Em defesa do verdadeiro filho da América: Marilyn Manson (Georgetown Voice) (2017)

Marilyn Manson é talvez a figura mais controversa na música. Ele é um ícone americano, um rockstar que vendeu mais de 50 milhões de álbuns. Ele é um cara de meia idade que ainda não superou seu lado gótico. Ele é o garoto propaganda de tudo que a América conservadora odeia. E mais importante, ele é um comentarista interessante e inteligente das duas maiores obsessões da América, violência e celebridades – seu nome artístico é uma mistura da estrela glamurosa Marilyn Monroe e do assassino em série Charles Manson.

 
Existem poucos artistas cujo a personalidade atua como uma companhia à música. Tais personas têm o poder de criar um sentimento intangível que amplifica a sensação satisfatória da música. David Bowie e Michael Jackson vem em mente, talvez até a Lady Gaga da metade dos anos 2000. Marilyn Manson fica no mesmo pedestal. Ou ao invés disso, ele esmaga sua bota de plataforma no pedestal até a pedra começar a esfarelar.
 
Marilyn Manson é um visionário e um curador. Enquanto cria música chocantemente espetacular, grotescamente hipnotizante ou genuinamente sentimental, ele também pega influência de seus filmes e músicos favoritos, misturando estilos e sentimentos de maneiras desconcertantes e satisfatórias. Sua música é remanescente da experimentação do Nine Inch Nails e Radiohead, apenas com uma entonação vigorosa e letras com muita identidade visual. Usando essa mistura de inspiração como um fundo, autoriza a narrativa e comentário social de suas letras para atacar o ouvido dos ouvintes com veracidade inigualável. As melhores músicas do Manson documentam uma carreira que é como nenhuma outra que veio antes dele. Misturando uma mentalidade rock n’ roll com elementos eletrônicos e letras profundas que narram a progressão da sociedade em tempo real, Manson desenvolveu uma identidade polarizada como herói amado e vilão maltratado.
 
É triste que esse lado de sua imagem pública seja o que impeça muita gente de dar uma chance e ouvir músicas incríveis. Sua imagem bizarra como uma expressão de individualidade, sua conduta como um estimulador da contemplação. Seu visível exagero de violência e sexualidade atua como oportunidades para reflexão em como a mídia retrata e idolatra essas coisas. Ele é o maior exemplo daquele ditado que diz que você não deve julgar o livro pela capa, e o conteúdo dentro deste livro em particular é tão divertido quanto culturalmente significante.
 
Seguinte ao tiroteio em Columbine em 1999, os políticos e a mídia culparam Manson por incitar os autores à violência. Ele virou uma saída para a dor e confusão do país. Manson inicialmente recusou-se a falar publicamente sobre o incidente como uma forma de protesto contra o sensacionalismo da mídia. E então, um ano depois, lançou “The Nobodies” como o terceiro single de seu disco, Holy Wood. A música caracteriza o trajeto dos atiradores de Columbine como meros “ninguéns” a nomes conhecidos, e cutuca a mídia com o trecho, “vocês deveriam ter visto a audiência naquele dia”. Em uma entrevista com o Michael Moore, ele disse que sua música não tem o objetivo de incitar atos violentos como estes, mas ao invés disso, mostrar como a mídia hipocritamente glorifica esses atos. O Holy Wood é o disco mais popular do Manson, contendo algumas de suas músicas mais famosas. Minha favorita do disco é “Cruci-Fiction in Space”, uma joia que atua como uma representação perfeita do tema do disco e de provavelmente a carreira inteira do Manson; Manson como um Cristo crucificado, como o bode expiatório, como o mártir, assim retratado na capa do álbum. Manson não dá ponto sem nó quando discute armas, Deus e governo em uma sinfonia de riffs de guitarra perturbadores, fúria sônica sarcástica e suas letras afiadíssimas. O fluxo do disco, a entrega de seu conceito, e a claridade com o qual ataca seus oponentes resulta em uma arte gigantesca que ficará na história como a declaração definitiva do Manson.
 
Além disso, suas várias músicas inspiradas pela juventude deixa claro por que jovens alienados gravitaram pela música do Manson. Por um jovem frustrado pelos pais, escola, cultura e popularidade, Manson representa a antítese de todas as coisas que ele está lidando. Eu pessoalmente não tinha me conectado com Marilyn Manson até recentemente, então não tenho identificação com seus temas e abordagens. Meu maior interesse está em seu hipnotismo musical, como o alcance de sua voz, incorporando tanto o etéreo e o energético, genuinamente evoca uma reação onde quer que eu escute. Sua narrativa é impressionante. Ele criou um monstro com sua persona “Marilyn Manson” para combater os monstros que vê na vida real. A pessoa pode não concordar com os valores expressados na música do Manson para pelo menos admirar sua escolha. Ele tem essa habilidade misteriosa de conectar significantes de construções não-relacionadas para criar justaposições provocadoras. Ele faz isso de formas fascinantes, como nas rimas em “The Mephistopheles of Los Angeles” até trocadilhos inteligentes misturados com comentários em “Cruci-Fiction in Space” e até dicotomias específicas entre imagem bíblica e vulgaridade moderna em “cocaine and abel”. Admito que algumas de suas letras são muito vulgares para o meu gosto, e só consigo concluir que essa é apenas uma parte de seu truque. O choque de valor está no coração de sua marca, então faz sentido que ele imediatamente seguiria uma sólida balada industrial com uma faixa surpreendentemente pesada.
 
Não posso falar sobre o impacto do Manson sem falar sobre o enorme impacto que ele teve na indústria dos videoclipes. O artista tem sido creditado por criar alguns dos vídeos mais reconhecíveis e definidores visualmente, frequentemente incorporando iconografia surrealista e imagem grotesca. Mas sempre há algo escondido, como seu frequente uso da imagem da cor branca, no qual ele acredita representar um senso de dormência no uso de drogas e exame detalhado público. Seus vídeos para “Sweet Dreams”, “The Beautiful People” e “The Dope Show” são talvez alguns dos mais únicos e revolucionários vídeos de todos os tempos, com as caracterizações bizarras e gravações perturbadoras. Como um grande cinéfilo, Manson está pautado na linguagem e história do cinema, no qual quase sempre encontra um lugar em seus videoclipes. Seu amor pelo cinema traduz sua habilidade de evocar reações dos telespectadores e ouvintes através de aspectos técnicos de gravação.
 
O novo álbum do Manson, Heaven Upside Down, foi lançado neste ano e definitivamente vale a audição. A antiga magia negra está ali, junto com algumas outras faixas melancólicas, no qual a melhor delas, “Saturnalia” é um ode de oito minutos de uma farra orgíaca. Suas faixas falam sobre o materialismo da América, consumo e o vasto vazio encontrado dentro do controle corporativo da criatividade. O Heaven Upside Down encontra o Manson trabalhando com o produtor, compositor e multi-instrumentista Tyler Bates, que é um encaixe perfeito para o Manson moderno, já que ele tem uma forte compreensão em como estruturar emocionalmente as músicas impactantes. A colaboração entre Manson e Bates no Heaven Upside Down faz do disco um forte lançamento pop-metal, mostrando a evolução da narrativa do Manson diante de uma versão mais refinada de sua missão. E ele ainda alcança isso através de sua usual gama de hinos industriais como “Revelation #12” e “SAY10”, as enérgicas como “Tattooed in Reverse” e um rock mais contemplativo e sintetizado como “Blood Honey”.
 
Seu mix de humor grosseiro e intelecto afiado agora vem como um balanço entre um garoto muito inteligente para o seu próprio bem e um criador de problemas genuíno. Frequentemente, parece que o Manson está simplesmente interessado em ver como ele pode se safar com isso. Em uma entrevista para A Consequence of Sound, ele disse: “Sou só uma criança curiosa que fica cutucando as coisas, às vezes pisa em lagartas e às vezes cuida delas, às vezes come o caramujo como escargot e às vezes coloca sal neles e os tortura. Da maneira que você preferir olhar, é só eu ficando interessado em como a cultura funciona e vendo o que posso cutucar e olhar e revelar e compartilhar.” Música é sempre sobre interpretação pessoal, e o Manson dá a seus ouvintes bastante coisa para se aprofundar.
 
O segredo para sua longevidade não fica só na sua, às vezes, imagem chocante, mas no conteúdo de seu trabalho. Não apenas elas são sonoramente convincentes e seus temas refrescantes e intrigantes, mas suas funções em reportar a natureza verdadeira da evolução da sociedade são resilientes. Toda sua imagem, sons, e elementos teatrais têm um ponto, e como todo artista de verdade, ele retorce mensagens significantes do fundo de suas entranhas. Manson não precisa sangrar por sua arte. Ele bebe, vomita, transa e arrisca sua vida por ela. Há um glamour Marilyn Monroe nisso, e um desejo de sangue Charles Manson. E aqui está o híbrido disso. Marilyn Manson: o verdadeiro filho da América.

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