Sobre álbum novo, morte de seu pai e “trazer o caos de volta” (Revolver Magazine) (2017)

 

 
 
Sobre álbum novo, morte de seu pai e "trazer o caos de volta"
 
 
“Porra”, grita Marilyn Manson enquanto pega seu telefone, embora seu tom de brincadeira mostre que esse é só um jeito bem Manson de responder a uma ligação da Revolver. “Lamento que não esteja aqui pessoalmente para que eu possa te atormentar como de costume."
 
O notório shock-rocker está com uma boa aura hoje, tendo acabado de supervisionar a edição final do vídeo de We Know Where You Fucking Live, uma música do, com lançamento em breve, Heaven Upside Down, seu décimo álbum de estúdio. Escrito e produzido juntamente com o compositor de trilhas sonoras Tyler Bates – que já havia colaborado com Manson em seu lançamento de 2015, o The Pale Emperor – Heaven Upside Down está marcado para sair dia 6 de Outubro. E tendo recentemente retornado de uma, bem-sucedida, turnê de 15 shows em festivais europeus, Manson e sua banda (que inclui o baixista de longa data/parceiro no crime: Twiggy Ramirez, baterista do Stolen Babies/Team Sleep: Gil Sharone e o guitarrista Paul Wiley) vão pegar a estrada dia 27 de Setembro par uma turnê norte-americana, que terá seu clímax dia 5 de Novembro com a performance no “Ozzfest Meets Knotfest”, em San Bernardino, na Califórnia.
 
Contudo, demorou um tempo para que Manson chegasse até aqui. Verão passado ele havia anunciado que seu álbum, até então conhecido como SAY10, seria lançado no Dia dos Namorados de 2017; mas o dia veio e se foi sem qualquer música nova, e depois, várias outras datas que eram rumores de um possível lançamento também passaram. Manson conta à Revolver que um punhado de fatores – incluindo a doença que acabou por tirar a vida de seu pai, Hugh Warner, no dia 7 de Julho – estavam envolvidos no atraso, mas que no final das contas foi para o melhor. 
 
“Tiveram alguns tropeços pelo caminho”, ele conta. “Por causa da turnê, e Tyler tendo que se dedicar a outros projetos musicais, e a inesperada doença do meu pai, meio que entrou em conflito com parte da minha habilidade de fazer o álbum. Mas nada realmente me parou. Eu acho que, por algum motivo que ainda vai, eventualmente, se relevar pra mim, era para o álbum ser lançado agora. Se ele tivesse sido lançado na data original, não se chamaria Heaven Upside Down, não teria a música Heaven Upside Down, não teria a música Saturnalia, não teria a música Revelation #12; e eu acho que essas músicas são muito importantes para definir esse álbum.”
 
Lamento pela morte de seu pai.
 
Como eu e você já conversamos antes, meu pai e eu tivemos um tipo diferente de relacionamento, mas ele me ensinou muitas coisas. Meu pai é muito presente no álbum, desde antes de eu saber o que iria acontecer. E quando eu terminei-o, eu estava ansioso para mostrar a ele. Acabei não podendo fazer isso, mas sei que ele queria que eu fosse forte, e não fraco. Não é algo que as pessoas precisam dizer que lamentam, ou pegar leve comigo por causa disso. É estranho – o último álbum foi dedicado à morte da minha mãe, e esse, à morte do meu pai. No dia seguinte ao que tínhamos terminado Saturnalia, a última música do álbum, eu descobri que meu pai estava morrendo. Então eu peguei um voo para Ohio, e eu estava com ele quando ele morreu, e eu felizmente consegui me despedir dele. 
 
Você disse que a presença dele pode ser percebida no álbum – como?
 
Tem muita simbologia visual lá, e eu percebi que haviam coisas referentes a experiências que eu não tive, mas que talvez foram passadas a mim por coisas que foram crescendo próximo ao meu pai. Então aí é onde sua presença pode ser percebida. Quando eu escuto ele objetivamente agora, eu acho que deixei a parte inconsciente da minha mente tomar as rédeas nele, e o subconsciente da minha mente estava passando informações ao meu consciente, assim então eu pude cantá-lo fisicamente. Então eu acho que eu estava trabalhando em todos os níveis diferentes… Eu nunca tinha olhado para o tempo do mesmo jeito que qualquer pessoa faria. É uma coisa que eu nunca pensei em explicar, porque eu nunca soube como outras pessoas viam o tempo. Eu tenho dificuldade olhando para calendários, tentando entendê-los. Eu só o compreendo num sentido tridimensional. Eu senti que nesse álbum existem certos momentos onde não é o mesmo tempo que resto do mundo a minha volta está vivendo. 
 
O álbum tem muito mais raiva e um tom agressivo que o The Pale Emperor, no qual você também trabalhou com Tyler Bates. O processo criativo foi diferente, de alguma forma, daquele último?
 
As letras nesse disco foram um pouco diferentes das do último. Foi talvez um jeito mais similar ao Holy Wood – muito foi escrito em prosa. Eu não me lembro se você chegou a ver o caos que são meus cadernos, mas normalmente eu tenho 10 deles a todos os momentos, porque eu não consigo me lembrar em qual eu estou escrevendo. Mas estranhamente, dessa vez eu consegui escrever todas as letras em somente um caderno. E então Tyler teria uma ideia musical, e eu teria meu caderno aberto comigo lá, e ele, literalmente, seguiria daí. Nós nos sentamos de frente um para o outro – é assim que trabalhamos, usando os fones de ouvido. Nós olhamos nos olhos um do outro enquanto escrevemos, então é uma experiência bem íntima e muito pessoal entre mim e ele. Eu não vou dentro de salas acústicas, ou qualquer coisa desse tipo – muitas das minhas performances no disco são de uma tomada só, porque eu queria me sentir ao vivo, eu queria fazer a performance daquilo.  Muito do material musical que Tyler me apresentou me fez me sentir como se estivesse num filme – cada música é uma cena diferente, e deixa você extremamente ansioso pra saber que merda que vai acontecer a seguir. Tem algumas experiências extremas com sons. Nós fomos bem específicos em não deixar outra pessoa masterizar ele, alguém que pudesse acidentalmente retirá-las. Nós temos alguns sons muitos intensos. Sons químicos, científicos, bi neurais que, ás vezes, até ME fazem ter ataques de pânico enquanto estou ouvindo!
 
Eu assisti alguns clips dos seus shows na Europa desse último verão, e eu fiquei impressionado como naturais e fortes as músicas novas que você cantou – Revelation #12, We Know Where You Fucking Live e SAY10 – soaram em relação ao resto de seu setlist. Não foi algo do tipo, “Hey, aqui uma tentativa de fazer alguma coisa nova…”
 
Estou feliz que você viu desse jeito. As músicas novas tiveram um estranho imediatismo para com o público que me surpreendeu, e me fez pensar em coisas que também pensei sobre o Antichrist Superstar. Eu não estava tentando fazer um álbum que fosse uma reminiscência do Antichrist Superstar ou do Mechanical Animals. Eu estava tentando ter a mesma atitude que eu tive neles. Eu acho que a banda chegou num ponto muito forte. Eles sentem a mesma força, eu acho, que eu senti durante a era do Antichrist Superstar. Essa é a diferença entre alguém que não tem nada a perder, e alguém que tem tudo a ganhar. Quando você está encarando alguma coisa que é muito perigosa… Eu acho que haverá caos. Isso é o que eu sou. Isso é o que eu estou aqui para trazer de volta, e eu estou aqui para mostrar. Não é só tentar lançar um ótimo album – é botar pra foder. É pra isso que eu estou aqui. Esse disco não está tentando ser violento, ou tentando dizer coisas que são enfaticamente políticas, enfaticamente religiosas ou enfaticamente sexuais. Ele está colocando uma história em que você se encaixa. Eu realmente sinto que é para ser um filme para o ouvinte, e o final é, claramente, como você quer entendê-lo. 
 
Tem havido muita expectativa – parte devido ao seu teaser de SAY10 lançado em Novembro – que esse álbum seria uma reação a Trump e o estado atual dos Estados Unidos. Mas agora você está dizendo aqui que, na verdade, esse não é o caso.
 
Bem, a maior parte dele foi escrita liricamente antes [de Trump ser eleito]. E eu poderia ter visto isso chegando, porque isso evidencia a estupidez dos estadunidenses estando irados sobre uma coisa que eles fizeram por conta própria. Não tem diferença do houve com o Bush, e todo o resto que veio no passado – isso só me ajuda a parecer mais inteligentes para os europeus, porque eu sou visto por eles como a voz da razão. [risos] Mas eu não estou falando do presidente de agora ou do passado. Eu já tive uma quase obsessão sobre apontar a relevância dos assassinatos de JFK e John Lennon, e como tudo aquilo tinha um efeito em o que se tornaria a era da minha vida. Mas aquilo não foi falando de algo que era atual. Porque se você está falando de algo atual, isso também data seu álbum, em certo sentido, e eu queria que esse disco fosse bastante imortal. E eu quis que ele não fosse o que as pessoas esperavam. Eu não quero escrever algo que me enjoe. Eu quis fazer um álbum que eu pudesse por pra tocar e escutá-lo eu mesmo. 
 
Apesar da atitude de “foda-se essa merda toda” do disco, eu acho que seu senso de humor é mais aparente nesse álbum do que no último. 
 
Você enxerga a risada maliciosa –  você enxerga a risada maliciosa nas sombras.
 
É, você poderia dizer isso. 
 
Eu não sei o que isso significa, mas esse será provavelmente o título do seu artigo – a Risada Maliciosa nas Sombras. [risos] Lily, minha amada gata que você chegou a conhecer, faleceu ano passado. Ela era meu animal espiritual, e foi tão difícil perdê-la. Então eu arranjei dois meninos novos, e eles são diabinhos, realmente. Seus nomes são William "Bright Boy" Manson e Rusty Manson. São ambos da raça Devon Rex, como a Lily, e esses dois devem ter tido um efeito no álbum também. Porque eles gostam de ficar olhando pra mim e derrubar alguma coisa no chão. Eles olham nos meus olhos com uma expressão de “Você viu o que acabou de acontecer?”. Então acho que o lance de “botar pra foder” também pode ser aplicado no mundo animal. Nós podemos atribuir um pouco da culpa ao reino animal. Se as pessoas ficarem desapontadas sobre os efeitos desse disco, eles também deverão ficar desapontados sobre os gatos. Se você quer ter ódio por mim, isso significa que você também odeia gatos – então. Você sabe, você é uma má pessoa! [risos]
 
 

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