Revista Jam | Confissões de um Anticristo Americano (1995)

Tatuagens pretas enfeitam a pele branquíssima. Cabelo ébano e comprido escorre pelas costas. Ele é um estudioso em magreza: Estrutura magra, rosto magro, braços magros. Um olho é castanho, o outro é um azul-olho-de-gato, cortesia de uma lente de contato. Ele está usando uma bermuda, botas e uma camiseta preta.
Conheci o Mr. Manson – a.k.a Marilyn Manson, no backstage em uma boate durante um final de tarde em Dezembro. Ele parece impossivelmente noturno, como se uma luz o fizesse encolher.
Em 1994, com o apoio da Nothing de Trent Reznor, Marilyn Manson, de Ft. Lauderdale [uma banda de cinco caras já chamada de Marilyn Manson and the Spooky Kids] lançou o Portrait of an American Family, um álbum tão explícito que contém dois adesivos Parental Advisory. Com guitarras metálicas e afiadas e batidas estrondosas. Mr. Manson grita letras de mau gosto sobre sexo bizarro, vingança com arma, auto-abominação, horror e dor.

Não é tão fácil ser controverso hoje em dia. Há muita competição. Mas, no momento, Marilyn Manson é um dos shows de rock mais vulgares na cena. E com uma mentalidade política conservadora ganhando controle na América, a família Manson talvez precise irromper os coletes de guerra.
A primeira ressalva foi queimada: Mr, Manson foi preso no Club 5 em Jacksonville no dia 27 de Dezembro por “violação do entretenimento adulto.” Um policial alega que durante o show, Manson abaixou as calças para “revelar um pênis preto de mentira e começou a apertá-lo. Ele apertou várias vezes e espirrou um líquido desconhecido no público. Ele abaixou as calças, mostrou a bunda, e não mostrou que ia colocar a calça de volta.”

Para Manson, foi apenas outra noite no escritório. O falo falso é uma parte regular de seu show. De repente, uma prisão. O que incomoda mais o Manson não é impedimento de lutas legais, mas sim que seus advogados insistem em não deixá-lo falar sobre a prisão. Então ele evita o assunto.

“As pessoas que estão tentando impor todo o conservadorismo na gente, toda a conformidade política, são as mesmas pessoas que criaram o Marilyn Manson,” Manson diz. “Elas são as mesmas pessoas que me criaram com a cafeína, açúcar, tabaco, álcool, drogas, violência na TV, pornogafia. Agora elas não conseguem mais lidar. É o NutraSweet, PG13, menos violência na TV. É tarde demais para isso. Eles criaram o Marilyn Manson. Marilyn Manson, para mim, é uma representação da minha geração, minha cultura. Dessa maneira, acho que aquela mentalidade conservadora precisa existir para o Marilyn Manson existir. E se o Marilyn Manson, e que ele o representa, não estivesse aqui, eles provavelmente também não estariam aqui. Confiamos um no outro.”

Manson fala introspectivamente, respondendo cada pergunta com articulação previdente. Ele raramente faz contato visual, e quando ele faz, é com aquelas órbitas de duas cores, que ele diz que representa a dualidade do artista: o Marilyn (Monroe), o provocante, insinuante; e o Manson (Charles), o manipulador malvado. Essas características estão em todos nós, ele diz.

Sem surpresa alguma, Mr. Manson é um enigma. Em um momento ele parece vulnerável, como quando ele fala sobre os seus dias de criança irreligiosa em uma escola Cristã. Outras vezes ele é desafiador, especialmente quando ele fala sobre suas batalhas com a coalizão Cristã em Jacksonville, que lançou ataques em suas performances explícitas no palco e, ele sente, que de alguma forma estava envolvido com a prisão em Jacksonville. Ele é um comentarista social inflexível, apontando o que ele observa serem as mentiras e duplicidade que saturam nossa cultura. Marilyn Manson está aqui, ele diz, para providenciar uma checagem da realidade. Ele também admite sem grandes esforços ser um hipócrita, como todos nós.

O enigma central sobre o Manson é: Onde está a linha entre a imagem e a pessoa de verdade? Ele diz ser um “entertainer.” Ele gosta de incitar a confusão apenas pela confusão, mas parece sincero sobre sua agenda social.
“Basicamente eu vivo essa vida. Estou preso nessa vida,” ele diz. “Não sei exatamente como descrever, mas o Marilyn Manson é uma coisa de 24 horas. Não é algo que eu posso desligar.”

Manson prefere manter seu nome verdadeiro em segredo. Ele cresceu em uma pequena cidade de Ohio rodeado por valores conservadores e mensagens contraditórias.
“Eu ficava apavorado,” ele diz. “Medo do armagedon, medo de ir para o Inferno, medo do demônio vir até mim por eu escutar heavy metal. Quando nada disso aconteceu, acordei um dia percebi que não podia acreditar nisso. Eu tive que achar uma alternativa para ser uma pessoa feliz. Então basicamente eu fiz tudo que me disseram para não fazer. Eles me disseram para não escutar Black Sabbath, então eu escutei. Eu leio muito da literatura que é considerada um tabu – Aleister Crowley e Anton LaVey."

Manson foi ordenado padre na Igreja de Satã, mas ele não acredita no Demônio. Isso necessitaria ter conhecimento sobre o Deus Cristão.
“LaVey, que começou o Satanismo em 1966, é basicamente uma pessoa de qualidade P.T. Barnum,” Manson explica. “Muitas das coisas que ele escreveu eu já acreditava. Para mim, o Satanismo nunca foi adorar o demônio. É sobre ser seu próprio Deus na Terra. Você não adora nada a não ser você mesmo.

Pegam o conceito original de Satã – o opositor, o acusador, o maior rebelde de todos os tempos. Há muitos ignorantes por aí que se intitulam Satanistas e é daí que você vê os lunáticos. Elas são pessoas que conhecem o Cristianismo, elas acham que Deus é certo, mas elas escolhem ser erradas. Elas vão adorar o demônio do Cristianismo. Esses talvez sejam jovens confusos, que vão para o lado do death metal e que não entendem da onde está vindo, não tem nada a ver com machucar nada – sacrificar animais, matar bebês.”

Enquanto ele emite apenas um sorriso durante uma hora de entrevista, Manson diz que é um cara feliz, embora não da maneira jovial e tapinha-nas-costas.
“Muita gente acha que sou depressivo ou estou puto,” ele diz. “Acho que apenas expresso a felicidade de maneiras diferentes. Muitas pessoas querem rodear-se com coisas como Marilyn Manson ou acidentes de carro ou serial killers porque têm tanto medo da morte que eles podem chegar perto disso de uma maneira segura. Isso os ajuda a apreciar mais a vida. Eu leio sobre essas coisas e me faz gostar da vida, o quão boa são as coisas para mim. É sobre tirar todos esses medos e ódios, que estou mostrando para todos – e mim mesmo. Isso me faz feliz.”

Mas ele reconhece que sua mensagem não vai ser vista por muitos como um serviço de utilidade pública.
“A América vai me pintar como uma pessoa terrível,” ele diz, “responsável por suicídios adolescentes, assassinatos. Quero provar que eles estão errados. Sou o Anticristo Americano. Vá em frente, tenha medo. Vou fazer tudo que você acha que vou fazer. Para eles, é o fim do mundo. Para mim, é apenas começar uma confusão. Nem sempre tenho um bom motivo para as coisas que faço. É só para causar um pouco de caos. A América precisa disso. É tudo tão convencional. Eu faço o que eu quero. Se eu tiver que ir para a cadeia, que eu vá.”

Abrindo o show do Nine Inch Nails em Tampa no final do ano passado, Manson fez algo no palco que deixou impressionado até o pessoal que está acostumado com o que ele faz. De acordo com o Manson, o guitarrista do Nine Inch Nails veio com uma roupa de escravo S&M. Manson colocou o pênis do guitarrista na sua boca na frente de Deus, do país e de um bando de adolescentes de 14 anos. Os rumores disseram que foi uma encenação. Manson diz, “Aconteceu. Não planejei. Acabamos rindo disso depois. Todo mundo parece tão surpreso com isso. Meus pais estavam lá e nem eles ficaram chocados com isso, então não sei por que todo mundo está.

Desde então as pessoas vem questionando minha sexualidade. Sou gay, hetero, bissexual? Me perguntar isso é ser ignorante quanto ao que o Marilyn Manson defende. Marilyn Manson transcende a moralidade e sexualidade. Ele é um pouco de tudo. Não gosto de colocar um rótulo em nada.”

Ainda assim, Manson entende por que suas ações no palco podem chocar algumas pessoas.
“Sim, eu vejo por que elas ficariam surpresas,” Manson diz. “Os medos reais das pessoas começam a aparecer quando você faz algo assim. Vários machões começaram a me chamar de ‘viado’, queriam brigar comigo. Por que eles queriam lutar comigo porque fiz isso? Obviamente isso os assustou. Sou confiante o suficiente com minha sexualidade para fazer algo daquele tipo. Qualquer um que me conhece sabe que gosto de garotas.”

Então Marilyn Manson é assim, uma contradição ambulante com um senso sólido de si.
“Dentro da minha personalidade, há um balanço entre o lado Marilyn e o lado Manson,” ele diz. “Não tão fácil quanto o eu no palco e o eu fora do palco. Muito disso tem a ver com eu ser alguém temperamental. Algumas pessoas veem isso como um defeito. Eu aceitei issso e a transformei em minha habilidade artística. Eu tento ser honesto, mas às vezes atuo como espero atuar.

Estou aqui para entreter. Muitas bandas hoje em dia não querem admitir isso. Eles acham que é ser falso. Mas de várias maneiras, admitir isso é mais honesto do que aqueles que tentam negar. Estou dizendo, ‘Olha, todos são hipócritas. Estou preparado a ir além se você conseguir admitir isso.’”

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