Em honra ao altamente esperado lançamento de Heaven Upside Down do Marilyn Manson, estamos revelando a parte dois da nossa aprofundada entrevista com o primeiro e único Tyler Bates. Para os que não sabem, Tyler é a mente por trás das trilhas sonoras de Atomic Blonde, Guardiões da Galáxia, John Wick, Killer Joe e outros vários sucessos do cinema. Em nossa conversa imersa de sabedoria, Tyler oferece uma perspectiva dos bastidores da mensagem e identidade artística do Heaven Upside Down e compartilha seu mapa filosófico para o sucesso em seu meio.
Você fez a trilha sonora de enormes sucessos no cinema, filmes independentes, grandes seriados e jogos de vídeo-games populares. Trabalhou com os melhores da área e também é considerado um. Desde o início, qual foi a mentalidade que você teve de adotar para chegar a este nível de sucesso?
Se você olhar para a vida da perspectiva do que você tem e onde você está indo, você vai progredir. É importante mudar o foco do que você não tem, como você tem errado e o que você deseja que fosse diferente. Você tem de deixar as coisas não pesarem nos ombros e não ficar pensando em negatividade.
Para ter sucesso você tem de sair e conhecer gente. Eu tive um problema com timidez crônica, mas tive que encontrar uma maneira de superar isso e conseguir me apresentar para um trabalho. Me comprometi a mudar isso porque eu não tinha outras habilidades para ganhar dinheiro a não ser pintar casas, que já fiz um bocado de vezes.
Já fiz muita coisa, mas ainda sinto que estou no início de tudo. Não fiz nada e acho isso ótimo, não sinto como se tivesse feito ou sei lá. Tenho muito a fazer antes de pensar isso. O fato de eu receber telefonemas para fazer qualquer coisa é incrível e fico lisonjeado. Passei por muitas adversidades na minha vida, mas ao mesmo tempo eu estive rodeado de boas pessoas ao longo do percurso. Por causa dessas experiências eu não posso só achar que tenho mais valor ou que sou melhor que outras pessoas. Fico constantemente agradecido pelas oportunidades que tive. Nada disso se perde em mim.
Quais foram suas principais influências, seus mentores e colaboradores ao longo de sua jornada? Como eles moldaram seu desenvolvimento musical?
É difícil dizer. Se estivermos falando especificamente sobre trilhas sonoras, trabalhar com o Stephen Kay no The Last Time I Committed Suicide e depois em Get Carter criou uma enorme impressão em mim. O Stephen ainda é um amigo querido, mas ele definitivamente me fez sentir capaz de fazer este trabalho.
Minha mãe era uma grande entusiasta de música e ela é minha maior inspiração ou influência em amar música e fazer disso o meu ganha pão. Ela faleceu quando eu era adolescente, mas ela me encorajou. Ela nunca insistiu para que eu tivesse uma outra opção. Em geral, não acho que as pessoas devessem ter um plano B porque acredito que você irá usá-lo. Esse conselho tem ficado um pouco confuso para as pessoas quando pedem para que eu seja um convidado a palestrar em alguma Universidade.
Eu defendo que as pessoas invistam na educação, então elas podem ser efetivas no que fazem. É importante entender os diferentes parâmetros dos negócios. Como artista, você tem que aprender a criar oportunidade para si mesmo e monetizar seu talento. Se você tiver um plano B, você irá usar porque para a maioria das pessoas é difícil demais liquidar isso no nível mais básico. Qualquer trabalho de trilha sonora é difícil de conseguir, mesmo os de orçamento menor. Você tem de ter uma paixão tremenda pelo que faz e ter a capacidade de verdadeiramente entender as pessoas.
Quanto a minha jornada, eu não tive um único mentor. Por exemplo, eu tive aulas de guitarra aos 17 anos com um cara que ainda tenho contato em Chicago. Após trabalharmos juntos por três meses, ele disse, “Quer saber? Esqueça tudo que conversamos. Você tem um estilo próprio e não quero estragar isso porque ele é incrível. Você deveria fazer algo próprio.” Até hoje ele ainda me manda CDs e acho isso muito legal. Houve muitas pessoas influentes na minha vida.
Você produziu o The Pale Emperor, que é um trabalho triunfante e significou uma potente mudança artística para o Marilyn Manson. Quando e como o caminho de vocês se cruzaram? Como a colaboração começou?
Manson e eu nos conhecemos através do Californication. É interessante porque nós nunca estivemos no programa simultaneamente. Acredito que foi na sexta temporada quando ele foi convidado. No último episódio da temporada teve um show no Greek Theatre e um casamento que aconteceu no palco. Tom, o criador da série, teve a ideia de virar o evento em um show de verdade porque o Tim Minchin estava fazendo o papel do Atticus Fetch, o rockstar fictício da temporada. Um personagem meio Elton John louco.
Manson queria cantar e então o Steve Jones do The Sex Pistols, que também estava na série, o acompanhou. Eles convidaram 2,500 figurantes. Manson e eu nos conhecemos no dia do ensaio para o show. Passamos mais tempo juntos no show em si e então fizemos uma outra festa alguns dias depois da gravação daquele episódio. Ele me perguntou se eu consideraria fazer música com ele. Mais tarde, ficamos nos conhecendo por quase um ano antes de decidirmos começar a colaborar.
Após outro evento do Californication, ele chegou em mim e estava tipo, “Bora fazer isso”. Eu fiquei tipo, “Ok, mas só se você estiver muito sério sobre querer se reinventar”. Ele tem sido um ótimo colaborador. As pessoas tem suas ideias e opiniões sobre como uma pessoa realmente é, mas minha experiência com ele, enquanto tem sido uma insanidade total, também tem sido incrivelmente positiva. Muitas boas pessoas apareceram na minha vida através da experiência de trabalhar com ele.
Qual o aspecto mais significativo de sua colaboração musical com o Marilyn Manson?
Nós temos uma conexão criativa natural que é alinhada de forma inata na música que criamos juntos. Não costumamos discutir a sintaxe das nossas ideias porque estamos quase sempre na mesma direção. A gente faz o que tem vontade, então é bem gratificante aproveitar essa liberdade criativa. Esse novo disco tem o fogo. Não é nada igual já ouvimos, então é legal. Acho que no rock atualmente há uma falta de riffs memoráveis e a intenção de juntar estilos. Liricamente, Manson escreve sobre caos, romance, isolamento e a violência que está assolando o mundo como um resultado de tudo isso. O rock está em falta de ícones perigosos. Isso é exatamente o que o Manson é. E ele vai foder tudo de propósito, e sem pedir desculpas. Eu adoro isso!
Eu também saio e vou tocar e eu amo tocar guitarra mais que quase qualquer coisa. É impossível descrever o quão intenso e divertido é tocar as músicas que criamos para milhares de pessoas em lugares que eu provavelmente não visitaria em outra situação. É demais!
Sua identidade musical evoluiu ou mudou desde o The Pale Emperor? Quais novos temas, musicalmente ou nas narrativas, foram introduzidas desta vez?
O Heaven Upside Down foi criado após o Manson e eu fazermos 50 shows juntos, então eu peguei o show e todo o relacionamento físico da música em um cenário ao vivo e trouxe para o disco. Nós dois amamos o The Pale Emperor. É uma exploração ao blues quebrado – musical e liricamente. Dissemos o que queríamos dizer com aquele disco.
Partindo para o Heaven Upside Down a gente se conhecia e já tínhamos compartilhados muitas experiências. Eu quis que o álbum fosse uma plataforma para o Manson retornar ao jornalismo e escrever sobre as coisas que conversamos sobre, que é a doença e passividade que permeia os anais da sociedade. Terrorismo, tiroteios em massa, relutância em mudar, abandono, dogma, apatia, julgamento – tudo isso é disseminado no formato da nossa experiência de vida diária. A música está imbuída com frustração, tristeza e raiva sobre tudo isso, e para explorar esse cenário efetivamente, os sons e riffs precisaram ser mais talhados e abrasivos que no The Pale Emperor. O Heaven Upside Down está incorporado da música que amamos. Gótico e industrial. Riffs grandiosos. Sexo. Partes iguais de “foda-se” e humor afiado. O segundo ato.
Você pode descrever a composição e o processo de produção de uma faixa de destaque do Heaven Upside Down?
Para mim todas as faixas são de destaque! Haha. Sério, Manson e eu criamos música com intenção – não para preencher espaço. O processo de criação de cada música no álbum é semelhante a uma conversa acontecendo entre nós dois em meu estúdio. Por exemplo, uma vez que finalizamos a faixa Heaven Upside Down, sabíamos que seria a faixa título do disco, mas ainda havia outra dimensão que queríamos explorar que completaria o disco como um trabalho. O Manson tem falado sobre o conceito de Saturnalia, que me incentivou a desenvolver uma paisagem sonora como o pano de fundo para a história do Manson sobre duas pessoas em um estado de consciência de alucinação sob os efeitos de Saturnalia.
A música e letra alimentam uma a outra. Com cada letra, outro detalhe musical aparece e com cada detalhe musical, o Manson é constantemente inspirado a escrever mais coisas. Ele sempre coloca um efeito vocal apenas para sentir a faixa de uma forma visceral enquanto considera a totalidade do que ele quer dizer liricamente. É tipicamente nós dois com headphones enquanto gravamos. Algumas performances são gravadas simultaneamente – vocal e baixo, guitarra ou uma linha de teclado – e que é um inferno para lidar com isso na mixagem, mas vale a pena por preservar a vibe. Assim que ficamos satisfeitos com a faixa, o Gil Sharone vem e toca as bateristas, que, dinamicamente, leva a música a outro nível. Manson e eu nos alimentamos das performances da bateria, que inspira o detalhe final do trabalho que vai em uma faixa antes de partir para o modo “full mix”. É mais um processo de cuidado. Todas as músicas estão disponíveis para novas performances e ideias até que sejam masterizadas para o lançamento.
Seu trabalho com as guitarras e tons que criou para a música do Marilyn Manson são especialmente únicos e poderosos. Você pode nos falar mais sobre seu equipamento de gravação para o próximo disco?
Isso pode te surpreender, mas eu uso a mesma guitarra e amplificador quase o tempo todo, especialmente para o meu trabalho com o Manson. Eu uso ou minha Gibson ES347, que tenho há uns 15 anos e ganhei de um amigo, Michael Cirvalo, que foi o presidente da Schecter guitars. Ele fez o modelo Corsair após a minha ES347. Com o Manson, eu toquei com a Corsair porque o Michael ficou tipo, “Jamais você vai levar aquela Gibson pra estrada com ele porque ele provavelmente vai jogar um pedestal nela.” Foi uma coisa boa porque eu quebrei várias guitarras.
Toco com as Schechters ao vivo e no estúdio. Às vezes eu toco um pouco com a Gibson e a ES347. Pode soar meio doido, mas eu também uso um como Peavey Classic 410 quase sempre.
Os vocais podem ser gravados em qualquer lugar, mas eu pessoalmente gosto de gravá-los com os vocalistas bem próximos a mim. Eu tenho uma cabine de vocal que não uso. Estamos de headphones e é bem conversacional, bem rápido. Você pode pegar um fluxo bem legal porque você finaliza as ideias rapidamente, repetindo 10 ou 20 vezes para conseguir uma cadência ou solidificar a melodia.
Às vezes, Manson e eu gravamos simultaneamente, então tem essa guitarra sangrando com os vocais. Ele senta com o microfone próximo a mim enquanto eu gravo as faixas de guitarra. Ele fica brincando com os pedais e colocamos esse material no disco.
O Heaven Upside Down definitivamente tem uma pegada muito mais intensa, que parece que te pega pela garganta. Reintroduz e reinventa os aspectos industriais da música do Manson. Por exemplo, algo como a SAY10 é algo totalmente diferente do que já ouvi. Tem essa sonoridade meio punk rock, com grandes riffs, mas daí entram batidas de trap. Estamos muito animados para lançar esse disco e tocá-lo para as pessoas.
Qual seu conselho para ter talento nos campos de composição e produção?
Sempre seja positivo e otimista na maneira de lidar consigo mesmo. Tenha ciência da sua energia ao redor de outras pessoas. Seja sempre honesto. Seja original e trabalhe para tornar-se alguém que é reconhecível na mesma maneira que suas influências musicais.
Eu pessoalmente sempre batalhei para desenvolver uma sonoridade própria. Não sei como as pessoas percebem meu material, mas qualquer um que já me ouviu tocando guitarra tem um sentimento sobre o que eu faço, pelo melhor ou pior, e amplamente pelo pior ao longo dos anos. De qualquer forma, é importante. Eu iria preferir ser eu mesmo do que soar com todo o resto mesmo se isso fizesse com que eu tivesse mais sucesso.
Tenho mais interesse em falhar enquanto tento criar algo que vire o que é considerado “comercial” do que apenas emular o que já é comercial. Enquanto trabalhar em alguns filmes, eu consegui avançar um pouco, mas em partes é porque os diretores me deram a oportunidade de introduzir novas ideias em certos gêneros. Não acho que o mundo precise de mais jovens iguais ao John Williams porque o John Williams é perfeito, assim com o o Thomas Newman é perfeito. Você nunca vai compor um piano ambiente e emocional melhor do que ele. Ele criou a arte perfeita disso, então você tem que encontrar a si mesmo e sua música, e então se comprometer a isso e autorizar-se a ter o tempo de se desenvolver e ficar bastante confiante em ser você mesmo.
A pior coisa a acontecer na sua vida é descobrir que você não sabe quem você é, especialmente quando está recebendo muita atenção, seja positiva ou negativa. Você vê o efeito disso em algumas celebridades. Eu sinto pelas pessoas que passam por momentos difíceis quando há um grande foco em cima delas. Há muitas coisas que acontecem na vida da pessoa e é muito fácil sair julgando, mas nunca é uma boa coisa ter esse hábito. Se você é você mesmo e tem integridade, ninguém pode tirar isso de você. Se você é a pedra no sapato de alguém, você pode facilmente se perder no processo.
Você tem que pensar sobre o que quer que sua vida seja fora da sua carreira. Da forma como as coisas estão no mundo atualmente, não há separação. Tudo tem impacto na sua vida, então você tem que considerar que tipo de pessoas você quer por perto. Quando o tipo certo de pessoas começam a entrar na sua vida, então as oportunidades estão melhor colocadas para você começar a apresentá-las. As mesmas regras se aplicam a seus amigos e parceiro. Todas essas escolhas são incrivelmente importantes e cada um informa o próximo.
Algumas pessoas saem da faculdade e começam logo a trabalhar para serem pessoas de sucesso, mas você tem que ter alguma experiência na vida para seu trabalho ter alguma substância. Aos 24 anos é difícil se relacionar com o diretor de 45 que perdeu amigos, passou por tragédias, se divorciou, superou a pobreza, se apaixonou e não foi correspondido ou viajou pelo mundo se você não passou por nada disso. Você tem de desenvolver a vida que você quer com o passar dos anos, passar pelas experiências de altos e baixos e nunca parar.
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