Revista Drum! (1997) (Ginger Fish)

“Ou o Manson vai me matar ou eu vou matá-lo.”
Ginger Fish não está se referindo ao seu vocalista de forma figurativa.

O baterista de 31 anos tem tocado com o Manson por um ano e meio, tempo no qual Fish levou uma pancada com um pesado pedestal – não uma vez, mas em vários shows – jogado nele propositalmente pelo chefe sociopata. Esse esporte brutal tem deixado Fish machucado, sangrado e sofrendo com um crânio rachado, várias e várias vezes.

É um show dos infernos. “Infernos” sendo a palavra operativa, claro, já que Manson deixa claro não ser apenas um membro da Igreja de Satã, mas um Reverendo, ordenado pelo fundador Anton LaVey.
Fish não é um praticamente do Satanismo, e ele nem mesmo conheceu LaVey. Ele, após ficar horas trancado em um ônibus de turnê com o Manson – acrescentou muito da doutrina da Igreja, que ele descreve como “eu-ísmo”. “É apenas a adoração de você mesmo e uma total desconsideração de todo o resto” – incluindo o crânio de Mr. Fish, aparentemente, que Manson tem usado como uma prática de alvo após seu amigo, produtor e mentor musical, o Trent Reznor do Nine Inch Nails, ter machucado seu baterista, Chris Vrenna, de forma semelhante com um pedestal no Woodstock de ’94. “Mas o Trent parou,” diz Fish. “Depois que ele acertou o Chris uma vez, isso nunca mais aconteceu. Então Manson pensou, ‘Bem, vou acertar o Ginger mais vezes, assim não sou comparado ao Trent’”.

Tanta coisa por isso. Um espectador inocente talvez se pergunte por que Fish não pega suas coisas e vai procurar outro trabalho? Para isso ele responde com o hábito, como se ele tivesse recitado isso milhares de vezes:
“O que mais eu vou fazer? Eu estava desempregado, procurando por um show na época que entrei para a banda. Meu desemprego sumiu e eu tive a oportunidade de me juntar ao Manson, [e agora que o Manson está me atacando no palco] todos estão tipo, “Faça outro projeto.” Mas há trocentos projetos lá fora que não estão dando certo. Manson esgota todas as noites, onde quer que iremos. A banda está indo muito bem.”

Certo, e afinal, Fish sabe que o show deve continuar. O antigo showbiz estava perfurado em seu crânio muito antes do Manson começar a rachá-lo, porque Fish nasceu em uma família teatral; seu pai é um crooner que saía com o Frank Sinatra e Paul Anka, e sua mãe é uma sapateadora que assinou com a Warner Bros. aos três anos.
Fish nasceu e foi batizado Frank Wilson em Framingham, Massachusetts, embora a família tenha mudado para Las Vegas – “Cidade do Pecado,” ele ri cinicamente – onde seus pais podiam trabalhar e criar uma família. Lá, Fish amolou suas habilidades na bateria, ainda que tenha encontrado pouca oportunidade para usá-las, e após o colegial, optou por trabalhar temporariamente no lendário Circus Circus Casino. Determinado a virar um baterista e cansado do cassino, ele mudou para a Flórida e tocou todo show que pode – incluindo a irônica tarefa de ser o baterista da peça Jesus Christ Superstar – até que ele finalmente foi recomendado de boca em boca para o Manson.

Foi uma reviravolta do destino. Manson quis um baterista que pudesse bater violentamente em um kit e programar metodicamente percussão eletrônica, e Fish encaixou-se perfeitamente.

“Tenho usado máquinas por 15 anos, desde quando eles começaram a fabricar a Dr. T Software e Commodore 64s, todos os primeiros sequenciadores e tal,” ele explica. “Se eu não conhecesse o equipamento, eu nunca teria a oportunidade de tocar com eles, porque isso era exatamente o que a banda estava procurando, para levá-los ao próximo nível. O baterista antigo não conhecia sobre sequenciadores. Trent teve muito o que dizer sobre quem eles escolheram. Ele basicamente disse, “Bem, eu sou o produtor e quero alguém que possa trabalhar comigo e meus equipamentos.’”

O background eletrônico de Fish pagou dividendos quando a família Manson começou a escrever material para o último disco da banda, Antichrist Svperstar. A banda ainda estava na estrada promovendo o lançamento anterior, Smells Like Children.  “Obviamente você passa muito tempo no ônibus e no hotel,” diz Fish. “Então muitas das músicas foram escritas no sequenciador sentado em um quarto com o Manson e o Twiggy [Ramirez, só deus sabe seu nome verdadeiro], o baixista que tocou guitarra na maioria do disco, também. Nós três sentaríamos em um quarto e diríamos, ‘Ok, vamos tentar algo com essa batida de bateria, esse riff de baixo.’”

Há certas vantagens em escrever arranjos dessa forma, como por exemplo finalizar a maior parte da pré-produção para seu novo disco enquanto você ainda está na estrada promovendo o outro. Mas houve pelo menos uma ocasião, enquanto faziam a pré-produção da música 1996, em que Ginger inadvertidamente saiu um pouco do que ele poderia fazer. “Por acidente eu programei uma semicolcheia de forma bem rápida, e quando o Manson escutou, ele gostou,” O canhoto, mas ocasionalmente ambidestro Fish lembra. “e então acelerou e ficou tipo 176 batidas por minuto no sequenciador e todas as semicolcheias com o bumbo. Agora eu pratico na estrada. Tenho um set Gibaltar no ônibus. Então, todo dia antes do show, eu ficava uma ou duas horas praticando o pedal duplo, pensando que depois que fôssemos ao estúdio para gravar, eu teria que tocar essa parte noite após noite. Mas quando fomos ao estúdio, o Trent fez uma coisa engraçada que os produtores fazem. Ele disse, “Vamos tentar algo diferente. Vamos tirar essa e aquela batida.” Então a 1996 mudou de várias semicolcheias para uma coisa mais sincopada.

Como um baterista dedicado lida com a mudança repentina enquanto o relógio do estúdio está passando as horas? Fish parece gostar do desafio. “Você tem seu produtor observando você e sua banda está sentada ali dizendo, ‘Ok, mostre para a gente o que você pode fazer,’” ele diz. “Tempo é dinheiro no estúdio, então você tem que estar apto a se adaptar rapidamente, você entra com uma ideia de como tocar alguma coisa e então o produtor muda o que você está fazendo e você tem que estar apto a mudar na hora.”

Seguramente sequestrado na Nothing Studios – casa de arte do Reznor – Fish baixou toda a pré-produção do sequenciador nos computadores do Reznor e a banda sentou com o produtor para arrumar a estrutura de cada música enquanto tirava detalhadas notas em pads. Eles digitalmente adicionaram, tiraram, alongaram, diminuíram seções enquanto eles chegavam em um consenso, no qual Fish, a esse ponto, começou a armar suas partes na bateria.
“Tiramos o som do sequenciador e eu toquei junto com com o metrônomo,” Fish diz. “Na mixagem final, havia algumas músicas que toquei os versos e o sequenciador tocou o refrão ou vice versa. Em algumas músicas eu estou tocando totalmente ao vivo ou toquei em duas partes: Uma na caixa e bumbo, e então eu tocava os tons em outra ou tocava com o pro tools. Nós cortamos e emendamos tudo.”

“Foi uma grande experiência de aprendizado para mim,” ele continua.
“Colocamos minha bateria em máquinas 48-track studor, e eu também toquei digitalmente no computador, então sempre podíamos cortar e colar, fazer qualquer coisa, basicamente. É o tipo de oportunidade que bateristas independentes não conseguem. Eles não tem esse tipo de equipamento para tocar e não fariam ideia do que fazer se tivessem.”
A prova, como eles dizem – quem quer que sejam – está nos sons da bateria do Antichrist Svperstar; são uniformemente gigantes em escala, embora Fish admita que ele teve pouca entrada em seus tons. Ao invés, ele confiou na aptidão de estúdio do Engenheiro/Co-produtor Dave Ogilvie, que inspecionou cada canto da casa gótica de Reznor em New Orleans para explorar sons de bateria incomuns.
“Ele fez vários tipos de técnicas de microfonação em diferentes salas do estúdio para cada música,” Fish explica. “Fizemos uma música na garagem. Dave microfonou o Porsche do Trent. Ele abriu as portas e usou-as como uma parede refletora. Fizemos para meio que curar algum tédio na época, mas acabou funcionando e soou bem legal. Obviamente o Trent veio e deu a palavra final, e Manson estava lá para cada bit. O Manson sempre está por perto para tudo.”

Agora há um pensamento assustador! Uma vez que a blasfêmia em áudio estava gravada e mixada, Fish teve que transformar suas híbridas partes da bateria em batidas que podem ser tocadas ao vivo – um risco assustador, descobrimos, ainda que Fish diga que tenha sido bem fácil, para nossa enorme surpresa. Ainda em ordem de manter uma aparência de coesão durante o apocalíptico show do Manson, Fish espertamente segue um metrônomo secreto em seu ouvido durante a maioria das músicas.
“Quando estou tocando com um metrônomo ao vivo, não disciplina como eu sinto, porque eu o tenho programado, então ele acelera e fica mais lento onde eu quero,” ele explica. “Então se estou chegando em uma parada e eu quero escolher, eu coloco três batidas a menos, e então quando a música fica bem pesada e eu quero mais agressão, eu mudo de três para cinco batidas.”

Ok, mas a maioria dos bateristas não odeiam tocar com metrônomo ao vivo?
“Eu uso um metrônomo pelo motivo de discussão,” Fish sustenta. “Muitos bateristas poderiam salvar seus trabalhos se eles aprendessem a tocar com um metrônomo. Se você toca com cinco indivíduos que bebem e usam quaisquer tipos de sustâncias estranhas, naturalmente algumas substâncias controladas te deixam alto, algumas te deixam preguiçoso. E se você tem uma pessoa na banda usando uma que deixa preguiçoso e outra pessoa usando uma que deixa alto e bebendo, vai gerar um conflito.

Não importa o quão bem você acha que toque, você vai ter uma discussão: ‘Você acelerou naquela música.’ Há dez anos eu me curei, então não tem músico que argumente comigo, porque quando tocamos aquela música, eu sei que são exatamente 98 batidas por minuto toda noite, ou o que quer que seja. Eu toco perfeitamente, então aquela está na mesma consistência noite após noite. Parte de ser um profissional é ser constante.”

Certo! Mas se você está como tantos outros bateristas que quebraram a cabeça em descrença após ver os vários surdos no chão e o enorme bumbo no videoclipe da The Beautiful People,  você talvez fique encantado em aprender que o excêntrico kit foi um pouco mais que uma loucura de último minuto.
“Era um enfeite a um certo ponto,” Fish admite. “Os produtores me disseram que eles estavam construindo essa engenhoca de metal para eu usar como bateria para o vídeo. Então fomos até Toronto fazer o vídeo e quando cheguei lá, não havia bateria nenhuma sendo construída. Tudo que eles tinham era aquele bumbo e uma caixa de madeira. E eu disse, ‘Bem, isso não vai funcionar, obviamente, porque a música a muito orientada ao redor dos tons e coisas assim. Tocá-la com o bumbo e caixa não faz sentido.’ Então no último minuto, as câmeras estão gravando, todos estão sentados ali e tudo que eu tenho é esse enorme bumbo e a caixa. Então eu acabei correndo até uma loja de música e peguei alguns surdos e os coloquei na minha frente, então pelo menos eu tinha alguns surdos para tocar como se fossem os tons. Todos comentaram que gostaram desse kit que eu toquei ali. Eles acharam que era um kit louco, mas foi apenas uma coisa de impulso que eu fiz para gravar o vídeo.”
É dificilmente o conto de cadência e deboche que você talvez espere de alguém da equipe do Manson. Salvo o fato de que ele frequentemente é machucado na cabeça e ameaça matar o líder da banda. O conto de inovação, trabalho duro e batalha de Ginger Fish são os vários elementos necessários para um músico profissional chegar ao topo do monte. Mas ainda, algo nos corrói – algo que talvez nós nem sabemos, mas mesmo assim temos que perguntar: Agora que Fish tem tido uma mão implícita em ofender os cidadãos de Deus com imagens e atos reais de violência, sadismo, satanismo e, geralmente, comportamento depravado. O que poderia, possivelmente, ser a próxima para ele e os rapazes?
“Talvez o total oposto,” o agredido Fish postula. “O Manson diz que ‘uma vez que tivemos feito tudo para chocar o mundo, talvez devêssemos virar Cristãos, então poderíamos chocar de novo.’ Talvez possamos completar o ciclo e começar a tocar música gospel.”

Aleluia para isso!

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