O Homem da Ressurreição
Um casamento despedaçado, um rosto cortado, 200 mil dólares gastos com drogas levaram Marilyn Manson a uma espiral decrescente. Mas com o estrelato na TV e um novo disco inspirado pelo pai, veterano da Guerra no Vietnã, o "Mefisto de Los Angeles" está de volta dos mortos.
O Natal de 2008 foi um caso solitário, mas espetacular para Marilyn Manson. Papelotes de cocaína foram pregados à parede de uma casa temporária, onde ele também havia escrito as letras de seu último álbum. No curso do dia de Natal, ele cortou seu rosto e mãos com uma gilete por 158 vezes – uma para cada ligação com o coração partido para Evan Rachel Wood, sua ex-namorada de 21 anos. Sua habilidade de tornar seu corpo e lar em arte mórbida, mesmo quando estava em um baixo retrocesso, era impressionante. A depressão de um homem que uma vez gostara de seus excessos era inegável.
Regalando um jornalista com seu conto de Natal alguns meses depois, Manson mencionou um gasto de 200 mil dólares em drogas. "Eu não tenho nada," ele disse. "Perdi tudo e peguei de volta, e estou feliz de morar em um hotel." Ele chegou em um hotel em Londres para falar com a imprensa Britânica em Junho de 2009, chapado de absinto e cocaína, com uma mulher sob seus ombros e soltando incoerências. No mesmo mês, dois dias antes de sua turnê mundial começar em Berlin, sua gravadora não fazia ideia de onde ele estava.
Antigos amigos viraram agora desdenhadores dessa figura que já fora icônica. "Drogas e álcool mandam na sua vida agora e ele virou um palhaço dopado," disse Trent Reznor, produtor do sucesso vendedor de sete milhões de cópias, Antichrist Svperstar. "Ele costumava ser o cara mais esperto de todos."
Um ano depois, a Interscope Records o tirou da gravadora, refletindo sua costante queda nas vendas no século 21. Sua importância a uma geração de jovens desafeiçoados ficou difícil de ser lembrada. O rockstar antes conhecido como Brian Warner já foi um para raios para as forças Americanas mais opressivas e perigosas. Ele era inteligente e articulado o suficiente para resistir aos ataques verbais e ameaças de morte daqueles que os viam como a incorporação de tudo que era podre no mundo. Sua armadura intelectual nunca foi tão forte – ou mais necessária – do que quando ele foi erroneamente acusado de inspirar o massacre em Columbine em 1999.
Mas desde o Holy Wood (In the Shadow of the Valley of Death) de 2000, tudo tem ido ladeira abaixo. Seu casamento com a estrela burlesca Dita Von Teese em 2005 durou um ano, com o divórcio preparado pelo affair de Manson com a atriz Evan Rachel Wood, com 19 anos na época. Ele não conseguia nem compensar lançando bons discos. Eat Me, Drink Me (pós Von Teese) e The High End of Low (pós Wood) foram deploráveis em todos os sentidos. "Comecei a pensar que não tinha mais sentimentos," ele confessou em 2009, "então por que se importar?"
Em 2012 veio o Born Villain, colocado como um retorno à forma. Não foi nada do tipo. O estado de espírito do Manson foi resumido no título de uma de suas faixas: Disengaged (NT: "Descompromissado").
Agora, em 2014, o Anticristo, de repente, acordou. Seu novo álbum, The Pale Emperor, é realmente um de seus melhores em pelo menos uma década. O molde do pesado rock industrial dos tempos recentes tem um novo brilho. Há músicas, e foco, e letras miradas com alegre precisão.
O Manson que está em seu quarto escuro no hotel Keningston, não tem mulher sob seus ombros, nem substâncias caindo de seu nariz. Sentado com seu rosto branco se aproximando, iluminado pela única luz que ele acendeu, ele fala constantemente, sem parecer confuso ou tagarela, mas calmamente contido.
A parte ruim é que Manson não está do lado confessional. Como ele canta em The Mephistopheles of Los Angeles do novo álbum, "I don't know if I can open up/I've been opened too much" (NT: "Não sei se posso me abrir/Já fui aberto demais"). Nem a mulher da gravadora sentada no quarto ajuda, fazendo um sinal no momento em que mencionamos cocaína. O relógio está batendo alto enquanto tentamos chegar ao coração da ressurreição de Marilyn Manson.
Ele certamente tem lido mais do que nunca. Jokey parabeniza que o The Pale Emperor significa que ele finalmente passa o Thin White Duke e provoca Calígua. The Mephistopheles of Los Angeles, que fala sobre o pacto de Fausto, era para ser o nome do disco e o coração do álbum.
"Se nos apegarmos à história de Fausto," ele diz, "e se eu tivesse naquela história, e tivesse vendido minha alma por fama e fortuna, e tivesse a arrogância do personagem naquela história, de não querer pagar de volta o acordo, me levou alguns anos para eu entender que eu estava ouvindo: 'Manson *bate na mesa*, o inferno está te vindo te buscar.' E esse disco é o meu pagamento. É a minha devolução ao que me foi dado, ou tirado, não tenho certeza. Tanto Fausto como Mefisto existem dentro de mim. Você não pode ultrapassar seus demônios. Você tem que lidar com eles eventualmente."
Que evidência ele viu de Satã batendo em sua porta, pedindo pagamento?
"A evidência está em mim entendendo que eu precisava fazer algo que estivesse acima das minhas próprias expectativas, minhas próprias regras. Se você acredita em alguma mitologia, e você quer viver sob esses comandos, eu tive que dizer a mim mesmo: 'Eu não estou fazendo o que é para eu fazer.' e eu tentei me convencer que eu estava. Não me arrependo dos últimos discos que fiz, mas desde o Holy Wood… Eu não tenho feito algo com a pura falta de medo e raiva e força (de antes)."
Manson reconhece, então, que a década de seu divórcio até seu novo álbum foi pior que a dos anos 1990?
"Bem, o tempo é muito difícil para eu entender," ele diz. "Não é linear. Digo, frequentemente nós temos isso *apontando para a escuridão do quarto* e eu não consigo te dizer que tipo de dia é. Mas acho que parte de mim está imobilizada. Ainda estou no ciclo de quando comecei isso, aos 23 anos, quando deixei minha casa e entrei em turnê. E eu realmente nunca senti a passagem do tempo. Nesse disco, eu percebo. E aproveitei aquela época da minha vida. Há partes que foram ótimas, e partes que foram ruins. Mas eu disse a mim mesmo que acredito que é mais importante ser uma pessoa que tem tudo para ganhar que alguém que não tem nada a perder. Então eu fiz um disco com esse sentimento."
Onde quer que o Manson se coloque, auto piedade não está na agenda do The Pale Emperor. "Esse disco era eu não escrevendo sobre isso. Escrevendo algo com gingado e confiança, sem qualquer tipo de medo como um pavão ou um elefante, que não tem joelhos, então eles não podem ajoelhar diante de nenhum Deus… Li isso uma vez em um livro Junguiano sobre sonhos," ele adiciona, uma coisa à parte que você não espera ouvir de nenhum outro rockstar. "Eu sabia a história que queria contar, porque era a minha história, que qualquer um poderia entender, como o blues. A história é, você entra neste mundo e você está sozinho, e no final do dia – alerta de spoiler! – você irá morrer sozinho."
A corrente de eventos que levou Marilyn Manson a redescobrir quem ele era e o que ele fez de melhor teve muito a ver com seu pai, veterano da Guerra do Vietnã, Hugh Warner, que fez uma viagem épica em 2014, do estado natal de Ohio, afundado no centro oeste conservador, até Los Angeles. "Eu não sabia por que ele não viajava de avião," Manson diz. "Ele disse que era porque queria espalhar as cinzas da minha mãe na Rota 66. Porque minha mãe morreu no Dia das Mães – obrigado, mãe."
Manson estava assistindo ao filme Apocalypse Now quando seu pai chegou.
"Eu estava na cena onde Robert Duvall está na praia, onde Charlie não surfa. Bombas estão caindo e ele nem reage. Pausei o filme e meu pai entrou e disse. 'Esse é o retrato mais fiel do Vietnã.' E ele disse que era muito difícil ser alguém que mata pessoas, e então chegar em casa e esperar viver uma vida normal. E eu nunca recebi uma explicação do meu pai sobre isso."
Manson pediu a seu pai para fumar um baseado com ele – incrivelmente, uma droga que o cantor nunca experimentou.
"Ele me disse coisas que nunca tinha ouvido antes, em toda minha infância. E eu disse, 'Pai, você vai gostar do disco.' Então, enquanto uma música no disco como Killing Strangers não tem a ver com ele, o disco se tornou muito sobre meu pai e minha mãe."
O desejo de ter vínculo com seu pai também o levou a ter uma parte como um supremacista branco no seriado Sons of Anarchy, da FX. Os três meses de gravação deixaram muitas mudanças, o que ajuda a explicar sua atual saúde pessoal e criativa. Basicamente, ele tinha que levantar cedo para trabalhar.
"É o seriado favorito do meu pai," Manson diz. "Então eu tentei estar nele para conseguir trazê-lo para Los Angeles, para estar no set. Uma vez que comecei a trabalhar nisso, mudei completamente meu estilo de vida. Virei de cabeça para baixo. Tinha que levantar às seis da manhã. Então as pessoas ficavam dizendo, 'Quem porra é você? De pé ao meio dia? (extremamente cedo para o noturno Manson), O que você está fazendo?' respondi, 'Estou trabalhando.'"
A mulher da gravadora está nos apressando. Mas ainda há coisas a descobrir. Manson não é o tipo de suportar uma conversa ao estilo do Lou Reed, e condenar substâncias que uma vez consumira. Mas seu humor reluzente, com dicas de terapias Californianas substituindo os antigos incitamentos, sugerem que o novo álbum o fez dele um novo homem.
"Parei de beber absinto faz umas cinco semanas," ele admite. "Tinha muito açúcar nele. Assisti a um documentário sobre como o açúcar afeta o cérebro humano e absinto tem mais açúcar que vodka, então troquei por vodka. Mas isso não significa que eu esteja sóbrio. Acho que tem mais a ver com o fato de eu ter entrado em um treino de luta, só queria ficar mais… ciente. Suas sinapses cerebrais começam a disparar de forma diferente, e você se encontra com menos necessidade de preenchê-lo com dopamina e adrenalina que as sinapses precisam. Meus amigos que me conhecem bem não entendem. 'Você está treinando e acordado ao meio dia. Quem porra é você?' Bem, surpresa. Quando você achava que me conhecia, você viu que não."
Manson era um grande amigo de Hunter S. Thompson antes do autor de Medo e Delírio, atirar em si mesmo em 2005. Até a lendária constituição e arte de Thompson, sofreu com seu consumo de drogas e bebida. Isso ajuda a explicar o trabalho recente sem foco do Manson? O homem que uma vez viu seus porres como uma gloriosa decadência, admite que já fez sérios esforços para tomar as rédeas, indicando uma visita a reabilitação.
"Bem, o que aprendi quando estava entediado, quando fui a um hospital psiquiátrico, a uma reabilitação," Manson responde, "eram as regras simples. Beba quando você estiver de bom humor, não quando estiver de mau humor. E não fume crack, porque crack te deixa pobre. Cocaína também – na verdade te deixa pobre. E com a heroína você morre, e metadona deixa seus dentes terríveis. Nunca fumei metadona ou injetei heroína na vida, porque tive muitos amigos que morreram com essa merda. Isso foi baseado em uma simples observação, não em julgamento."
As sinapses agora disparam em todos os cilindros, reabilitação é só uma memória. O The Pale Emperor foi feito por um Manson afiado e responsável. "Percebi que preciso me focar mais em criar do que destruir," ele diz. "No passado eu ia ao estúdio com receio. Agora você não conseguia me parar. Se tivesse uma parede com mulheres nuas, eu diria: 'Foda-se, vou para o estúdio.' Mas nem teve uma parede de mulheres nuas…"
"Vamos ter que cortar aqui," ordena a mulher da gravadora, agora ficando em pé em frente a nós.
"Mais uma pergunta?" pergunto suavemente.
"Se for bem rápido," ela resmunga.
"Se você me der vodka," Manson ri. "Vodka e uma pergunta."
Aqui vai. No período em que ele estava lançando aqueles álbuns fracos, que o The Pale Emperor os superou, o homem que uma vez já foi o coração do insulto Americano sente sua potência cultural sumir?
"Não acho que as pessoas lembrem de algo que fiz ontem, imagina dez anos atrás," ele diz. "Vamos me comparar a um pau. Potência, coração – sem precisar de viagra. Essa nova música é o meu pagamento ao meu acordo com o demônio, ou qualquer caixa metafórica que eu tenha criado para o passado. Eu vim aqui para foder com tudo. E eu precisava lembrar disso."
O barulho do trânsito começa a ser ouvido do lado de fora, mas Marilyn Manson de repente faz parecer que não está indo a lugar nenhum. Ele não soa como o Deus da Foda, mas como um tipo de filho que um veterano da guerra que mora no centro oeste ficaria orgulhoso.
"Sou o tipo de pessoa que defende suas morais. Tenho algumas regras. Se alguém tentar foder com o que eu acredito, o que eu amo. Você tem que ter vontade de morrer pelo que você faz. Eu quero morrer? Não. Eu sou fácil de matar? Não. Se você me foder vai se machucar? Provavelmente. Eu protejo o que importa para mim. E isso é um cara que defende sua moral. E essas morais são ditadas por mim, e não por alguma religião fraudulenta, ou alguns egos, ou algumas pessoas que não conheço."
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