a frase "NO REASON" e nas costas, "o esqueleto gigante das flores do mal de Charles Baudelaire" Manson disse uma vez, "É um tipo de segredo. As pessoas dizem para a gente, "Por que vocês fizeram essa?" e nós respondemos, "não há motivo."" E hoje ele diz, "Johnny é uma das únicas pessoas com quem consigo conversar. Não consigo explicar, a não ser que não precisamos dizer nada, mas realmente não podemos dizer para mais ninguém." O que quer dizer qualquer coisa, já que é o caso do Manson. E talvez ele terá mais a dizer sobre isso mais tarde. Mas por agora, ele tomou um double shot de vodka para voltar ao terraço do Chateau Marmont. Vodka é outra coisa nova. Os dias de absinto estão acabados, ele diz, principalmente porque "te deixa pobre e louco, e eu não quero terminar pobre e louco," e também não haverá mais uísque, principalmente porque, "foi assim que consegui as cicatrizes em meu peito. Me faz um traste. E teimoso."

É tarde agora, quase na hora de fechar, e se houver alguma treta, é melhor que seja rápido. No lado promissor, a situação está ficando menos sóbria e mulhers estão envolvidas. Uma garota Italiana chamada Titti, que é bem conhecida como uma das maiores fãs e já assistiu a mais de 1,500 shows, aparece, se convida a sentar e começar a olhar seu amado, dizendo coisas como, "Eu o amo" e "Ele é lindo". Após isso, um cara meio nerd de óculos aparece - Manson depois o chama de "Lasiks" - para pedir conselho sobre como segurar "a onça" que ele conseguiu. "Qual é o jogo?" ele pergunta para o Manson e o Manson responde, "Você deveria perder sua virgindade com ela e esfaqueá-la depois." O cara acena e diz, "Deixarei você sabendo como vai o esfaqueamento."

Então o companheiro e músico Shooter Jennings aparece das sombras e ele e Manson começam a conversar sobre como eles deveriam escrever uma música juntos. Manson vem com trechos bem evocativos, "I love you/Am I pretty?/Hold me/I'm going to kill myself," (NT: "Eu te amo/Eu sou bonito?/Me segure/Eu vou me matar") ele diz. "Vamos escrever a música amanhã!" "Fechou!" diz Shooter.

Um momento mais tarde, a atenção de Manson se volta à onça de Lasiks. "Você acha que ela tem cocaína?" ele pergunta, após ver Lasiks deixando o local para ir ao banheiro, autorizando-o a se aproximar da mulher. Rapidamente desenvolveu que eles passaram três horas juntos no bar do hotel Metropolitan em Londres. Há 12 anos. "Você está ainda mais linda do que antes," diz Manson. Ela diz, "Obrigada, querido. Estou feliz em vê-lo." Vai e volta nisso, sem levar a nenhum lugar em particular, até ele voltar ao Shooter. Após ele ir embora, quando perguntado se eles já tinham ficado, ela diz, "Não. Eu estava casada na época. Mas não vou esquecer a conversa que tivemos naquela noite. Ele foi um cavalheiro. Não houve nada dele estar tipo, "Venha" e eu tendo que dizer, "Tenho que ir embora." Ele estava me observando. Foi interessante. Ele é um homem especial."

De volta à sua mesa, Manson, o homem especial, está sendo formal e dizendo coisas sábias, tais como, "Eu lavo minhas mãos antes de fazer xixi porque sei onde meu pau esteve, mas não sei onde minhas mãos estiveram." O que poderia ser algo parecido com o que ele disse mais cedo: "Tenho um bloqueador de luz em casa, que irá mostrar se o esperma ficou em algum lugar, e Lindsay usou na minha cueca para ver se fiz algo sujo enquanto estive fora. Eu disse, 'Te enganei. Eu posso ter trocado de cueca. Como você sabe que eu não troquei?" Ela diz, "Porque você não troca sua cueca." Eu disse, "Verdade. Boa resposta, boa resposta." Tatti está rindo. E Manson está pedindo mais double vodkas.

Em breve estará na hora de ir. E ainda não aconteceu nada caótico, sem carne ou urina. É meio que uma decepção. Se o ponto do Manson é foder com tudo, então a noite não teve sentido. Ou talvez não. Manson tem um novo ponto em ser o Manson. E talvez ainda está para ser descoberto, por ele ou qualquer pessoa.

Quinze horas depois, está escurecendo na casa do Manson, onde ele, já provavelmente tendo engajado seus cinco ou mais "congressos sexuais" com sua namorada, está novamente acordando. O quarto é escuro e ficará assim. A temperatura é de 18ºC, como sempre. Ele aparece agora e escova seus dentes (se quiser saber, ele usa Aquafresh), enquanto senta no banheiro e faz xixi ("Minha mira é terrível"). Após tudo que ele fez no último dia, você pensaria que a próxima coisa seria um banho, mas não, não é o que ele faz. "Não sou muito de tomar banho," ele diz. "Costumo me enxaguar, mas ainda não fiz isso hoje, então se você está planejando me chupar, precisa esperar até mais tarde." A seguir, ele coloca suas roupas, todas pretas, logo antes da companhia chegar, ele passa lápis em seus olhos, Smolder Kohl da MAC, seu favorito "porque ele mancha, então fico com aquela aparência de 'acabei de acordar, acabei de foder'".

Ele desce as escadas, onde também está escuro e sempre estará, forçando seu assistente Ryan a usar uma lanterna. As armas não estão mais na mesa de café, mas o assassino ainda está na parede. Manson senta em um sofá e dobra suas mãos. No crepúsculo, ele é fascinante, a forma com que sua testa inclina, sua falta de queixo, a brancura de sua pele, e a total falta de sinais da idade em seu rosto, sem rugas, sem curvas, sem indicações da vida dura que leva.

"Bem, acho que ainda sou meio que adolescente," ele diz. "Digo, tive uma namorada que esteve em filmes pornográficos antes de namorá-la, e ela terminou comigo e disse que eu queria sexo toda hora. Ela disse, "Você parece um moleque de 14 anos, não aguento."

Ele diz que não sabe porque ele é assim, mas que provavelmente tem algo a ver com sua infância, crescendo como Brian Warner em Canton, Ohio, onde seu pai era um vendedor e sua mãe uma enfermeira que tinha a tendência de pairar. Podia parecer normal, mas era qualquer coisa, menos isso. Uma experiência em particular diz tudo: Aos 13 anos, Brian costumava espiar o porão de seu avô e observar o velho ficar perto de um trem elétrico e se masturbar com pornô de bestialidades, com barulhos grotescos emanando do buraco deixado em sua garganta por conta de uma traqueostomia. O garoto não ficou aterrorizado, fascinado ou mesmo hipnotizado, assim pavimentando o caminho, após a família mudar-se para a Flórida, para ele virar gótico-glam-metal-industrial, pegar o nome Marilyn Manson (como uma forma de casar os extremos de Marilyn Monroe e Charles Manson), formar uma banda de mesmo nome e eventualmente vender mais de 50 milhões de discos, no processo de virar a face do mal mais conhecida da nação.

Mas se tudo isso está no passado P.T. Barnum, seu presente parece ainda estar no processo de chegada, no qual talvez explique por que a noite passada no Chateau, nada foi fodido. Novamente, uma vez um vampiro, sempre um vampiro, e há muitas formas para um homem como ele evoluir.

Ele começa a falar sobre sua amizade com o Depp novamente. "Gostamos de nos considerar garotos da oitava série, os caras com mais experiência que os da quinta série, aqueles que as garotas querem dar. Digo, tempo e idade são realmente irrelevantes para mim. Com o Johnny é a mesma coisa. Ás vezes acho que estou preso na idade que comecei tudo. Estou preso nos 23 anos." Ou 14, claro, dependendo da companhia. Tudo no qual ajudaria a explicar muita coisa, incluindo sua necessidade ocasional de furtar coisas, com a mais recente sendo um par de óculos escuros da loja John Varvatos, que mais tarde ele contou a eles, "então tecnicamente não é furto," e uma caixa de chiclete de menta de um CVS, que ele diz que "jogou fora e nem comeu."

Ele parece estar tentando chegar em algum lugar com essas pequenas revelações e ele não para.

"Sou louco em todas as formas," ele continua, "no qual eu penso ser uma das minhas qualidades mais charmosas. Não é diagnosticável, porque envolve comorbidades, que é quando você tem várias desordens, então eles não conseguem descobrir o que é." Ele pausa por um momento, e então continua, talvez de algum outro lugar de sua cabeça, talvez até mesmo de alguma outra época. "Eu não gosto muito de ser íntimo com as pessoas. Acho que talvez duas vezes na vida eu tomei banho com uma garota e foi no escuro. Sou muito tímido. E também tenho um medo enorme de banheiras, talvez porque minha mãe costumava me dar banho em banheiras quando criança e eu tenho memórias fraturadas de não gostar."

O nome da sua mãe era Barbara e ela morreu em Maio, aos 68 anos, após uma longa batalha contra a demência, no qual ela não conseguia reconhecer seu filho. "Enquanto criança, estive muito no hospital," ele continua. "Tive anemia e pneumonia umas seis vezes." Foi dito a ele que ele sofreu de alergias estranhas, a coisas como ovos e amaciante. Ele também tinha lóbulos estranhamente grandes. Ele não se importava muito, mas sua mãe sim, e uma das primeiras coisas que ele fez após virar um rockstar com dinheiro, foi fazer uma plástica: "As pessoas nunca acreditam que eu fiz, mas veja, eu queria mantê-las. Mas isso era a minha mãe sendo do jeito dela. Foi sua sugestão."

E então, após pensar um pouco, ele explica o jeito dela. Ele sofreu de síndrome de Munchausen por procuração, ele diz, uma forma de abuso infantil onde a mãe induz sintomas reais, ou aparentemente reais, de doenças em uma criança. Ele falou sobre isso em público apenas uma vez, por volta de 15 anos atrás, e não foi nem mencionado em sua autobiografia lançada em 1998, The Long Hard Road Out of Hell, e até hoje, ele mantém as coisas breves.

Entretanto, basta dizer, que, de forma alguma, ele é alérgico a ovos e amaciante, com o lógico corolário sendo que qualquer doença que ele teve quando criança foi provavelmente causada por sua mãe e que fazer a cirurgia nos lóbulos veio diretamente de uma ordem dela que não poderia ser desobedecida, muito como as ordens que estão no lugar em sua própria casa, que as luzes continuem baixas, a temperatura permanece em 18ºC e os lençois são sempre pretos.

"Eu não tinha descoberto sobre a síndrome até depois de muito tempo, e não tenho certeza sobre há quanto tempo ela sabia," ele diz. "O que eu posso dizer é que aquela doença mental arruinou a família."

No qual, claro, é uma forma de explicar o Manson, que ele é mentalmente doente, por conta de todo o seu comportamento. E talvez seja verdade. Mas é também uma forma angustiante de se olhar para isso, não apenas por conta do futuro sombrio que prevê, mas também porque, de alguma forma, é muito errado pensar nele dessa maneira, reduzindo-o a uma série de desordens psicológicas. E é tão errado também para o Manson pensar isso, já que ele parece estar fazendo, como é para os seus muitos críticos terem voz, onde eles frequentemente falam, "Manson é Manson, ok?" diz Tyler Bates, e é tipo isso. Ele é muito glorioso para qualquer outra coisa, singular demais, por aí demais, um enorme brilho que ainda brilha um exemplo do que significa ser individual.

Mas chega disso. É hora de ir e deixar o Manson ser. Usich desceria do quarto para dizer tchau, mas ela não está vestida para isso. "Estou de pijamas," ela fala de trás da porta.

"Eles são abertos?" pergunta o garoto de 14 anos que mora dentro do homem de 45 anos. E então ele diz, "Qualquer coisa pode ser aberta se você carrega uma faca. E de qualquer forma, só queremos confirmar as cinco vezes."

Usich pausa. "Ah, sim," ela diz. "Tem sido mais que cinco vezes, mas sim."

Manson não terminou com ela. "Então," ele diz. "Imagino que você provavelmente esteja passando gelo em suas partes íntimas?!"

Outra pausa. "Ah, sim," ela diz. "Não consigo nem andar direito."

Quem pode imaginar como é a vida deles juntos. Mas, no final, não importa o que mais ele faça, ou onde ele vá, ou o que ele vê, ou quantas vezes ele transa, ou se ele furta coisas, ou qual o conselho terrível que ele dá, só podemos esperar que ele se divirta fazendo isso. Então, divirta-se esta noite, Manson.

"Não me diga o que fazer," ele diz, parando na porta. "Mas eu irei."

página: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 | 31 | 32 | 33 | 34 | 35 | 36 | 37 | 38 | 39 | 40 | 41 | 42 | 43 | 44 | 45 | 46 | 47 | 48 | 49 | 50 | 51 | 52 | 53 | 54 | 55 | 56 | 57 | 58 | 59 | 60 | 61 | 62 | 63 | 64 | 65 | 66 | 67 | 68 | 69 | 70 | 71 | 72 | 73 | 74 | 75 | 76 | 77 | 78 | 79 | 80 | 81 | 82 | 83 | 84 | 85 | 86 | 87 | 88 | 89 | 90 | 91 | 92 | 93 | 94 | 95 | 96 | 97 | 98 | 99 | 100 | 101 | 102 | 103 | 104 | 105 | 106 | 107 | 108 | 109 | 110 | 111 | 112 | 113 | 114 | 115 | 116 | 117 | 118 | 119 | 120 | 121 | 122 | 123 | 124 | 125 | 126 | 127 | 128 | 129 | 130 | 131 | 132 | 133 | 134 | 135 | 136 | 137 | 138 | 139 | 140 | 141 | 142 | 143 | 144 | 145 | 146 | 147 | 148 | 149 | 150 | 151 | 152 | 153 | 154 | 155 | 156 | 157 | 158 | 159 | 160 | 161 | 162 | 163 | 164 | 165 | 166 | 167 | 168 | 169 | 170 | 171 | 172 | 173 | 174 | 175 | 176 | 177 | 178 | 179 | 180 | 181 | 182 | 183 | 184 | 185 | 186 | 187 | 188 | 189 | 190 | 191 | 192 | 193 | 194 | 195 | 196 | 197 | 198 | 199 | 200 | 201 | 202 | 203 | 204 | 205 | 206 | 207 | 208 | 209 | 210 | 211 | 212 | 213 | 214 | 215 | 216 | 217 | 218 | 219 | 220 | 221 | 222 | 223 | 224 | 225 | 226 | 227 | 228 | 229 | 230 | 231 | 232 | 233 | 234 | 235 | 236 | 237 | 238 | 239 | 240 | 241 | 242 | 243 | 244 | 245 | 246 | 247 | 248 | 249 | 250 | 251 | 252 | 253 | 254 | 255 | 256 | 257 | 258 | 259 | 260 | 261 | 262 | 263 | 264 | 265 | 266 | 267 | 268 | 269 | 270 | 271 | 272 |









Marilyn Manson - Prêmio de Ícone pela Alternative Press (2016) Third Day of a Seven Day BingeThe Mephistopheles of Los AngelesManson fala sobre o ”The Pale Emperor” (2015)Manson dá suas impressões sobre o Natal (2014) Deep Six


ver +

facebook.com/marilynmanson
marilynmanson.com
twitter.com/marilynmanson


2008 - 2017 ® Marilyn Manson Brasil | Todos os Direitos Reservados