Entrevista para o site Loudwire (2012)

Quarenta minutos com o Marilyn Manson. Essa foi a quantidade de tempo que falamos com o ícone do rock durante uma recente entrevista pelo telefone. Como sempre, Manson forneceu um discernimento único e profundo em tópicos como o seu novo álbum, Born Villain, seu papel no Tiros em Columbine, West Memphis Three e, mais intrigante, ele mesmo.

 
Hoje apresentamos a você a Parte Um da introspectiva fascinante, onde Manson discute o começo do que ele se refere como seu disco de "volta". Manson descreve a mudança interna pelo qual foi forçado a passar, seu isolamento proposital para ganhar um sentido de renascimento e os vários conceitos que residem dentro do Born Villain.
 
A Parte Um da nossa entrevista consiste de uma observação sobre o álbum, na qual o Manson nos dá uma resposta incrivelmente profunda:
 
Hoje eu estava escutando o Born Villain e senti como se fosse um quadro, um retrato bem visual para o ouvinte. Para mim, é bem ansioso e claustrofóbico às vezes. Meio que te imaginei em uma pequena sala agarrando as paredes – tentando escapar.
 
Eu gosto disso. Ninguém havia dito isso antes, então é uma perspectiva bem única. Eu amo tocar, e enquanto eu estava fazendo (o Born Villain), toquei para as pessoas que eu conheço – pessoas que talvez não fossem velhas o suficiente para terem ouvido meu primeiro disco, e pessoas que nem gostam da minha música, ou pessoas que considero como melhores amigos ou que são outros artistas – gosto de ouvir a opinião de todos. Ainda não tinha ouvido essa, então é bacana.
 
Restrição cria o desejo de ter a necessidade ou determinação ou confiança para lidar com sua situação. É como um filme zumbi, é como estar em uma prisão, estar preso com uma escolha – sobreviver. É isso que esse disco é. Foi me dada uma escolha. Quando eu comecei a fazer esse disco, eu decidi que não gostava de quem eu era. Não queria ser que eu costumava ser. Eu queria ser o que eu sabia que poderia ser – e esse é um processo de evolução. Mas toda a chave pra isso é que se você fica estagnado, se você se torna algo que não se transforma mais – não há nada que seja inspirador. Mesmo que seja a natureza e você veja um pavão, ou o que quer que seja, você escolhe o que você vai ser na vida e você precisa estar confiante nisso, ter coragem e não renunciar.
 
Senti que cheguei a um ponto em meus dois discos anteriores – não que eu esteja tirando o crédito ou odiando a música que eu fiz ou nada desse tipo – eu só senti que eu comecei a mudar o jeito que eu escrevia porque eu queria abrir. Eu estava em um lugar onde eu não poderia descobrir como lidar comigo. Eu, a pessoa – não eu como Marilyn Manson. Às vezes você não sabe como ser você mesmo, porque você está muito confuso pelas circunstâncias em que se encontra. Todo mundo passa por isso.
 
Percebi que comecei a escrever músicas para fazer as pessoas sentirem como eu me sentia, ao invés de fazer elas sentirem algo. Não é esse o jeito que eu deveria fazer as coisas. Especialmente porque eu me senti um merda fazendo aqueles discos (risos). Então, basicamente, eu estava fazendo música para as pessoas se sentirem mais merda ainda, no qual, num sentido com o meu sarcasmo, seria engraçado, mas não foi a minha intenção. Se eu estivesse fazendo aquilo de propósito… Há partes desse disco onde eu quero que as pessoas se sintam uma merda – onde eu uso sons que apenas cães podem ouvir, que os humanos não conseguem e que faz você sentir náusea – porque eu estava procurando interferir na reação das pessoas, mas muito mais orquestrado de um ponto de vista de um diretor – como se alguém quisesse contar uma história, que quisesse contar às pessoas algo que elas tivessem uma reação.
 
Tive que largar tudo – me mudar para um lugar com o chão preto e paredes brancas – colocando tudo em um estoque e levando apenas meus filmes, instrumentos, minha gata e percebendo que "não preciso de mais nada. Tudo que preciso é preencher isso com alguma coisa". Estou tentando levar as coisas de volta ao começo. Eu não estava calculando essa maneira, apenas precisei perceber que isso é vida. Precisei perceber o que eu queria da vida. De repente percebi que eu era aquele que sentou e desenhou o primeiro flyer. Fui até a Kinko's, imprimi, coloquei em carros e nem tinha músicas na época.
 
Tive a arrogância ou confiança – há uma linha tênue entre as duas coisas, porque a arrogância às vezes é algo que acaba sendo tolo e irá te arruinar. Eu tive a confiança e determinação de fazer isso acontecer e acabei tendo que fazer música para continuar com a minha decisão. Isso é basicamente o que eu acabei fazendo nesse disco.
 
Sabia que tinha que admitir a mim mesmo – é difícil dizer que você que fazer uma volta, porque isso é admitir que você não estava onde você deveria, o que você costumava ser, mas o que você deveria ser. Então é quase a mesma coisa que no começo. Uma volta é quase a mesma coisa que começar novamente, onde ninguém sabe ou acredita no que você é e eu tive que dizer isso bem alto. Não tenho problema em dizer que essa é a minha volta e quando eu decido algo, estou determinado a isso. Eu não tinha esse tipo de energia e confiança simplesmente porque eu precisava reconhecer isso.
 
Com esse disco, eu sempre vou lembrar mais que qualquer outro. Eles não foram memórias felizes o tempo todo. Tudo tem seus altos e baixos ou você não é um artista. Se tudo é feliz, então quem vai se importar, ou se é apenas uma linha reta, eu também não vou me importar. Se é baixo, no qual é onde, às vezes, eu estive com mais frequência que no alto, não é inspirador. Então eu apenas quis fazer algo que faria com que as pessoas sentissem algo. Eu estava tocando para pessoas que eram minhas amigas. Algumas delas nunca haviam escutado minha música, nunca gostaram dela, qualquer que seja a situação… Mas é um desafio e eu adoro desafios. Eu tinha esquecido do quanto que eu adoro um desafio.
 

 
Na Parte Dois da nossa discussão com o Marilyn Manson, nós penetramos em seu próximo álbum, Born Villain, e seu primeiro single, No Reflection.
 
Na primeira parte da nossa entrevista exclusiva com o Manson, simplesmente oferecemos uma interpretação visual do Born Villain, no qual obtivemos uma resposta detalhada do artista. Manson nos autorizou uma rara visita dentro de seu modo de pensar enquanto preparava e escrevia o novo álbum, que incluiu um isolamento voluntário em um lugar com o chão preto e paredes brancas.
 
No próximo capítulo de nossa discussão, Manson fala sobre o novo álbum, o vídeo da No Reflection, seu uso metafórico de zumbis, sua rejeição em psiquiatria e muito mais:
 
Voltado àquele lugar onde você já teve sucesso criando coisas (Manson pintou seu primeiro quadro lá), isso ajudou a soltar a faísca novamente?
 
Não acho que tenha sido uma fórmula que possa ser descoberta nesse sentido, mas eu acho que acredito muito em destino e sincronização. Se fosse para compararmos algo – por exemplo, eu assisti àquele filme que o David Cronenberg fez sobre Jung e Freud, Um Método Perigoso, e eu não acredito em psiquiatria. Acredito muito em psicologia ou gostaria de aprender sobre isso – Sou alguém que gosta de aprender sobre tudo. Fui para a escola Cristã e não sou religioso no sentido convencional. Eu fui para a Passover (NT: A páscoa dos Judeus) e não para o Domingo de Páscoa (risos). É incomum porque eu não sou Judeu, mas eu fui com o meu amigo Eli Roth até sua casa. Sou alguém que é mente aberta para novas experiências porque elas te ensinam coisas novas.
 
Não acredito em psiquiatria porque acho que é bobeira, um maneira completamente irracional de pensar as coisas e eu não acredito nos Alcoólicos Anônimos. Eu fui para a reabilitação, eles tentaram me colocar num hospício. Passei por todos os processos e aprendi um balanço bem simples, e era, "Tente fazer com que os altos sejam melhores que os baixos." Quando você está feliz, beba. Quando você está infeliz, não beba, porque vai deixar as coisas piores. Pode parecer uma conclusão lógica bem simples após muitos anos, mas é importante para mim perceber que é para ser legal – fazer arte.
 
Você faz para expressar seus sentimentos e suas opiniões e você deve se divertir enquanto está fazendo. Não é para ter tanto esforço após o processo. Então muitas vezes eu faria uma música, por exemplo, e enquanto eu estava fazendo esse vídeo recente que eu fiz (No Reflection), virou… Eu não estava dirigindo, autorizei alguém a dirigí-lo. Eles estavam demorando muito tempo movendo as luzes e eu disse que a música – me levou menos tempo para escrevê-la. Então eu fiz sozinho. É meramente adaptar à situação. É quase uma maneira fácil, o que é uma grande metáfora e se aplica à recente Páscoa que acabamos de passar – um zumbi.
 
Eu gosto de filmes de zumbis, eu gosto de The Walking Dead, gosto da metáfora disso, simplesmente porque quando você vai com o conceito de zumbi – se você é mordido por um zumbi, você não se transforma em outra coisa tipo um vampiro ou um lobisomen ou qualquer coisa assim. Você vira algo que não é você. Você não vira algo que é diferente ou algo que é evoluído, você vira algo que não existe. É morto-vivo, então você vira o fator zero e é incomum para mim. Então há muitas coisas no disco que não são inspiradas em filmes de zumbi, mas que eu gosto da metáfora e porque o primeiro zumbi podemos dizer que é Jesus, porque ele morreu e voltou três dias depois – isso é um zumbi. Então eu acho que essas metáforas existem no disco e na The Flowers of Evil.
 
Não estou tentando renascer e não estou tentando ressuscitar, não estou tentando reencarnar, eu estava tentando transformar, e isso não é o mesmo que zumbis, mas eu estava tentando me transformar em algo que ainda não tinha virado. É isso que qualquer um em vida deveria sempre querer fazer. Quando você está em um relacionamento, se você rompe de forma regular, as pessoas são atraídas por algo e é isso que elas querem ser, e é isso que você deveria ser e, para mim, é bem simples – se eu conheço uma garota e digo, "É isso que gosto em você. Continue. Todo dia." eu gosto da mesma coisa todos os dias. Não preciso de mudança porque minha mente é cheia de tornado e caos, realmente não preciso de mais agitação, ou outras garotas, ou qualquer coisa. Apenas seja o que eu gosto e continue. E então, de outro ponto de vista, para mim, tenho certeza que é um pesadelo estar envolvido comigo, mas não é tão complicado assim. Se você gosta de mim, eu sou o que eu sou, mas se eu começo a ser algo menos do que você gosta, então há um problema. Mas não pense, "Bem, eventualmente eu esperava que você mudasse." E isso é quase como dizer, "Esperava que você virasse um lobisomen ou um zumbi," ou algo estúpido assim.
 
Aprecio o fato de que na minha vida pessoal, as pessoas mais próximas a mim tiveram fé o suficiente ou acreditaram em mim. Então essa foi a primeira parte do que eu precisava para fazer esse disco. Eu queria que as pessoas que acreditavam em mim ficassem orgulhosas de que fizeram a escolha certa. Sabe, é quando você assiste progrmas que eu gosto na TV – Californication ou Eastbound & Down. Eles têm personagens que eu gosto por algum motivo, porque eles são o cachorro que cagam no tapete, mas você ainda cuida deles e você sabe que eles podem fazer melhor. Tenho sorte de que as pessoas próximas a mim acreditaram.
 
Esse foi o meu primeiro objetivo, fazer música para impressionar e provar às pessoas que acreditaram em mim – pessoas que eu conheço ficariam motivadas. Então eu tive que colocar para fora aqueles sentimentos para as pessoas que eu não conheço. Tenho que ir para o palco e cantar esses sentimentos para pessoas que eu não conheço. E virou algo excitante e fácil para mim perceber que eu só preciso provar o que eu sou com o que eu faço. Essa é a mesma coisa que eu fiz no começo. Não estava tentando voltar para trás, mas eu cheguei à conclusão de que eu estava pronto para fazer o que eu faço. Está na natureza. Não sabemos com certeza o que os animais sentem, mas uma cobra faz o que faz. Não tem preocupações, apenas faz o que faz – coelhos, gatos, leões. É tudo sobre confiança e instinto de coragem.
 
Você mencionou a gravação do videoclipe da No Reflection. O quão perto o vídeo está do visual que você teve em sua mente enquanto escrevia a música e o que fez você escolher essa música para ser o primeiro single?
 
Bem, isso foi, estranhamente, algo que eu não tive visualmente na minha mente quando escrevi, no qual eu faço com frequência. Pedi ao Lukas Ettlin, o diretor, que também trabalhou com o Alan Lasky, que é a pessoa que providenciou a câmera que criou o efeito em câmera lenta que ninguém tem acesso além de mim. É de uma empresa Alemã que acreditou em mim como um artista visual e queria que eu usasse a câmera deles. Então pedi ao Lukas para que ele escutasse a música e me dizer o que ele faria, porque eu gosto de colaborar. Se eu digo a alguém o que eu faria, eu deveria fazer sozinho, mas eu queria ouvir a opinião de mais alguém e eu não teria pensado naquilo e eu adorei como saiu. Completamente o que eu não teria pensado.
 
Escolhi a música como primeiro single porque eu pensei que fosse quase como se o disco fosse um filme, essa é a música que eu usaria para o trailer, porque eu pensei que representava o álbum. Tinha o espírito do disco e tinha atitude do álbum. Não estou dizendo que penso nela como o "grande single" ou qualquer coisa assim, porque eu não penso assim. O mundo mudou para um lugar que é quase que exatamente, de um jeito ótimo, como eu comecei: Onde eu não pensava assim. Eu não pensava "Tenho que escolher uma música que tenha três minutos e quinze segundos" e toda essa besteira. Simplesmente essa é a música que eu gosto, que eu quero que as pessoas ouçam e é o começo. Você obviamente não quer dar um filme inteiro em um trailer, e foi assim que eu pensei sobre a música quando a escolhi.
 
Eu perguntei isso porque o álbum passa essa sensação – um álbum. Não tinha certeza de como você escolheria apenas uma música.
 
Normalmente, no passado, e eu estou muito, muito, muito, muito, o tanto "muito" que você quiser, feliz de ter estar fora da Interscope. Me deu uma nova perspectiva, que é muito semelhante à minha perspectiva original em fazer música. Não pensei em nada a não ser fazer pelo motivo que eu queria que as pessoas sentissem algo, e eu não tinha minha cabeça preenchida com toda a besteira. No passado, só vou dizer que toda banda que esteve em meus discos anteriores, eu fiquei orgulhoso. Quando eu fui para uma gravadora, o que eles fizeram com isso não foi sempre o que eu queria e o que eu fiz, e ter aquela perda de controle é uma coisa bem ruim e muito difícil de lidar. Então eu lidei com isso, e isso faz parte, não vou reclamar, não vou processar ninguém.
 
A coisa boa é que eu saí da gravadora porque eu disse ao Jimmy Iovine que ele não era esperto o suficiente para entender o que eu faço. Isso foi antes do The High End of Low, então claro que eu fiz um inimigo, mas eu não estava insultando ele, eu só estava dizendo que ele não estava ouvindo seus próprios instintos. Você assina algo por um motivo. Se você quer mudar o que você assinou, é algo idiota do ponto de vista de negócios, faz você parecer estúpido, mas eu estava tentando explicar que não era pessoal, era só um ponto de vista objetivo e eu só pedi para que rompêssemos. Aquilo não acabou tão rápido, então quando eu saí do relacionamento e fui para uma nova gravadora, me fez sentir, finalmente, como me senti no começo. Eu poderia ter ficado sem gravadora, mas a Cooking Vinyl… Uma atitude muito forte que eles queriam que eu fizesse o que eu faço. "Apenas continue o que você faz." Todo o padrão, na verdade eu caí em um padrão que algumas pessoas talvez achem difícil de acreditar e eu não vou reclamar disso, apenas olhei objetivamente para isso, onde eu faria algo e sempre haveria, "Ok, veremos se tudo isso está certo para o lançamento, veremos se irá funcionar." Foi quase como estar na escola Cristã novamente, onde você faz algo que eles querem que você faça, para te controlar, claro. Uma vez que você esteja nesse papel, você realmente não pode fazer nada. Eles queriam estar no controle, mas é por isso que a indústria da música ficou uma merda, porque as pessoas estavam tentando pensar pelos artistas. Pessoas que não são artistas de maneira alguma, ou até patronos da arte ou musas, ou qualquer coisa relacionada, sempre tentarão controlar ou odiar e, para mim, ficar fora desse relacionamento, libertou minha energia e eu finalmente posso fazer isso e aproveitar – que é o que devo fazer (risos). Esse é o ponto.
 
 
Nossa saga com o ícone enigmático Marilyn Manson continua com a terceira parte de nossa entrevista exclusiva. Postamos nossa discussão com o Manson sobre seu próximo álbum, Born Villain, nas duas primeiras partes da nossa introspectiva com o artista, e continuamos no novo território na parte três.

Neste capítulo, perguntamos ao Manson como sua aparição no documentário Tiros em Columbine mudou a percepção pública do artista e como o conceito do "vilão" atua como o alicerce para a última transformação do Manson.

Manson cumpriu seu tempo como o cordeiro da mídia, seguindo uma das tragédias mais publicadas da América. Aqueles que procuram por respostas rápidas e fáceis às complexidades das mentes adolescentes por trás de eventos como o tiroteio em Columbine, imediatamente rotularam o Manson como o vilão – muito como o Judas Priest, Twisted Sister e Ozzy Osbourne no passado.

Conversamos com o Manson sobre o assunto, seu pensamento sobre o Tiros em Columbine em si, sua adaptação do conceito de "vilão" e muito mais. O Loudwire apresenta nossa discussão com o Marilyn Manson abaixo:

Quando você apareceu no Tiros em Columbine, pareceu que foi um tipo de catalista pela maneira como o público te percebeu. Repentinamente, o que falavam do Marilyn Manson era que você era uma pessoa inteligente e solícita. Você vê algum paralelo entre esse tipo de mentalidade automatizada e a mentalidade daqueles que rapidamente apontaram o dedo pra você em eventos como o Columbine?

Bem, isso mostra como… Eu disse antes – as pessoas não sabem o que eu passei naquele dia e eu dei aquela entrevista, porque aquela entrevista durou umas duas horas e meia e foi antes de eu ir até um estádio após muitas ameaças de morte e eu tinha uns 30 policiais me vigiando. Eu sabia que ir para aquele estádio – todos que me conheciam disseram pra eu não fazer isso e eu tinha que fazer. Se você não consegue viver sem o que você faz, então você tem que morrer por isso. Eu não quero morrer, mas eu tive que fazer.

Isso é o que se passava pela minha mente quando eu dei aquela entrevista. Eu não necessariamente gosto do filme, e é engraçado porque eu fiz uma aparição no filme A Estrada Perdida, por exemplo – é o meu filme favorito do David Lynch.  Não sou egoísta, mas concordo com você que o que você disse sobre o Tiros em Columbine criou uma janela – um catalista que abriu toda uma nova maneira das pessoas olharem para mim. Depois disso eu fiz o The Golden Age of Grotesque e eu tive minha habilidade e confiança para dizer – e acho que foi um dos meus períodos mais criativos até agora – [que] ao invés de ser destruído por tudo isso, eu fiquei mais forte. As pessoas gostam de coisas como a adversidade, algo que seja o homem contra a natureza ou qualquer coisa assim.

Eu não fiz nada de errado. Minha maior pergunta sempre foi, "As pessoas acham que a minha música fazem as pessoas matarem? Por que elas não estão preocupadas com o que eu vou fazer?" (risos). Tenho 36 culpas por tiroteios em escolas na bagagem… e meu pau na bagagem, também (risos). Se eu conhecesse as pessoas pessoalmente, eu ficaria triste, mas eu não vou levar para o lado pessoal. O que eu vou pegar é o fato de que a vida é mudança, e o vilão é sempre o catalista, o vilão é sempre a pessoa que cria algo diferente na história. E não quero dizer "vilão" no sentido de que as pessoas talvez definam como o "cara mau", não estou dizendo o "cara mau".

Quando eu digo "vilão", eu quero falar no sentido tradicional como em Macbeth ou algo assim. O herói não faz nada nas histórias, e não precisei ir para a escola para aprender isso, foi só pelo fato de eu ser um fã da literatura e filmes. O vilão é a pessoa que tem a chance de mudar algo. Ele talvez quebre as regras, mas essa é a coisa, às vezes, se você não quebra as regras, você não vai salvar nada, você não vai mudar nada.

Se alguém ameaça o que eu amo ou me importo, e foi o que fizeram no passado. Tudo foi tirado de mim, e agora eu me sinto na mesma posição do começo, onde eu não vou ser ignorante e teimoso, e eu sou com frequência, e alguém ameaçar minha família ou coisas que eu me importo – minha garota, meus gatos, minha vida. Às vezes o instinto masculino é fazer algo estúpido, mas eu mataria alguém se tivesse que fazer isso, mas ao mesmo tempo eu não estaria os protegendo porque estaria na prisão ou morto, então isso não é algo inteligente. Preciso ser um fora da lei, preciso ser um vilão, preciso ser a pessoa que você não quer se meter, então as pessoas não se metem no que eu faço. Isso é o que eu comecei a ser quando eu, por algum motivo, tive uma hesitação porque eu estava essencialmente esmagado por várias coisas. Eu comecei a perder minha identidade e todos podem se relacionar com isso. Se você perde o que você é, então o que você tem?

 

Após um bate papo de 40 minutos com o Marilyn Manson, escolhemos separar a enorme quantidade de diálogo em quatro posts separados. Finalmente, após escutar a gravação várias vezes e transcrever durante horas, estamos felizes de apresentar a vocês a quarta e última parte da nossa entrevista com o ícone do rock.

Vindo da nossa parte da discussão onde Manson fala profundamente sobre a culpa que colocaram nele após vários eventos horríveis, como Columbine, e como ele usou o conceito do vilão sempre sendo o catalista da mudança, chegamos ao tópico do West Memphis Three. Para aqueles que não conhecem Damien Echols, Jason Baldwin e Jesse Misskelley, os três foram soltos recentemente da prisão, após 18 anos, por assassinato que muitos acreditam que os três cometeram.

Entre várias celebridades que patrocinaram a libertação de Echols, Baldwin e Misskelley, Marilyn Manson certamente foi o mais presente – até incluindo o tópico em seu discurso durante o Revolver Golden Gods Awards 2012.

Por favor, desfrute a parte final de nossa entrevista exclusiva com o Marilyn Manson:

Após ser culpado por tragédias como Columbine, você vê artistas nos dias de hoje recebendo um tratamento semelhante quando algo ruim acontece?

Bem, pela primeira vez na minha vida, noite passada, conheci o Damien Echols [do West Memphis Three]. Fiz um quadro para ajudar a pagar suas taxas legais, Johnny Depp, ele e eu viramos o que chamamos, e soa um pouco… em retrospecto… se você morou em West Hollywood, soa um pouco não-masculino, mas o West Hollywood Three. O Johnny sempre tentou ajudá-lo [Damien] e ele está ficando com o Johnny e nós três temos uma grande ligação. Fizemos tatuagens que se ligam. Não o conhecia pessoalmente até noite passada e pra mim foi humilde. Qualquer conflito ou adversidade que eu tenha passado não se compara ao que ele passou. E eu esperei, essencialmente, 18 anos para conhecer esse cara e eu o conheci ontem à noite [8 de Abril].

Johnny também passou por várias coisas na vida e eu estava na 21 Jump Street quando tinha 19 anos – isso é engraçado, ninguém sabe que eu fiz figuração. Então eu conheço o Johnny há anos e nunca havíamos feito músicas juntos, e gravamos a cover da You're So Vain. Não fala pra ninguém, mas eu e o Johnny temos ensaiado porque ele vai tocar comigo ao vivo [No Revolver Golden Gods Awards 2012]. Não quero que ninguém saiba isso porque vai estragar a surpresa e eu vou te caçar e cortar seu pau fora (risos).

[Nota do autor: Por pedido do Manson, guardamos o segredo até o Depp entrar no palco no Golden Gods — e, felizmente, posso dizer que minha virilidade está intacta].

Os dois últimos dias da minha vida foram bem excitantes – Johnny Depp ensaiando com a minha banda porque queremos fazer algo juntos ao vivo. Conheço ele há anos e ele começou sua banda, The Kids, em Ft. Lauderdale. Eu tinha uma banda, Marilyn Manson & the Spooky Kids em Ft. Lauderdale. É estranho que eu o conheça todos esses anos e nunca tenhamos feito música juntos. É legal que tenhamos feito a cover da You're So Vain. Fizemos juntos e é divertido que ela se aplique em nós no sentido de todos que nos rondaram no passado.

Ele e eu e o Damien, de diferentes maneiras, são figuras conhecidas, e todos, em diferentes maneiras, estão passando por uma mudança de vida; todos, em diferentes maneiras, olhamos para a vida pelo olhos de alguém que não está cansado; todos, em diferentes maneiras, estão pensando que eles são donos de algo de nós ou que eles saibam algo sobre nós, mas eles não sabem, e nós sendo considerados subjulgados por nos sentirmos libertados, pelo fato de que somos aptos a enfrentar isso.

Então essa tem sido minha espinha dorsal para a maioria das coisas; que eu estive apto a ter caras como amigos que não sejam os membros da minha banda, mas amigos que tem passado por muita merda. Merda diferente. Todos nós passamos por merdas diferentes, e é estranho porque todos nós achamos que passamos pelo pior. Isso que é incomum. Sinto como todos nós dizemos, "Não passei pelo que você passou." Sempre dizemos isso um ao outro e é uma experiência interessante e humilde e é algo que você realmente leva para o túmulo.

Quando eu ouvi que o West Memphis Three finalmente havia saido da prisão, eu quase chorei…

Eu chorei. Eu chorei, cara. Digo, aquele filme [Paradise Lost] me faz chorar. Quando o vi pela primeira vez ontem à noite, foi tipo um irmão. Senti como se o conhecesse há anos. Conversei com ele pelo telefone por um anos, mas nunca havia o conhecido pessoalmente. Parecia que eu já o conhecia minha vida inteira. Ele é forte. Ele passou por muita coisa. É engraçado porque estávamos tendo uma simples conversa que ele ainda estava maravilhado de que ele poderia mandar um e-mail pelo iPhone. Johnny e eu dissemos, "Bem, hey, estamos no mesmo barco, acabamos de descobrir isso também." (risos) A animação infantil de olhar para o mundo está bem viva em mim e nos meus amigos. Por esse único motivo que eu consegui fazer um disco que está 100% ligado à minha personalidade.

Tive muita gente sentada na sala quando eu cantava. Os vocais foram gravados uma única vez, normalmente. Sabe, claro que há mais de um vocal às vezes. É diferente de cantar ao vivo porque você já gravou o disco e as pessoas estão ali para te ver. É uma situação totalmente diferente quando você usa fones de ouvido, há outra pessoa sentada ali, olhando para você e tudo que ela ouve é sua voz. É pior que… Poderia ser pior que ler um livro em frente a uma classe inteira. Ao invés disso, levei isso com um desafio. Você cresce mais para a ocasião.

Então eu tive que ser melhor em ser divertido, ser interessante ou ser provocador ou qualquer porra que eu estivesse fazendo, sabe? Eu estava tentando fazer músicas que fariam as pessoas sentirem algo. Às vezes era… Frequentemente no sentido não rock n' roll não-clichê, mas às vezes clichê, que eu estava tentando deixar as garotas excitadas com o que eu estava fazendo (risos). É bem difícil perceber o que é atraente em você. Não percebia que algumas coisas que eu fiquei de saco cheio, na mesma forma de quando você mora em uma casa e está de saco cheio de olhar para a mobília do jeito que ela é, ou o que quer que seja – Eu não percebia as coisas que as pessoas achavam atraentes sobre o que eu fazia enquanto um cantor.

Então eu pediria a opinião das pessoas e isso gravitaria em algo e uma música tipo The Gardener – originalmente eu fiz aquela versão falada… Eu só ia fazer isso porque eu queria gravar as palavras, porque eu as tinha na minha cabeça, então eu gravei, e eu voltei e ia cantar. Ninguém havia ouvido a versão falada dela e todos adoraram, então não a refiz. Não sabia que seria algo que atrairia as pessoas, e percebo agora que se eu tivesse o sendo comum de pensar que eu comecei, antes de ter uma banda, eu… E nem tenho vergonha de dizer… que eu lia poesia.

O que quer que seja, e eu não vou questionar, se as pessoas gostaram do que eu faço quando eu falo, então eu vou fazer. Por isso que eu fiz muito disso no disco, e me diverti fazendo, e sabia que ter múltiplas personalidades, tenho certeza… (risos). Não tenho certeza de quantas, mas provavelmente mais do que eu preciso – tendo a ir em diferentes… não personagens, mas eu falo de maneiras incomuns no disco e é divertido para mim fazer isso, mas não é para ser comédia, é pra ser o que é pra ser. Você pode sentir o que quiser sobre o disco, no entanto que você goste.

Acho que é um jeito ótimo de começar The Gardener, e realmente faz meu coração ficar bem sabendo que o Damien está ok. Eu li o livro dele, Almost Home, eu escrevi cartas pra ele quando ele estava na prisão, obrigado por compartilhar isso.

É, quero dizer, ele é ótimo. Vamos fazer um vídeo para a Hey, Cruel World…. Que é para acontecer hoje [8 de Abril]. Acho que ele se identifica muito com aquela música. Estou ansioso para isso, e acho que é ótimo que você tenha um sentimento forte por esses filmes, porque para mim, ser parte da ajuda para ele sair daquela situação, me faz sentir que eu fiz algo realmente bom na vida. De uma maneira diferente, eu estava na minha própria prisão. Tive diferentes amigos que acreditaram em mim. Claro que não é a mesma coisa, mas em diferentes maneiras é como nos identificamos um com o outro.

Discussão

0

Regras

  • Respeite as pessoas. Sem insultos ou ataques pessoais.
  • Não publique spam ou propaganda repetitiva.
  • Não publique ameaças ou discurso de ódio.
  • Mantenha a conversa no assunto da publicação.

Comentários passam por aprovação antes de aparecer. Seu e-mail não será publicado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

← Voltar às entrevistas