Kerrang! (ESP) (2009)

Desculpe a demora, mas acabei de fazer um transplante de cérebro… Hey, seu nome é familiar. Nós nos conhecemos, né?

Sim, te entrevistei algumas vezes.

Ah sim, lembrei agora. Foi naquela boate onde fizemos amor no banheiro. Feliz em te ouvir de novo (risos).

Que horas são em Los Angeles?

Não sei, porque não tem relógio na minha casa, mas acho que é entre duas e três da manhã.


Você está confortável no mundo em que vive hoje?

Bem, agora estou deitado na minha cama, liguei meu umidificador e estou rodeado por fotos minhas e outros objetos, que nos olhos de um observador, transformam meu quarto em um covil de um assassino (risos). Apesar de tudo, estou feliz que tenha descoberto um pedaço que estava faltando na minha vida, e ele é o Twiggy, meu melhor amigo. Descobri em um nível artístico e de amizade. Por muitos anos, tentei trocar esse pedaço perdido através de outros relacionamentos, e não estou me referindo a relações sexuais ou íntimas, de fraternidade ou aquelas que você passa o dobro em sua vida. Perder sua amizade e gravar um álbum com ele de novo foi muito especial. Cara, não estamos tão exultantes em começar a fazer Yoga juntos e deixar nossas barbas crescerem de um jeito hippie (risos) mas estamos felizes porque nos lembramos o que são guitarras, nossos pintos e drogas. Acho que dou uma nova definição de felicidade (risos).
Em um nível emocional, também estou em uma nova fase, porque nunca vivi sozinho. Depois de deixar a casa dos meus pais, eu fui morar com a minha banda (Twiggy foi meu primeiro parceiro de casa) e morei com várias das minhas namoradas. Entretanto, desde Novembro, vivo absolutamente sozinho pela primeira vez na minha vida e obviamente, essa é a maior mudança.

O fato de estar solteiro de novo, irá determinar suas perguntas de alguma maneira nessa entrevista?

Você deveria perguntar para a garota que está ao meu lado agora, mas acho que parou de respirar…

Vá com suas próprias declarações. As guitarras nesse CD soam tão duras quanto o pau do Twiggy? Entretanto, ouvi muitos violões em algumas músicas. Que tipo de fase é sobre o pau do Twiggy?

(Risos) Hoje, no nível de guitarras pesadas, tudo foi levado ao extremo e não tem como ir adiante. Na minha opinião, foi o Pantera que criou a perfeita definição do que soa extremamente pesado. Já não posso fazer mais música pesada, então agora você só toca com a pontuação, tons, feeling e melodia. Soar pesado não significa soar o mais distorcido possível. A comparação que eu fiz com o pau do Twiggy, é que se você tem um pau pesado, mas avulso, você tem que levá-lo em todas as partes, considerando que, com um pau duro, você pode foder (risos). As guitarras foram gravadas como modelos acústicos: um microfone, guitarra e mais nada. Para a maioria dos tópicos, eu quis usar o mesmo tom para todos os instrumentos usados durante a gravação dos modelos. Twiggy, com aquele espírito cru e espontâneo.
Não buscamos a harmonia sonora, mas a imediatez. Por exemplo, a versão de “I Want to Kill You Like They Do in the Movies” tem nove minutos no CD. Cantei essa música duas vezes na minha vida. A primeira vez foi quando eu deixei uma rosa na notícia da minha separação com a Rachel, que proporcionou um grande detalhe. Obviamente meu jeito de superar essa situação desagradável foi se concentrar na minha arte. Havia muitas coisas na primeira vez que gravei a música. Acabou com 25 minutos. Obviamente não havia espaço no CD para uma música tão longa, mas não queria cortar, porque era uma reflexão exata daquela grande quantidade de emoções e palavras que saíram da minha boca: Não tinha uma palavra diante de mim. Aquela música tornou-se outra parte importante do CD e eu não queria mutilar. Quando terminamos o disco, quis ver o que tinha feito com a música. Me disseram que poderia no máximo ser uma música de nove minutos, então decidi voltar e cantar, mas a sensação que ela causa não é a mesma, porque eu estava em um momento diferente da minha vida. Desde que não há dor, vulnerabilidade nem algo de amargura na primeira Roma. Eu gravei do mesmo modo: Sem overdubs ou uso de Pro-Tools. Eu prometi que a versão de 25 minutos será lançada algum dia porque é o testemunho de um momento muito dolorido para mim.
Outra coisa que gostaria de destacar, é que pela primeira vez eu chamei pessoas fora da banda (amigos, namoradas e alguns desconhecidos) para presenciar a gravação da minha voz porque percebi que estava faltando um pouco do feeling de cantar em frente ao público. Gosto de estar apto a olhar no olho das pessoas para seduzir ou intimidar em um ambiente asséptico onde a gravação não pode ser feita. Minhas sessões de gravação no estúdio são no escuro e eu estava deitado no chão sem contato com ninguém.

Vejo você reunido ‘La Vida Loca’…

Você disse “vivendo the vida loca”? (risos) Vamos dizer que estou feliz em encontrar um ponto em minha vida onde minhas prioridades mudaram. Isso é algo que pode acontecer com qualquer um e talvez soe como algo normal, mas esse simples fato foi a peça-chave nesse álbum épico. Comecei a escrever as letras e cantá-las quase simultaneamente. Acabei amassando por volta de 30 cadernos cheios de ideias que tem sido pontuadas durante os dois últimos anos. Alguns deles levo comigo onde quer que eu esteja, mas ainda não sabia como aproximar as letras até que comecei a compor com o Twiggy. Os primeiros três meses de composição foram limitados ao papel de um fã, um expectador ou uma líder de torcida se quiser: Isso é como defino meu trabalho como produtor. Por outro lado estava Chris Vrenna (bateria, teclado, efeitos eletrônicos), a terceira parte desse ménage a trois: O trio criativo que deu forma a esse disco.
Às vezes Twiggy vinha com uma música pronta e pedia minha opinião, e às vezes, eu tinha uma ideia e dava as coordenadas para o Twiggy desenvolver mais.
Não toco guitarra ou piano de uma maneira muito competente, Chris e Twiggy são muito mais talentosos do que eu, mas senti como se estivéssemos em uma máquina do tempo que retornamos aos tempos do Antichrist Svperstar, somos o mesmo time de pessoas, incluindo Ginger, que tocou bateria nos dois CDs. Além de tudo, não canso de falar sobre a maneira que o Twiggy tocou nesse CD, porque foi ele que me tirou daquele bloqueio criativo em que me encontrava. É a primeira vez que posso dizer com absoluta certeza que Twiggy colocou sua alma em um álbum e suas músicas são como as letras que ele escreveu. Suponho que esse salto criativo musical está ligado com o fato de que ficamos longe um do outro por um tempo e isso desenvolveu suas habilidades como compositor para outros projetos. Digo ‘suponho’ porque não sei a verdade e também não me importa. Eu só estava muito feliz em ver o quanto ele se envolveu com o álbum.
Deve ser dito que o álbum começou obscuro e perturbado porque estava no ponto de estar cara a cara com um dos meus maiores medos, que é sofrer um bloqueio criativo. Por exemplo, a primeira faixa do álbum, Devour, é sobre o que poderia ser um pacto de assassinato-suicídio. Quando alguém te diz: “Vou te amar para sempre até você morrer” se você promete que está comprometido em todos os níveis e de repente um dia você quebra esse compromisso, você pode pegar o ponto que você quer fazer o “até que a morte nos separe” na realidade. Eu, pessoalmente, pensei em matar uma pessoa ao invés de me matar. Esse CD é paralelo a minha vida. As faixas e a ordem em que aparecem no álbum são como um diário da minha vida. Não precisa dizer que a maioria das letras foram espontâneas. Simplesmente coloquei palavras nas melodias enquanto escutava nos fones. Chris Vrenna foi o responsável por gravar minha voz e era o único jeito de escutar toda a fraqueza natural, as tosses e suspiros.
Quase todos os membros gravaram no disco de uma vez só, o que não significa que foi um processo fácil ou que fizemos tudo sem pensar ou que havia sido resultado de improvisação pura. Acredito que baixou a pressão do tempo quando eu deixo levar minha face mais brutal, honesta e direta. Algumas horas atrás voltei a escutar todo o álbum e toda vez tenho a impressão que lida com a história de Lúcifer, que uma vez caído e longe do Paraíso, se esforça para fazer sua própria procura sobre entender o amor. É sobre a paciência de sacrificar suas próprias asas em busca de encontrar felicidade e terminar com sua solidão. De algum modo, sacrifiquei minhas próprias asas, que simbolizam o fato de ser diferente, ou ser a porra de um artista ou um monstro que a mídia quer converter apenas para ser amado por aquela pessoa e perceber que depois de cortar as asas e tornar-se uma pessoa normal e acessível, meu sacrifício foi em vão. Sabe, às vezes as pessoas confundem a minha gentileza com fraqueza e não percebem o quão perigosos se tornam. Posso dizer que hoje, tendo aprendido com os erros do passado, não sou uma pessoa que é apta a aproveitar.

Parece que você tem uma atitude muito positiva sobre as coisas. Então não existe traço da crise dos 40, certo?

Se a crise dos 40 implica que eu só posso viver depois dos quarenta anos, então era para eu estar depressivo (risos). Você sabe quando começa a pensar sobre sua mortalidade e seu lugar no mundo, e então dizeres como “você está tão jovem quanto você” começam a adquirir mais e mais significados. Quando fiz o Eat Me, Drink Me, a metáfora central do disco era o vampiro refletido no meu desejo de alimentar a força vital de outras pessoas para que eu pudesse recompor outro relacionamento que eu desgastei bastante. Nesse caso, eu não alimento a energia dos outros além do meu próprio desejo de redenção, recobrir o que eu perdi e eu vejo de pessoas que tentaram impedir de atingir esse objetivo. Quando o penúltimo disco na lua, escuridão e vampiros existiram, agora foram substituidos pelo sol, luz e licantropos.

Há músicas de amor no disco?

Claro. Mas também depende do que você define como uma música de amor.

Que tal uma música acústica com letras sobre relacionamento?

Bem, acho que todas as músicas no CD são sobre relacionamentos, ambos Manson e o resto do mundo, como o próprio Manson. Um tema que reúne as características mais comuns de uma música de amor seria “Running to the Edge of the World”. É, sem dúvida, muito triste. Mas eu não a associo como um acústico de amor. Para mim, uma faixa romântica talvez seja “Pretty as a Swastika”.

Se você tiver algum tempo livre durante sua visita no Kobetasonik, você visitará o Guggenheim?

Eu amo. Um sítio que eu quero visitar, é o lugar onde Salvador Dalí nasceu. Espero retornar para visitas ambos depois da minha turnê de verão. Como você sabe, tocar em um festival, não te autoriza a fazer tudo que você pode fazer quando você faz seu próprio show, ou tocar qualquer coisa que você quer, e eu quero representar meu disco de maneira correta.

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