Marilyn Manson revela os detalhes sangrentos de seu show ao vivo chocante.
Ele é, sem dúvida alguma, o rei do shock rock, criando controvérsia com cada movimento grotesco que faz. Elevando a pressão sanguínea da sociedade mainstream com imagem pútrida; ter uma persona mutável é o que Marilyn Manson faz. E não acontece por acidente; Manson (cujo nome verdadeiro é Brian Warner) sabe exatamente o que ele está fazendo. Enquanto muitos rockeiros metálicos contemporâneos tentam elevar os níveis de testosterona adolescente com intimidação musculosa e humor babaca, Marilyn Manson procura elevar sobrancelhas com uma crítica volátil, venenosa e provocativa do status quo.
Quando visto pela última vez, Manson e banda estavam vomitando talento no palco principal do Ozzfet desse ano. Que seguiu na linha da turnê Guns, God and Government, que pegou esse apelido da música “The Love Song”, música da última obra do Manson, o “Holy Wood (In the Shadow of the Valley of Death)” da Nothing/Interscope. O álbum conclui uma trilogia, que começou com industrial e de sabor gótico, “Antichrist Svperstar” (1996) e continou com o “Mechanical Animals” (1998) no estilo David Bowie.
Seus shows recentes têm sua apresentação mais interessante até agora. Seus trajes incluem um vestido de fetiche mecânico que o eleva à 40 pés; uma roupa de arcebispo; e um par de enormes asas satânicas de morcego – apropriado, já que Manson foi ordenado como um ministro na Igreja de Satã de Anton LaVey. Ele também sussurra ao lado de um crucifixo feito de rifles. Resumindo, o show do Manson está mais bombasticamente local que nunca. “É sobre aquelas três palavras: armas, Deus e governo,” diz Manson em uma voz suave.
“Eu realmente quis colocá-los um contra o outro. Eu queria o palco, em um momento, apresentar a ideia de Deus e o que as pessoas adoram, e então trocar pela sede das pessoas pela violência e como elas são a mesma coisa. Então criamos o crucifixo de armas,” diz Manson sobre seu conceito. “Estávamos tentando jogar aquelas ideias nas pessoas, então as faria pensar e chegar em suas próprias conclusões. Não acho que você possa soletrar algo completamente. É como pregar, então prefiro criar uma porção de imagens fortes e deixar as pessoas se inspirarem por elas ou pensar sobre coisas de um jeito diferente do que elas pensavam antes do show.”
Embora a apresentação do Manson seja para chocar em todos os momentos, ele diz que a verdade sobre o seu show é distorcida. Alguns de seus boatos favoritos estão em uma seção “offidavit” de sua autobiografia, “The Long Hard Road Out of Hell” (Regan Books/HarperPerennial). “Torturar animais, jogar grandes sacos de drogas no público, estuprar garotinhos no palco,” Manson diz. “Em que país eles acham que isso aconteceria sem que eu fosse preso? Vou me mudar pra lá!” ele ri. “Como com qualquer mitologia ou folclore, muda cada vez que vai de uma boca para a outra. É sempre baseado em um pouco de verdade, e então vai para qualquer outro lugar.”
No entanto, ocasionalmente, a hipérbole dá ao Manson uma ideia eficiente. Não faz tempo, por exemplo, que “foi dito que eu estava planejando usar Bíblias rasgadas como confete no meu show. Que grande ideia!” diz Manson. “Acho que eles devem ter combinado o fato de que eu costumava rasgar uma Bíblia para ser simbólico e que eu disse que ia ler a Bíblia em Denver."
Para sua entrevista com a Onstage, Manson deixou de lado suas asas de demônio e lentes coloridas e revelou uma conduta sincera, articulada e, surpreendentemente, gentil. Ele falou sobre ensaios, musicalidade no palco e objetos acima da média – sem dizer sua cruzada pela liberdade de expressão.
O que mais te inspira hoje em dia para performar?
Acho que a mesma atmosfera política e social que tinha quando eu comecei a banda, meio que chegou no ciclo completo, e agora eu tenho o mesmo ânimo que tinha antes. Acho que o perdi de alguma forma no meio, mas agora eu me sinto meio que renascido, como eu fiz quando comecei a banda. Então eu tenho a mesma raiva em mim para dizer todas as coisas que coloco nas minhas músicas com uma real convicção.
Raiva do quê?
Acho que é uma combinação de pressão política – que inspira a censura, por exemplo – e a estupidez sem fim da religião. E a tentativa de culpar o entretenimento pelo modo que as pessoas se comportam. Como, claro, o que sofri com Columbine. [Na mídia, a música do Manson foi citada por, alegadamente, ajudar a inspirar o massacre no colégio Columbine em 1999 em Colorado, em que 2 adolescentes mataram 13 pessoas, incluindo eles mesmos.] Tudo isso combinado foi um tipo de ponto de ebulição. Então eu poderia ou parar de fazer isso, ou fazer de uma forma mais extrema que antes, e com mais convicção.
Você comentou com os jornalistas que você tenta não ser auto- indulgente no palco. Você acha que isso possa surpreender as pessoas?
Bem, sempre achei que, como um fã de música, ver um show curto e ótimo é melhor que um show longo e bom – porque fui a shows em que pensei que se tivesse acabado 15 minutos antes, teria sido o melhor show de todos os tempos. Mas ficou medíocre porque eles tocaram três músicas a mais do que precisavam e isso melou tudo. Não sou necessariamente consciente sobre entediar pessoas, mas ao mesmo tempo, sinto que não quero tocar música para o meu próprio entretenimento. Estou lá para entreter um público e fazer com que eles se sintam parte da mesma coisa que nós [os performers]. O melhor jeito de fazer isso é dando a eles o que querem. Ainda acredito que, como um artista, você faz o que você se sente bem. Mas você tem que lembrar que parte do que te faz bem é criar uma resposta de um público, então você realmente tem que ter um balanço nas coisas. “Devo tocar uma música de dez minutos que gosto muito e o público não a conhece, mas estou fazendo isso para mim?” Acho que isso é um pouco arrogante e vira auto-indulgente. Novamente, tudo que eu faço no palco pode ser olhado como auto-indulgente; todo o elemento teatral.
Conte uns dos pontos altos da turnê Guns, God and Government.
Quando eu estava no palco em Moscou, tinha um banner no estilo Comunista pendurado junto com o crucifixo de armas durante a “The Love Song”. Enquanto isso, o exército Russo estava na frente do nosso palco como seguranças, o que foi um pouco assustador. Eu ofereci a eles 50 dólares para subirem ao palco. E na Itália, eu trouxe alguém no palco enquanto cantava “Sweet Dreams”. Fiquei sentado em cima dele. Eu não estava encoxando ele ou algo assim; não estava nu, mas eles me prenderam depois do show e disseram que foi um ato lascivo no palco. Acho que eles estavam esperando algo só pra ter notícia, coniderando que o Papa está localizado lá. Mas eu não tive que ir para a cadeia; não teria sido tão engraçado. [risos]
Organizações civis e religiosas fazem protestos incessantes em seus shows.
Acho que realmente desenha todo o público em o que está acontecendo comigo, porque se eles vêm os protestantes chegando, instantaneamente eles viram parte do que eu sou parte. E isso faz a banda e o público virarem um grande “nós contra eles” – a força galvanizadora definitiva que cria a angústia adolescente. Os protestantes estão derrotando seu propósito o tempo todo. Eles estariam muito melhores sentados em casa, perfeitamente sossegados.
Você realmente ameaçou se matar no palco em 1996, como dito?
Não. Alguém me ameaçou de morte no Halloween, mas [foi dito de forma errada] que eu ameacei me matar.
Você infligiu muita auto-mutilação no palco ao longo dos anos.
As pessoas me perguntam sobre aquele período da minha performance, há alguns anos, quando eu realmente estava me destruindo. E eu estava recebendo milhares de ameaças de morte por dia, então era meio que a minha maneira, olhando pra trás, de dizer que eu era invencível à eles. Eu dizia isso me destruindo. Era irônico; Eu estava fazendo isso a mim mesmo [como um modo de dizer] algo às pessoas que reclamavam do que eu estava fazendo em mim. Virou um círculo vicioso.
Você ainda se mutila muito?
Eu uso toda a área de cicatriz. Todas minhas páginas estão repletas.
Eu fui a um de seus shows no Hammerstein Ballroom em Manhattan no ano passado. Durante o bis, seu baterista, o Ginger Fish, quebrou a clavícula caindo da bateria.
Coloquei meu pedestal na bateria e tentei puxá-la pra baixo, mas não estava conseguindo. Ele ficou louco – comigo ou com a bateria – e se jogou na bateria e foi parar no lugar errado. Mas ele terminou a turnê e ainda está se curando. Definitivamente vou ceder pra ele, porque aquilo foi bem dolorido.
Você quebra instrumentos com frequência no palco?
Tem dias que quebro e tem dias que não. Depende muito de como estou me sentindo. Lembro de ter visto o Paul Stanley [do Kiss] quebrando a guitarra dele ao mesmo tempo em todas as músicas, todas as turnês. Ele até tinha uma guitarra de fuga. E isso nunca foi o tipo de coisa que eu faria, porque se você faz algo por obrigação, então não tem por que fazer. Mas também há uma linha tênue, porque se eu sei que tenho algo para quebrar, minha mão meio que fica coçando e eu quero quebrar. [Risos] Mas eu não quero fazer isso apenas para entreter.
O que mudou nos seus shows desde que sua banda original, Marilyn Manson & the Spooky Kids, começou a performar?
Acho que depois de mais de dez anos fazendo isso, ficamos melhores, obviamente. Agora realmente parece uma banda. Nos entendemos. No passado foi uma enorme luta, especialmente com os guitarristas, para achar a pessoa certa que se encaixasse. Sinto que todos se esforçam. Não confiamos em uma pessoa enquanto o resto está se despedaçando.
Quando estávamos na Flórida, meu primeiro guitarrista [Daisy Berkowitz] nunca levou a banda à sério, no sentido de que ele nunca pensou que conseguiríamos. Por isso que ele não está na banda, por isso ele nunca conseguiu, porque ele nunca acreditou em si mesmo. Ele pensou que fosse um “passo” para a carreira dele. Ele não quis ser uma parte do time. Agora sentimos que somos parte de um time. Quebramos clavículas uns para os outros.
Quão a entrada do guitarrista John 5 beneficiou a performance ao vivo da banda?
Ele é, tecnicamente, a pessoa mais musical na banda, mas o que é mais importante é que ele toca com confiança. Acho que isso conta mais do que alguém que tem uma habilidade particular. Para mim, pegar um microfone pela primeira vez e nunca ter cantado antes – foi apenas estar confiante o suficiente para fazer isso.
Algo a dizer sobre seus contemporâneos?
Escuto outras coisas para saber o que é a competição. Mas nunca escuto com inveja. Não preciso escutar algo e ficar nervoso e competitivo, como muitas bandas. Uso isso como inspiração para fazer algo que acho que seja melhor.
Que tipo de música te influenciou ao longo dos anos?
Especialmente quando comecei a banda, gostava da música industrial, o tipo industrial dançante de bandas como o Ministry e Nitzer Ebb. Acho que tem um pouco da influência do rap, mas não de um jeito óbvio, apenas de uma maneira rítmica. Gosto muito de ritmos. São muito bons.
Suas influências industriais certamente apareceram no “Antichrist Svperstar” [que foi co-produzido pelo principal cara do Nine Inch Nails, Trent Reznor].
Sim, absolutamente. Toda a música saindo do final dos anos 80 que tinha a real sonoridade Europeia foi uma influência, embora o Ministry seja Americano. Tem ritmos bem rígidos; marchas regimentadas. É revoltado, quase uma sonoridade fascista. Então acho que foi uma boa influência, quando se trata de tentar fazer uma história no estilo do Nietzsche como foi o “Antichrist” e contar uma história musical sobre transformação.
O que você quer dizer com “transformação”?
Eu usei a analogia de um verme em uma borboleta. Tentando se tornar um indivíduo mais forte, alguém que acredita em si mesmo após ser dito que errou a vida toda. Acho que é o tipo de coisa que todos podem se relacionar.
O que é diferente sobre o jeito que você performa sua música ao vivo e o jeito que você faz em estúdio?
É mais preciso no estúdio. Mas seria mais interessante gravar algo no estúdio com a energia crua do palco.
Quanto a banda ensaia antes de uma turnê?
No começo de um ciclo, quando você está tocando músicas pela primeira vez e tal, há muito ensaio, e sou muito estrito e particular e que tudo tenha que ser tocado direito e do melhor jeito possível. Uma vez que está em forma, tem a parte de ser cru e a parte da improvisação. Mas tem que estar perfeito primeiramente; caso contrário, não dará certo.
A primeira vez que você se enfeita e toca com objetos teatrais é à frente de um público?
Sim.
Então você tem que confiar que dará tudo certo.
Sim. Volta àquela coisa da confiança: Você tem que seguir, e se algo não está funcionando, então você tem que fazer funcionar na hora. Seu pedestal cai, então você usa para bater em alguém. Se algo não está operando, taque fogo. [Risos] Dessa maneira você pode transformar algo ruim em entretenimento. [Risos] Então acho que todas as pessoas que demiti da minha equipe por fazer coisas erradas deveria ter dado crédito pelas minhas performances mais ousadas e destrutivas, porque quando algo dá errado é quando eu me jogo e aproveito mais. Talvez eles façam isso comigo de propósito! [Risos]
Como a nova tecnologia da música afetou seu jeito de performar?
Quando comecei a usar retornos no meu ouvido, mudou todo meu jeito de cantar – ficou muito mais fácil, muito mais forte, muito melhor. Me fez sentir como quando estou cantando no estúdio. E eu costumava não gostar de microfones sem fio e comecei a usá-los, também.
Por que não gostava dos sem fio?
Eu sempre tive medo de que talvez perdesse no público porque fico jogando coisas. E eu fiz isso algumas vezes. Com a minha mão suada, eu levanto meu braço com o microfone para o público e caía. Claro que ninguém devolvia. Esses tipos de tecnologias simples têm mudado o jeito que performo. Estar apto a ir a qualquer lugar do palco e me ouvir, e não ser pego naquela pequena área em frente ao meu retorno no chão – coisinhas estúpidas que fazem a diferença. Mas eu gostaria de sentar na frente e ouvir exatamente como um show soa. Porque quando você ouve isso em uma fita, não é a mesma coisa.
O que você mais gosta de ouvir no seu retorno além da sua voz?
O baixo é bem importante, porque normalmente está tocando as notas principais, que são as que eu canto. E a bateria.
O baixo é importante por causa da relação musical que você compartilha com seu baixista, Twiggy Ramirez?
Sim. Frequentemente damos baixa um no outro, então o baixo sempre vai ser o primeiro o instrumento para qual eu canto. E é a coisa mais fácil de se ouvir no palco para o tom e música. Com a guitarra, as frequências às vezes são muito altas, e se tudo está soando, incluindo seu ouvido, você não conseguirá cantar adequadamente.
Mesmo que você use o retorno, ainda é um problema conseguir se ouvir no palco?
Sempre tem problemas, mas faz tempo que não tenho tido tantos, porque acho que conseguimos um sistema que é a mesma coisa todo dia, e acaba soando perfeito. Se você está trazendo seu próprio sistema com você, não tem erro. Mas é interessante no Ozzfest, quando você tem tantas bandas e você não está tocando no seu próprio palco. Você pode entrar em um real enxame.
Você acha que é importante para um músico escutar uma variedade de estilos musicais?
Acho que sim. Nunca gostei de me chamar de “músico”. Sempre odiei esse termo.
Que tal artista?
Artista sim. Mas soa pretensioso. E não me importo de soar pretensioso se significa eu me chamar de artista, porque tenho orgulho do que eu faço; é arte, não apenas música.
Como é sua roupa atualmente?
No Ozzfest, a roupa que eu uso mais é o uniforme militar preto e, claro, gusto de usar meu corset – que, na verdade, é o lugar onde eu coloco a bateria dos meus fones.
A roupa de arcebispo ironiza o fato de que você foi banido na Inglaterra?
Eles tentaram nos banir várias vezes, mas sempre sem sucesso. De fato, tivemos um show esgotado na Arena Wembley – 14,000 pessoas. O que foi legal. A roupa é a que eu uso no video da “Disposable Teens”, mas foi mais para evocar a parte “Deus” do elemento Armas, Deus e Governo. E é interessante que você tenha notado que era um arcebispo, porque muitas pessoas acham que é a roupa do Papa. Todas essas roupas tem um simbolismo forte: Elas são perfeitos arquétipos.
Sua parte teatral é influenciada pelos anos 70, tipo David Bowie e Alice Cooper?
Claro, a era Ziggy Stardust do Bowie. Sempre fui fã de Alice Cooper, mas nunca achei que suas performances ao vivo fossem tão boas quanto o pessoal achava. Mas sempre adorei a imagem que cercava. Achava a banda muito boa. Nos primeiros álbuns o look todo deles era ótimo, e ele também, claro. Também o Pink Floyd, por seus grandes elementos visuais.
Como você relaxa antes de um show?
Não gosto de ter ninguém no meu camarim ante de um show. Se há muito falatório ou muitas pessoas em volta, me distrai. Namoradas tudo bem, mas não durante a hora antes de eu entrar, porque senão eu fico pensando naquelas coisas quando estou no palco e não quero ficar pensando naquilo.
Prefiro sentar com a banda, e assistimos um vídeo antes de ficarmos prontos. Frequentemente assistimos o mesmo filme repetidamente, então é quase como um ritual. É tipo, “Ok, quando chegar nessa parte do filme, sabemos que temos que escovar os dentes.” Fica regimentado. Acho que isso me faz sentir mais tranquilo.
Seus pais já te viram no palco?
Sim, várias vezes. Sei que é estranho para as outras pessoas. É estranho para mim que eles gostem tanto. Eles são tipo, muito fãs.
Por Jeff Perlah
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