Manson concedeu uma longa e ótima entrevista para a revista Dazed & Confused e abordou vários assuntos. Desde o motivo pelo demora do lançamento do disco até depressão. Confira a tradução na íntegra abaixo!
Marilyn Manson sabe onde você mora
Enquanto ele se prepara para lançar Heaven Upside Down, seu décimo disco, falamos com o anticristo superstar sobre morte, Veludo Azul e por que ele está aqui pelo caos.
Liberdade de expressão não vem com plano dentário. Se vai falar, fala na minha cara. Muita gente interpreta a música como sendo sobre o governo observando e sabendo de tudo – acho que eles deveriam se preocupar mais comigo.
É início da tarde em Berlim, embora você não consiga distinguir (estamos sentados em um bar gótico e sombrio não muito diferente do Gold Room no Overlook Hotel mostrado por Kubrick) e Marilyn Manson está bebendo vodca; seus vários anéis prateados batem contra o copo enquanto ele discute We Know Where You Fucking Live em tons graves por trás de óculos escuros enormes. É uma música que é um arquétipo do Manson, um míssel americano ameaçador de vingança e paranoia que atua como a declaração em seu novo álbum, Heaven Upside Down, um disco que foi finalizado em agonia de um trauma pessoal.
“Não sabia que meu pai ia morrer,” ele diz.
Não afetou a maneira com que o disco saiu, mas afetou todo o final da história. Saturno viaja ao redor da terra a cada 29 anos e passa em frente à lua – começou logo quando finalizamos o disco e terminou na manhã da morte do meu pai. A última música que escrevi foi Saturnaliae antes dela foi Heaven Upside Down. Tem a mitologia de Saturno – o pai comendo seu filho – talvez tenha sido a maneira do meu pai de dizer, “ok, você está pronto, filho, lance esse disco” porque ele não teve a chance de ouvir. Senti que o álbum precisava ser feito – não para salvar o mundo, não para propósitos de rock n’ roll, não porque quero fazer um grande disco. Tudo isso está incluso no pacote, mas estou aqui para foder tudo. Esse é o meu trabalho. Sou um tornado e você pode sentar e assistir.
O pai do Manson aparece frequentemente durante nossa conversa. Em certo ponto ele cita The Defiant Ones, um documentário que foca no fundador da Interscope, Jimmy Iovine, e Dr. Dre, mas, no terceiro episódio, detalha como Trent Reznor trouxe Marilyn Manson para seu selo e o impacto que isso teve no rock e cultura pop no geral. “O Jimmy Iovine diz algo sobre como quando as pessoas veem algo real, eles sabem que é real,” diz Manson. “Fiquei um pouco emocionado assistindo porque pensei que meu pai fosse ficar bastante orgulhoso de assistir isso.”
Manson cresceu em Ohio como Brian Warner, e mais tarde mudou-se para a Flórida com seus pais. Seu pai era pra ter virado um padre Jesuíta antes de ser recrutado pela CIA, que Manson diz que “estavam interessados em mim pelo meu comportamento psicopata, meu QI e minha habilidade em decifrar idiomas.” Tirando a operação clandestina do governo, sua infância foi comum – e ele era um garoto inteligente que estudava em escola cristã, onde quebrou o nariz de um garoto por ter criticado um de seus poemas. “Não lembro qual era o poema, mas levantei e dei um soco na cara dele,” ele diz. Manson foi expulso da escola tempos depois por colocar um dildo na mesa de um dos professores, um brinquedo sexual que ele roubou de um parente por curiosidade, mas ele não saiu sem aprender algo – a escola cristã foi o primeiro lugar onde ele ouviu Judas Priest e Led Zeppelin, quando tocaram os discos ao contrário para a classe para provar que o demônio estava dentro dos LPs.
“Eu costumava ser muito curioso, de um jeito meio Veludo Azul,” ele diz, fazendo referência ao anti-herói Jeffrey Beaumont, interpretado por Kyle MacLachlan, que sofre uma drástica perda de inocência após encontrar uma orelha cortada no filme do David Lynch. “(O dildo) era do meu avô, um caminhoneiro crossdresser que vendia fotos de zoofilia. Ele sofreu um acidente e quando o levei para o hospital, ele estava usando lingerie embaixo das roupas. Então você vê como isso começou a se desenvolver, como eu virei o que sou. A primeira pornografia que vi foram duas mulheres chupando o pau de porcos, bodes e gansos. Meu pai ou meus primos me disseram que ele não era só um colecionador de fotografias em preto e branco de mulheres chupando o pau de animais, era realmente o seu trabalho e dirigir caminhões era pra despistar. Então ele estava transportando pornografia, provavelmente no seu caminhão.” Como uma criança curiosa, Manson espiava seu avô, que “falava igual um monstro” por sofrer de câncer na garganta, a doença que eventualmente o matou.
O causo de zoofilia é um que Manson já falou sobre antes. É fácil sentir essa determinação para transmitir uma infância passada dentro de uma quieta, mas ameaçadora escuridão do meio dos EUA. Essas experiências viraram uma estética – a música do Manson sempre confrontou a brutalidade do que acontece por trás das portas fechadas.
Morte é outro tema recorrente em nossa conversa, não apenas a morte de pessoas reais, mas as culturais também – a morte de Hollywood, do nosso tipo secreto de fama que morreu no surgimento do Instagram, dos videoclipes e de popstars como forças perigosas.
Em 2001, Eminem – que era para o rap o que Manson era para o rock – lançou o hit furioso The Way I Am. A letra, “Quando um cara tá sofrendo bullying e atira na sua escola eles colocam a culpa no Marilyn” faz referência ao furor da mídia ao redor do rei gótico pós-Columbine. No dia do massacre, Bill O’Reilly, âncora da Fox News, descreveu Manson como a influência mais perigosa para os jovens americanos, manchetes em frenesi viraram protestos e Manson foi obrigado a defender-se publicamente, adorado e desprezado. Manson apareceu no vídeo de The Way i Am, e a dupla virou a Mais Perigosa dos EUA.
A ideia dos EUA que Manson sempre lutou contra está aqui – o anticristo é o Presidente, seus eleitores, os animais mecânicos – mas parece que ninguém tomou o bastão do N.W.A, Marilyn Manson ou Marshall Mathers. Enquanto Manson fica com o rótulo de último verdadeiro rockstar (“Não coloque essa merda na minha cabeça”), ele aconselha a qualquer um que tenha interesse em ser icônico a esconder as mundanidades da existência humana.
Quando você me pergunta por que ainda estou por aqui enquanto outras pessoas não é porque eu nunca esvaziei o balde do mistério,” ele diz. “Ninguém quer ver por trás da cortina. Não quero ver por trás da cortina, por mais que esteja ali. Minhas cortinas são pregadas na parede, literalmente e metaforicamente. Acho que é a morte disso… quando as pessoas começam a fazer coisas normais. Você não quer ver o lado que está mostrando muito. Você puxa a minha cortina e tudo o que você vai ver é poeira no chão, coisas quebradas e armas.
Nesse ano, a morte colocou uma sombra no mundo do rock americano com os suicídios de Chris Cornell (Soundgarden) e Chester Bennington (Linkin Park) (Manson não era próximo de nenhum deles), abrindo uma discussão sobre como lidar com problemas de saúde mental. Em 2007 o próprio Manson sofreu de uma grande depressão.
“Quando eu estava com depressão as pessoas me diziam, ‘Ei, você é ótimo, não se preocupe com isso’ e aquilo faz a coisa ficar mil vezes pior, porra,” ele diz. “Esse é o lance da depressão. Você sabe que é melhor do que está agora e você não consegue fazer nada quanto a isso, então quando alguém lhe diz que você é melhor do que isso, você vai cada vez mais pro fundo do poço até tomar uma decisão – você vai encarar seus medos ou enxugar suas lágrimas, você vai lutar ou não. Eu só senti uma desconhecida responsabilidade de lutar. Nunca é fácil.”
Fantasmas assombram o mundo do rock, seus espectros assombram quem vem após, suas despedidas para o pós-vida são geralmente carregadas com talvez uma sensação de que foram cedo demais, cheio de problemas, ou que gastaram as reservas de talento. Manson diz “vejo luzes pelo canto dos meus olhos na minha casa”. De fato é a mesma casa que morou Michael Massee, o ator que acidentalmente atirou e matou Brandon Lee no set de O Corvo em 1993, e depois apareceu em A Estrada Perdida, o mesmo filme do Lynch que Manson fez sua estreia atuando como uma estrela pornô. Massee morou na casa de hóspedes na parte de baixo da onde Manson mora, mas em Outubro de 2016 morreu após uma batalha contra o câncer.
“Tenho dois gatos, irmãos, que são gatos muito intuitivos e inteligentes,” diz Manson.
Eles veem muita coisa, e eu observo. O que eu tenho são problemas com eletricidade. Eu ando em um quarto e a luz cai, as coisas param de funcionar, então não sei se estou assombrado. A música Heaven Upside Down é sobre isso – todo mundo diz que é sobre outra pessoa, mas é sobre mim. Talvez eu seja o fantasma e não saiba.
Manson está determinado que este não será seu último disco e sente-se pronto para começar outro – esse demorou mais que o planejado devido à agenda de seu colaborador Tyler Bates com a composição de trilhas sonoras (Bates é um renomado compositor em Hollywood, assim como o produtor dos dois últimos discos do Manson e guitarrista da banda). Manson também tem seus compromissos no cinema e está convocado para ser o protagonista em um filme dirigido por Johnny Depp. Tirando a inquietude de lançar algo novo imediatamente, ele está feliz com o décimo disco. “Queríamos algo cru,” ele diz, anunciando que a maioria dos vocais do álbum foram gravados de primeira e isso foi vital para que tivesse o poder do amor carnal adolescente (Manson fala brevemente sobre sua vida sexual, que, em algum ponto, recentemente envolveu facas de trincheira e tasers).
Nós (eu e Tyler Bates) dissemos, ‘que música você tocava para as garotas quando queria transar aos 19 anos?” e ambos responderam Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me do The Cure. Eu disse, ‘é isso que eu quero, quero uma música onde você transe com a guitarra, faça o que quiser fazer com a guitarra, sem pressa. E o disco inteiro ficou assim.’ Eu adoro a sequência dele e do jeito que ficou porque parece um filme para mim cada vez que eu ouço. E não é uma daquelas coisas onde eu só escuto meu próprio disco porque é novo – esse eu posso ouvir com alguma perspectiva forçada, do espaço sideral.
O espaço sideral é um lugar que ele está familiarizado, tendo flutuado nele há quase 20 anos com Disassociative, um hino shoegaze sci-fi remanescente do Bowie. “I can never get out of here, I don’t wanna just float in fear, a dead astronaut in space,” ele cantou no Mechanical Animals de 1998. “Essa foi estranhamente escrita; encontrei em um caderno. Sem querer eu tomei Special K (cetamina) na noite anterior. Não conseguia me mover e aconteceu de ser em frente à Sunset Strip e eu caí em frente ao Rainbow Bar. Por sorte, alguém me levou para casa e pensei que seria uma ótima ideia nadar sem sentir nada. O sentimento de flutuação inspirou o som da música, o riff de abertura. Eu toquei aquilo após nosso pequeno surto com o espaço sideral.”
Duas décadas e dez álbuns depois, Manson continua o mesmo ícone em um domínio diferente, um que ele nos avisou durante toda sua carreira. 2017 é um céu de cabeça para baixo, um pesadelo de uma paisagem capitalista de promessas quebradas que constantemente nos reasseguramos se é o que pedimos. Um mundo de incertezas com infinitas possibilidades junto de uma grande restrição, reality shows virando realidade… virando presidentes. “Não sou um fantasma,” Manson grita na faixa título do disco. E não é isso que estamos preocupados agora – se somos invisíveis ou quase mortos?
“Só estou aqui pelo caos,” Manson diz. “Não estou aqui para salvar ninguém. Estou aqui para dizer às pessoas. ‘Olha, aproveite enquanto pode porque não vai durar para sempre.’”
Essa história merece circular
Discussão
0Regras
- Respeite as pessoas. Sem insultos ou ataques pessoais.
- Não publique spam ou propaganda repetitiva.
- Não publique ameaças ou discurso de ódio.
- Mantenha a conversa no assunto da publicação.
Comentários passam por aprovação antes de aparecer. Seu e-mail não será publicado.
Deixe um comentário