Showbizz (2000)

Atrás dessa lente tem um cara legal.

Ao contrário de sua imagem, Marilyn Manson é gentil e atencioso. Em nada lembra o artista associado com polêmica, ainda mais quando o assunto é divulgar seu próximo trabalho…

Por Daniel Oliveira, de Los Angeles, EUA

Faz calor nesta tarde de Junho, mas Marilyn Manson ignora trajes de verão. De roupa preta e óculos escuros, o polêmico vocalista acaba de chegar ao estúdio Westlake Audio, numa rua movimentada de Los Angeles. Ele está aqui para conversar com jornalistas estrangeiros e mostrar músicas do seu próximo álbum, Holy Wood (In the Shadow of the Valley of Death), “Vocês serão os primeiros a escutar meu trabalho novo.”, diz o cantor que está novamente de cabelo preto. “Vou tocar músicas que representam bem o disco, mas ainda não há títulos confirmados”, avisa.

Acompanhado por funcionários de sua gravadora, Marilyn – ou Brian Warner, seu nome real – leva os jornalistas à sala de gravação. Em pé, ele comanda a mesa de som com auxílio de um técnico. “Esta música deve abrir o disco, então gostaria de tocá-la primeiro”, anuncia com sua voz baixa e branda. Sua educação contrasta com o clima sombrio de sua arte. Afinal, seus shows têm atos grotescos e sadomasoquistas, seu pseudônimo une a atriz Marilyn Monroe e o assassino Charles Manson e seus álbuns exploram rock pesado por meio de psicodelia e surrealismo.

A primeira música da sessão tem andamento moderado e acordes de guitarra extremamente distorcidos. No refrão, o berreiro vocal surpreende os presentes. O instrumental é bem heavy metal, diferenciado apenas por um clima melancólico e uma camada de efeitos sonoros. “Vocês ficaram surdos?”, Marilyn pergunta após o fim da canção, justificando o volume altíssimo das caixas de som.

Ele se senta para mostrar a segunda canção. Como a anterior, ele segue a linha pancada de Antichrist Superstar, disco de 1996 que levou Marilyn ao estrelato. A canção seguinte, em contraste, lembra o estilo mais atmosférico de Mechanical Animals (de 1998), cujo tema critica seres humanos que não possuem alma e agem como máquinas. O canto melódico encaixa-se bem com o andamento lento. As três músicas seguintes retornam a metaleira de Antichrist Superstar, Uma delas é tão pesada que o vocalista começa a bater o pé. O engraçado é que, mesmo com a luz fraca do estúdio, ele não tira seus óculos escuros.

Terminada a sessão, Marilyn leva os jornalistas à sala onde ele falará de Holy Wood… pela primeira vez. É uma situação curiosa, pois o vocalista havia dito que seu site (www.marilynmanson.com) seria seu “único meio de comunicação com a humanidade”. A primeira pergunta então é óbvia: por que concordar em falar com a imprensa hoje? “O site é meu veículo preferido de expressão, porque ninguém edita minhas idéias ali. Mas, como vou lançar disco novo, seria injusto que eu, um ex-jornalista, não deixasse vocês me entrevistarem”, responde o artista.

Justamente por ser ex-jornalista, Marilyn sabe lidar com a imprensa. Suas respostas são diretas e desembaraçadas. Ele não se afeta com perguntas apimentadas. Um jornalista de sotaque fortíssimo lhe questiona: “A palavra ‘morte’ sempre está presente nas suas letras. Como você gostaria de morrer?” O vocalista ignora o tom negativo da pergunta e responde com humor: “Levando o máximo de pessoas comigo!”

Besteiras à parte, Marilyn diz que seu álbum novo será acompanhado de um livro – ambos programados para sair no segundo semestre. Holy Wood… e o livro complementarão a trilogia iniciada nos discos Antichrist Superstar e Mechanical Animals. O vocalista explica que invertidamente, Holy Wood… é o primeiro capítulo, Mechanical Animals, o segundo, e Anticrhist Superstar, o terceiro. Depois, ele lançará um livro com pinturas ligadas ao disco – já disponível em sua página na internet – e talvez produza um filme.

PORRE DE ABSINTO
Por causa dos ataques que sempre recebe da sociedade americana, incluindo acusações de ter inspirado o massacre de Columbine (onde dois estudantes, David Klebold e Eric Harris, entraram atirando e mataram 15 pessoas em Abril de 1999), Marilyn diz que sua raiva e boas doses alcoólicas inspiraram o disco novo, “Bebi 12 garrafas de absinto. Foi o que Van Gogh tomou quando cortou sua orelha”, ele fala da forte bebida proibida nos Estados Unidos. O vocalista prefere manter o significado do álbum em segredo, mas dá uma pequena pista: “Andei pensando muito sobre o Vale da Morte (na Califórnia, onde Charles Manson morou) e o assassinato do Presidente Kennedy, que comparo à crucificação de Cristo”.

Marilyn, que continuará com seus shows teatrais para promover Holy Wood… Sempre inspirado por Alice Cooper e David Bowie, ele garante que a próxima turnê terá um visual ainda mais forte do que os anteriores. “Não posso revelar os detalhes, mas planejo fazer os melhores shows da minha carreira”, finaliza.

Já que o assunto é turnê, o que Alice Cooper, considerado o inventor do rock teatral, teria a dizer de seu pupilo? “Marilyn Manson conseguiu causar polêmica e raiva nas pessoas efetivamente”, diz num hotel em Phoenix, Arizona. “Só espero que ele tenha senso de humor. Ele personifica Marilyn Manson, assim como eu personifico Alice Cooper. Ele não deve pensar que é Marilyn Manson na vida real”.

Gentil e atencioso, Marilyn está longe de seu comportamento obsceno e agressivo em palco, justificando a teoria de Alice. O fato é que, excluindo a imagem polêmica, a música é o fator principal na carreira de um cantor. Se o som não convence, não há sucesso. Marilyn, porém, cava tanta polêmica – e é aberto para falar de assuntos polêmicos – que o público acaba colocando seu talento musical em segundo plano.

Nessa entrevista exclusiva a SHOWBIZZ, na suíte do hotel a 20 minutos do estúdio, Marilyn abriu o jogo sobre algumas baixarias.

Você é noivo da atriz Rose McGowan, famosa pelo filme Pânico. O que ela acha de suas provocações sexuais no palco?

Ela respeita meu trabalho tanto quanto eu respeito o dela. Rose sabe que sou um artista. Obviamente algumas coisas que faço a deixam meio sem graça. Mas se ela quer ficar comigo, tem de me aceitar do jeito que sou.

O vocalista Boy George, do Culture Club, disse que você gostaria de cantar uma música dele. É sério?

Eu apresentei minha mãe ao Boy George, e ela ficou louquinha por ele. Tentei explicar que ele é bicha, mas ela não me deu ouvidos. Seria irônico eu fazer um cover para “Do You Really Want to Hurt Me?”, já que muitas pessoas querem mesmo me machucar. Mas não a farei. Apenas disse que seria uma idéia interessante.

Você mencionou na autobiografia The Long Hard Road Out of Hell que recusou um pedido de sexo oral do guitarrista Dave Navarro (ex-Jane’s Addiction e Red Hot Chili Peppers). O que ele achou disso?

Ele inverte a história dizendo que eu lhe pedi sexo oral. É apenas seu ponto de vista. Ainda somos amigos. Ele tocou numa música do Mechanical Animals.

Quem está falando a verdade então?

No que me diz respeito, eu estou!

Ele lhe deu permissão para colocar isso no livro?

Não, mas ele ficou feliz, pois sempre gosta de ter seu nome mencionado.

Você reclamou que a revista americana Spin publicou mentiras a seu respeito. O que houve?

Eu havia conversado com a repórter sobre aspectos negativos da minha gravadora. Ela então contatou a companhia para discutir essas críticas, o que me causou muitos problemas. Eu estava prestes a processar a revista, mas liguei para o editor com boas intenções e discuti o problema. Ele ficou babando o meu ovo e disse que me colocaria na capa da revista após o lançamento do Mechanical Animals. Nunca considerei a Spin uma publicação com credibilidade suficiente.

Seu grupo fez um show memorável no Brasil em 1997. Você acha que os brasileiros estão mais ligados em sua música ou na sua ideologia?

É difícil dizer. Eles devem identificar-se mais com a música por causa da barreira de língua. Acho que curtem menos o significados nas letras.

É verdade que você exigiu que as bebidas fossem servidas em copos de plástico durante as apresentações no país?

Não. Talvez os produtores tenham feito isso para evitar que eu fizesse alguma besteira. Já quebrei garrafas e coisas do tipo no palco, mas não me lembro dessa situação no Brasil.

Outra história é que você fez macumba para o diabo antes do show. Dá para confirmar?

(Risos) É mentira!

Dois fãs americanos foram presos ao vestir sua camisa “I Am the God of Fuck” (Eu sou o Deus da Foda). Você se sentiu mal em lhes causar problemas?

Com certeza, os fãs curtiram tanto esse problema quanto eu. De certo modo, eles desafiaram as pessoas quando vestiram minha camisa. Eles fizeram o que eu faço com a minha música.

Seu vídeo Dead to the World mostra pessoas protestando em seus shows. Você não acha que está lhes dando crédito demais?

Não mais do que me ajudam na mídia ao ficar protestando. Apenas quis mostrar ao mundo o que tenho de aturar todos os dias. Como essas pessoas ficam me seguindo, distorci seus rostos no vídeo.

Você fez um cover para “Golden Years”, de David Bowie, na trilha do filme Dead Man on Campus. Ele o influenciou mais no visual ou na música?

É difícil dizer. Tenho muitas influências. Ele sempre foi um dos meus ídolos, assim como Iggy Pop, John Lennon e Alice Cooper. Eles são ícones que possuem idéias fortíssimas além da imagem.
 

 

Tiro ao alvo

Marilyn revela sua opinião sobre alguns vocalistas famosos:

Ozzy Osbourne
“Me diverti muito excursionando com Ozzy. Ele é o mesmo cara de sempre. Por isso, é respeitado até hoje.”

Eddie Vedder (Pearl Jam)
“Chato, pretensioso e não tem nada para oferecer. Ele não faz vídeos nem dá entrevistas porque acha que o mundo ajoelha-se para sua banda.”

Madonna
“Uma grande inspiração. Ela se transforma de modos interessantes com o passar dos anos.”

Scott Weiland (Stone Temple Pilots)

“Ele buscou a fama e meteu-se num meio que talvez não lhe seja adequado. Eu apóio o uso de drogas, mas quem abusa delas queima o filme dos demais usuários.”

Gewn Stefani (No Doubt)

“Um doce de garota. Acho que seu namorado (Gavin Rossdale, líder do Bush) quer transar comigo.”

Keith Flint (Prodigy)
“Sucesso passageiro. Ele é um cara legal, mas não o considero um compositor. É apenas uma personalidade que se transformou num objeto da mídia. Não que ele não possua talento: só acho que não terá vida longa no meio musical.

Mick Jagger (precisa falar?)
“Demais! Ele compôs as maiores músicas do rock.”

David Bowie
“Talvez um dos maiores rockstars de todos os tempos. Ele cruzou fronteiras infinitas.”

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