Como é a transição entre criar música para um filme como o Guardiões da Galáxia, criar uma trilha original para o Atomic Blonde e tocar guitarra em uma banda de rock?
Não consigo descrever, mas diria que uma experiência informa a próxima. Eu venho de performances ao vivo, tocar guitarra, e fazia um tempo desde que recuperei meu ego como guitarrista, de ser o centro de tudo. No contexto das performances, tem que ser assim para eu conseguir fazer meu trabalho bem feito, mas toda a minha experiência trabalhando em filmes nas últimas décadas teve uma influência positiva em minhas colaborações com artistas de estúdio, especialmente o Marilyn Manson. Ele é um contador de histórias, assim como o James Gunn, Zack Snyder e Rob Zombie. Todos eles têm suas próprias maneiras de serem e seu estilo próprio de contar histórias, mas no fim das contas é isso que eu faço na música. Ajudá-los a contar suas histórias. Acho que muito do trabalho com filmes me preparou para trabalhar com artistas diferentes de uma forma que eu não conseguiria um tempo atrás.
Ir de um projeto a outro é sempre um tremendo desafio, tem muito estresse e eles se sobrepõe porque as agendas são muito apertadas, então vira uma loucura. Eu trabalho quantidades insanas de horas, mas tenho sorte em ter o apoio de uma grande equipe, uma grande família e amigos. Eles entendem quando eu dou uma sumida. A oportunidade de sair e tocar a música que eu escrevo com o Manson é uma maneira ótima de liberar adrenalina, socar algumas paredes e então voltar ao estúdio em um ambiente mais disciplinado e focar minha energia de um jeito diferente.
Seria muito fácil se todo fosse sincronizado, acho que não seria tão divertido.
Sou muito grato por tudo que está acontecendo agora, porque tenho sorte. Estou trabalhando em ótimos seriados com pessoas incríveis, grandes filmes, e ao mesmo tempo escrevendo e produzindo música com o que penso ser um dos mais importantes e provavelmente o último ícone do rock n’ roll. A música está criando um impacto e a gente ama muito trabalhar juntos. As pessoas podem ter suas opiniões sobre o que eles pensam como deve ser trabalhar com o Manson, mas eu ele trabalhamos juntos muito bem. Ele tira algo de mim que é divertido e animador no meu amor pela música e, inversamente, eu faço o mesmo com ele. Foco a minha carreira em trabalhar com pessoas que me desafiam e tiram o melhor de mim e eu espero fazer o mesmo com eles em retorno. É mais isso do que qualquer outra coisa.
Pela imagem dele ser dura, acho que as pessoas tendem a esquecer que ainda há uma pessoa ali. Tem um cara que costumava ser jornalista musical e ele tem todo esse material diferente que faz e eles atribuem a imagem Marilyn Manson a ele e esquecem de todo o resto.
O Manson está desafiando as pessoas a lidarem com coisas que eles tentam esconder no subconsciente e fingem não estar ali. Se você observar nos últimos 20 anos, olhe todos os artistas que estão aí agora, você vai encontrar pouquíssimos que tenham as letras interessantes, desafiadoras e metafóricas do Manson. Talvez o Tom Petty e mais alguns outros artistas, mas não são muitos; certamente ninguém que a gente tenha estado em turnê juntos tem o corpo de trabalho significante que ele criou como artista. E além disso ele é um pintor excelente e engraçado pra cacete.
Ele sempre quer que todos estejam rindo com ele. A experiência de trabalhar com o Manson tem sido muito boa. Traz uma perspectiva e balanço às outras coisas que estou trabalhando. Ninguém tem a mesma oportunidade que eu, de fazer a trilha sonora de filmes grandes e sair em turnê, passar maquiagem e quebrar guitarras. (Risos) Não quero deixar de acreditar nisso.
Qual foi sua reação quando o Bieber disse que tornou o Manson relevante de novo?
Ele é um jovem que teve uma fama meteórica antes mesmo de saber quem ele é e provavelmente cresceu com várias pessoas dizendo a ele quem ele é. Ele não tem nem base ou qualquer experiência para ter uma sabedoria e entender o que disse. Sei do dia que ele disse isso porque vi o Manson na noite seguinte que os dois estiveram juntos, mas o Manson sempre vai ser relevante.
Um artista sempre vai ter seus altos e baixos ao longo dos anos, especialmente alguém como ele, que não é um cantor/compositor tradicional. Seu trabalho vai durar para sempre, as pessoas sempre vão lembrar das músicas do Marilyn Manson. Não todas, mas algumas definitivamente serão lembradas. Não sei se o Justin Bieber tem o direito de dizer qualquer coisa sobre o Manson, porque não acho que ele tenha alguma música que as pessoas vão se lembrar para sempre.
Com o tempo ele deve ganhar alguma perspectiva e perceber o quão imaturo ele foi de dizer algo assim. Ele poderia ter lidado com a situação de uma forma totalmente diferente e criado uma amizade com alguém que poderia ser bom para ele ser amigo. Você não pode simplesmente usar uma camiseta que tenha o Manson, o Aerosmith ou algo assim e dizer que está os tornando relevantes de novo. Você está falando de pessoas que venderam dezenas de milhões de discos. Mesmo que as coisas sejam diferentes agora, isso ainda é um grande feito.
Manson vendeu mais de 30 milhões de discos. Revelante de novo? Não sei nem o que isso significa. Sei que o cara vive sua vida realmente como um artista e ele vive exatamente como quer. Isso para mim é ser relevante.
Se você ainda sai em turnê e está vendendo discos, não vejo como você pode não ser relevante.
Pois é. Essa turnê Europeia que está vindo, ele está gerando números agora que não gerava há tempos e é por causa da música, e não porque a porra do Bieber usou uma camiseta. A música que ele tem feito na história recente e sua animação, sua vitalidade nas performances… Nosso trabalho junto acendeu uma chama nele que definitivamente ficou aparente na música, na performance e nas gravações. Ele tem feito performances ótimas nas músicas e geralmente quando um artista tem estado por aí há tanto tempo quanto o Manson, é raro que eles consigam criar música nova que chegue perto do material clássico que todos conhecem. Acho que o que a gente tem feito, especialmente neste disco, tem um pouco do fogo de tudo que já fez e estou muito animado para ver isso.
Eu não esperaria menos dele.
Ele teve seus momentos de baixa, mas ele está muito animado com o futuro, muito animado com agora e com a música que criamos. O Heaven Upside Down é um excelente disco do início ao fim. Eu amei o último, mas esse vai ser… Acho que vai ter um impacto mais imediato quando as pessoas ouvirem. Estamos tocando algumas músicas ao vivo e mesmo antes de serem lançadas, o público tem respondido muito bem. É um material bastante animador e ele não está forçando nada para fazer as pessoas gostarem da música, a gente só vai e toca pra caralho e as pessoas estão respondendo, é legal.
Você sempre pareceu ter uma afeição aos conceitos obscuros. Antigamente com o Alien Avengers e morando em uma antiga casa mal assombrada que já foi do Al Capone enquanto você cavava covas. Tenho certeza que foi um prazer trabalhar com pessoas como o Rob Zombie e agora o Manson. Como foi o progresso de vocês se conhecerem no Californication a escrever, produzir e gravarem músicas juntos?
(Risos) é verdade.
A gente se conheceu por um ano, até que chegou o momento de, “ok, vamos ver como é quando estivermos em um espaço criativo juntos.” O The Pale Emperor foi algo que nós nos encontrávamos no meu estúdio por duas ou três noites por semana por uns três meses e quando o disco estava pronto, a gente nem tinha combinado de fazer um álbum. A gente só estava tendo uma conversa criativa por assim dizer. As músicas vieram até nós e foi um trabalho bem sólido que adoramos, então virou o The Pale Emperor. Acho esse disco bem interessante. Acho que nele há uma outra dimensão do Manson que foi revelada não só para o público, mas para ele mesmo, que eu acho que ninguém ainda tinha visto ou sentido. Estava feliz de fazer parte daquilo. A gente fez puramente pela amizade e curiosidade enquanto artistas, meu trabalho com ele não é comissionado.
O processo de composição e gravação mudou deste álbum pro último?
Não, a gente faz no meu estúdio. Geralmente ele vem até o estúdio e me conta o que está acontecendo na vida. A gente conversa muito. O que quer que precise acontecer naquele dia, que música seja, ela vai vir na minha cabeça e a gente começa. Eu começo a fazer a música, ele começa a trabalhar nas letras e a gente faz tudo junto.
Você parece gostar de vir com as coisas frescas e orgânicas. Li sobre você começar uma nova interação por criar música em conversas. Isso acontece com vocês dois?
Todos nós temos esses feitos em nossas vidas ou esse períodos em nossas vidas onde sentimos que estamos em um certo ciclo emocional ou psicológico, ou há uma série de eventos que impactam no que estamos focando. É isso que inicia o tom do que vamos fazer juntos enquanto artistas. A música que criamos é algo que vai estar imbuída nisso. De alguma forma é catártico explorar esses pensamentos, experiências e emoções através da criação de música. Tem muito humor envolvido, é humor negro, mas tem bastante humor envolvido na forma que fazemos música. A gente dá risada e é cínico ao mesmo tempo. Manson e eu temos tido uma história bastante interessante juntos. Tem sido uma colaboração bem apaixonada. Tivemos nossos altos e baixos, mas sempre criamos a música que queremos, nunca sentimos que estamos sem criatividade para fazer a música que nos deixa animados.
Novamente, é como trabalhar com o James Gunn em filmes. É impossível estar junto com o James e não ficar animado criativamente, de criar algo que está fora de tudo que você já fez antes. Não sou uma pessoa pessimista, sou bem monótono. Não fico extremamente feliz por fora, mas acho que estou confortável experienciando toda a gama de emoção. Então fazer música para o Guardiões da Galáxia é tão natural para mim quanto fazer música com o Manson ou Rob Zombie. Eu me relacionado com as histórias das pessoas e é nisso que me baseio. Não fico preso em um único estilo. Acho que tenho uma voz, mas estou confortável alcançando diferentes estilos de música.
Seria difícil se você ficasse preso, fazendo tantas coisas como você faz.
É por isso que faço.
Voltando aos altos e baixos que você comentou. Em entrevistas recentes, o Manson cita um incidente onde ele te ameaçou com um estilete no palco. Você gostaria de compartilhar o seu lado da história?
(Risos) Certo. O engraçado é que minha editora em associação com o Manson chama Box Cutter Music. Quando gravamos o The Pale Emperor, com o tempo, a gente passou MUITO tempo juntos. Daí ele me convenceu a virar um integrante e eu ajudei a juntar a banda, ensaiar, e estava chegando em um ponto onde estávamos no Canadá e eu estava em um dos últimos shows que poderia fazer por causa das demandas da minha outra carreira. Ele estava no palco e chutou uma garrafa de cerveja em mim porque eu fiquei muito puto com ele quebrando garrafas no suporte da bateria porque os cacos estavam ficando na pele dele e não queria que ele se machucasse ou ficasse cego. Então não tinha mais vidros no palco, aí ele chutou a garrafa pelo palco, acho que era uma garrafa grande de Coors Light e me encharcou.
Pra mim foi o fim; a gente estava bem nervoso um com o outro. Foi tipo, “que porra é essa, Manson?” Ele puxou o estilete dele porque ia se cortar com isso e eu fiquei preocupado, dizendo “você tá parecendo um moleque confuso de 17 anos” e ele falou “você quer que eu te fatie com isso? Se você der mais um passo, eu vou te cortar com o estilete.” Foi uma briga de irmãos, a gente sempre esteve de boa. Jamais que se tivesse acontecido alguma merda tóxica entre a gente nós poderíamos ter respondido o último disco com este novo. Esse é ainda mais poderoso, mais focado e mais divertido. Por mais que eu ame o The Pale Emperor, amo esse disco novo do início ao fim, mas acho que o lance com o Manson é que se ele sente que algo vai quebrar, ele mesmo vai lá quebrar antes que quebre. Acho que aconteceu um pouco disso, mas estamos tranquilos. Não tenho nenhum problema com ele ou com o que aconteceu entre a gente, estamos ótimos.
Duvido que ele iria te cortar de verdade com o estilete.
(Risos) eu sei que não. Só desejo coisas boas para ele. Meu propósito é ajudá-lo não só em sua carreira, mas em sua vida. Para mim, ele é alguém importante no rock e o rock está bem entediante. A ideia da presença dele não estar proeminente me incomoda. Quero participar com ele, ajudá-lo a voltar à estação que ele deveria estar. Entrei em turnê com ele pelo mundo inteiro e não consigo entender como este é o caso de algumas bandas que abrimos os shows.
É o estado decepcionante da música hoje em dia.
Digo sua música, suas letras são tão superiores à maioria do que já ouvi das várias bandas com quem estivemos na estrada. São várias bandas boas, mas mesmo assim. Neste ponto estou bem animado em ver que as casas de shows estão bem maiores do que quando comecei a tocar com ele. Toda a turnê europeia está esgotada, isso anima a gente. Ele esteve recentemente no Howard Stern, e isso é algo que não acontecia há muito tempo. Estou feliz por ele, vendo tudo isso acontecer.
Queria muito ter escutado essa entrevista. As antigas são impagáveis. A comunicação e camaradagem dos dois nas entrevistas, você não vê mais isso.
Eles tiveram um papo ótimo. Não ouvi ao vivo, mas recebi várias mensagens. Estava muito ocupado, tivemos uma audição do Heaven Upside Down na minha casa naquele dia, que foi um evento bastante intenso de se fazer. Eu estava pré-ocupado com isso e o The Exorcist . Recebi várias mensagens, “Acho que você deveria ouvir essa entrevista com o Howard Stern”. Pra te falar a verdade eu tinha até esquecido, até receber a mensagem. Mas foi ótimo; ele estava bem atual, bem profundo, bem engraçado e completamente no ponto. Fiquei feliz de ouvir aquilo acontecendo, porque quando isso acontece é um sinal de que o artista realmente acredita no que está fazendo. Você percebe isso só de ouvir a conversa com o Stern que o Manson está bem animado com o que está fazendo e a música que criamos juntos.
O vídeo da We Know Where You Fucking Live foi lançado e há boatos de que KILL4ME é o próximo. Com o seu background de fazer trilhas para filmes, é diferente colocá-las em um videoclipe?
Acho que há um elemento cinematográfico em tudo que escrevo, porque é onde eu estou o tempo todo. O vídeo da We Know Where You Fucking Live não é exatamente o tratamento que tinha discutido inicialmente com o Manson, mas esse é o vídeo que ele queria fazer. Eles gravaram um vídeo de SAY10 e KILL4ME e acho que o da SAY10 sairá em breve. É divertido. Falei pro Manson que já está na hora da gente gravar um vídeo com a banda; os fãs sempre me perguntam quando vamos fazer isso, então espero que possamos ver isso em um futuro não muito distante. Ele está se divertindo gravando vídeos e tem uma boa equipe com pessoas que seguem seus passos. Vamos ver como ficaram esses vídeos, porque eu não faço ideia (risos).
É difícil pra mim, porque eu trabalho com os melhores cineastas do mundo, então eu não consigo nem começar a colocar minha cabeça em videoclipes. Eu enlouqueceria. Eu trabalho com gênios, então é difícil para mim. Acho que eu estava em uma cena de We Know Where You Fucking Live, dirigindo a limosine. Eu não ligo nada em estar em frente às câmeras. Sou melhor atrás delas e odeio muito ouvir a minha voz. Prefiro fazer coisas mais escondido.
Ele está fazendo vídeos muito melhores que no último disco. Aqueles eram inaceitáveis. Falei pra ele que aqueles clipes estavam desvalorizando minha música. Então melhora isso aí (risos). Por sorte ele encontrou as pessoas certas para gravarem com ele e deu um passo em uma direção muito positiva. Estou animado para isso.
Gosto de terminar minhas entrevistas perguntando sobre algo engraçado da pessoa que estou entrevistando porque sinto que isso fica um pouco perdido nas entrevistas. Existe alguma coisa que você acha que possa surpreender as pessoas sobre você ou fazê-las rir que você ainda não tenha falado sobre?
Você quer dizer além de cavar covas para a máfia? (Risos) Morar na casa assombrada do Al Capone e ver exorcismos acontecendo quando eu era criança?
É verdade que eu nunca teria acreditado se não tivesse passado por isso. Não posso falar sobre mim objetivamente sobre esse ponto de vista. Eu estou feliz por dentro, mesmo que eu pareça totalmente monótono por fora.
Não teria como esperar nada além disso em uma turnê daquela. Você teve estiletes, vidros quebrando e tal.
Pois é, estamos nos divertindo. Tem tantas histórias, coisas que você não poderia nem escrever. “Isso realmente aconteceu?” Isso não é no palco, então é sempre interessante e para mim é como aumentar minha experiência de vida e continuar trazendo mais experiências que me inspirem para que eu possa ter uma maior capacidade de contar histórias através da música. É isso que é e muitas pessoas não tiveram essa oportunidade saindo de uma longa carreira fazendo trilhas para filmes. Sou grato.
É definitivamente um mundo diferente.
Com certeza.
É engraçado você falar sobre a experiência além dos palcos, porque vi um vídeo do Manson andando em um corredor após um dos shows e acho que ele quebrou um relógio.
Ah, o relógio. Acho que estávamos na Finlândia ou algo assim, eu lembro disso. Ele levou aquele relógio pra casa; só deus sabe o que custou para ele. Tem muita coisa que acontece. Não quero divulgar muito. Honestamente, se tivessem câmeras dentro do meu estúdio durante a criação do The Pale Emperor, seria o maior reality show de todos os tempos. Não compartilho esses detalhes nas redes sociais ou publicamente porque penso que o que acontece no meu estúdio é sagrado e fica a critério do artista divulgar, mas foi muito divertido e esse último também. O disco foi dividido em dois capítulos porque fizemos muitos shows no meio disso tudo. Estávamos na metade do disco, acho que já tínhamos umas seis músicas, e então fizemos uma turnê de verão com o Slipknot e alguns shows na América do Sul e Ásia. Daí voltamos e finalizamos. Estamos muito animados com esse álbum e espero que as pessoas respondam a ele da forma que nos sentimentos.
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